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8 de mar. de 2014

Walpurgis em Ribeirão Preto

Crianças desaparecem.
Por vezes jamais são encontradas.
A passagem do Tempo as levam para o esquecimento.
Nos registros da cidade, em anos intercalados, foram registrados o desaparecimento de várias crianças pequenas.
Comentava-se o fato por um período, as autoridades agiam, mas o resultado era pífio.
Entre os anos de 1890 até 1932, noticiou-se o desaparecimento de vinte e três crianças. 

Jamais foram encontradas.
Após o ano de 1932 houveram outros desaparecimentos, mas em intervalos de anos maiores.
Quem atentou para o fato da sequência de desaparecimentos foi o meu amigo G-.
Mas isso muitos anos depois de todo o acontecido.
Atentou o meu velho e bom amigo para um detalhe que as crianças, todas entre 1890 e 1932, desapareceram  nos dias finais do mês de abril.
Até 1932.
Conversávamos sobre isso em seu escritório na velha fábrica. As nossas confabulações ocorriam quase sempre ao final do dia, quando as sombras cambiantes começavam a ressaltar a pernumbra anunciando a noite próxima.
É um momento do dia em que acentua-se um silêncio que provém de outros lugares, de outras crenças, e que para nós é quando os anjos recolhem-se das fainas do dia.
E a conversa correu amena, como em outras oportunidades, entre uma xícara de café e outra.
E o assunto havia começado porque o dia era 30 de Abril, e as recordações fluiram para o meu amigo após muitas décadas, como se os fatos haviam desenrolado-se no dia anterior.
Veja - disse-me - a noite de 30 de Abril para 1 de Maio é a noite de Walpurgis.
É uma noite temida na Europa.
Talvez tenhamos esse medo atávico por causa de nossas origens.
Mas lá, na Velha Terra, toma-se um cuidado especial com as crianças pequenas.
Nessa noite comemora-se o início da Primavera, e nos rituais cujas origens perdem-se na Noite dos Tempos, a realização de sacrifícios eram comuns.
Coisas antigas que perdem o sentido nesse mundo de lâmpadas eletrônicas, computadores, internet, contudo artefatos os quais pouco efeito tem sobre a noite e as criaturas e lendas que caminham nas bordas do Tempo.
É possível observar que, nesses dias desaparecem crianças pequenas que não são mais encontradas.
Há períodos de calmaria, e por vezes passam-se anos sem nenhuma ocorrência, mas, em outros, esses desaparecimentos acontecem.
Dizendo isso, o meu amigo G- levantou-se de sua cadeira e foi até um armário antigo, objeto n o qual poucas vezes eu havia visto com a porta aberta. De lá, o meu amigo retirou uma pasta muito velha, e que continha uma quantidade de recortes de jornais.
Alinhnado-se pelas datas do cabeçalho, foi possível reler as notícias de anos e anos no passado.
E aquilo que o meu velho amigo havia dito era uma constatação.
Nas notícias, muitas com a gramática pretérita, estampadas nos papéis amarelados e frageis, foi possível conhecer uma série de desaparecimentos em datas próximas ao dia 30 de Abril.
Eram surpreendentes! O meu velho amigo, com a sua sensibilidade ímpar havia colecionado uma sequência incrível de fatos os quais não haviam despertado a atenção de ninguém.
Algumas datas estavam anotadas em sua caligrafia cursiva em finas folhas de papel de seda.
Explicou-me que, quando em um dado momento, através da leitura de periódicos notou a sequência, ano após ano, do desaparecimento de crianças, dirigiu-se a sede do jornal, nauseou exemplares de muitos anos passados, e, na impossibilidade de possuir uma cópia dos mesmos, realizou as anotações.
Era assombroso!
Fatos semelhantes em seus contornos, afastados por muitos anos no tempo.
Mais uma xícara de café e acendemos a luminária sobre a mesa antiga de tampo riscado pelos anos de uso constante.
As notícias fluiam como uma sênie mágica e repelente.
Somente a mente lúcida e atenta do meu amigo poderia ter notado essa sequência estranha de fatos.
E o mesmo jamais havia comentado com outro indivíduo, a não ser naquela presente oportunidade.
Lá fora a noite era feita.
A luz da luminária que vazava pela porta, desenhava um retângulo amarelo no pátio.
Para todos os lados, escuridão.
Apenas um ou outro pirilampo mostrava a sua luz verde contra a noite.
Um lasvio de sabor amargo percorria a boca, conforme os olhos tomavam conhecimento daqueles fatos insólitos, perdidos no Passado.
A leitura e a nossa conversa avançou por mais alguns minutos.
O relógio mostrava o adiantado da hora.
Pouco depois o guarda noturno chegou, e ajudei-o a acender as lâmpadas do pátio e dos prédios lá no fundo.
Ao acender a lâmpada da caldeira, soprava um brisa fria a qual contrastava com o calor que ainda emanava da fornalha.
Naquele momento pensei ouvir um breve lamento soturno entre o farfalhar das folhas dos mamoeiros localizados logo ali na horta.
Imaginação solta.
A conversa havia sido muito envolvente.
Recolhemos as nossas coisas, despedimo-nos do guarda e embarcamos no automóvel.
Estavamos em silêncio.
Mas penso que o meu amigo meditava algo semelhante ao que me passava pela cabeça naquele momento.
Algos fatos, alguns segredos devem ficar aonde estão, lá, bem guardados, em uma esquina qualquer do Passado.

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