Lobisomens.
Na falta de um, vários.
Ribeirão, terra de lobisomens.
A tarde ia finda.
Junho.
Pela janela empoeirada era possível divisar a Lua, crescente, com as pontas viradas para cima.
Frio.
Sentados no escritório do meu saudoso amigo Gino, o mesmo perguntou-me:
Você acredita em lobisomem?
Quem sou eu para por em dúvida os conhecimentos que vagam pelo Tempo, pelo mundo, pelas Lendas. Veio a história. Zé Casadinho. Esse era o nome do indivíduo. Zé Casadinho.
Guarda noite na fábrica.
Função muito propícia para o Zé.
Naqueles tempos, haviam três frigoríficos no entorno.
Ao fundo, a linha férrea da São Paulo-Minas. Mais adiante, a linha férrea da Mogiana.
Muito gado, muitos despojos.
Durante o dia, muita atividade.
Na noite, pirilampos e silêncio.
Uma noite, um motorista atrasou-se. Que coincidência. Noite de sexta-feira.
Parou o caminhão Mercedes defronte ao portão.
Ainda
havia fumaça na caldeira. Uma fina fumaça branca subia para o céu
noturno daquela distante sexta-feira, eternizada no Ontem.
O guarda deveria abrir o portão.
Várias vezes a buzina foi acionada. Nada.
Como
as ordens era para que o veículo pernoitasse na fábrica, o motorista,
ciente de suas obrigações, pulou o portão e dirigiu-se pelo pátio, em
busca do guarda.
De repente, um rosnado gutural, forte, selvagem. De cão acuado.
Mas não havia, naquela época, cães na fábrica.
Pelo
vidro canelado da porta do escritório, uma silhueta enorme, escura,
bestial mostrou-se no contorno contra a luz que brilhava no interior do
cômodo.
No mais silêncio. Apenas o silvo do vapor da caldeira que esfriava.
E o rosnado. Mais uma vez.
O motorista afastou-se alarmado. Havia um telefone, mas esse ficava no cômodo aonde estava a visagem.
O homem retirou-se rapidamente. Retrocedeu o pesado caminhão e foi com o mesmo para casa.
Dormiu na boléia, vigiando-o.
No dia seguinte, relatou ao patrão, assustado, a boca pequena o que havia ocorrido.
Bom, o meu amigo contou-me que, a a partir de então, as folgas do guarda noite passaram a ser nas sextas-feiras.
E naqueles paragens da nossa vetusta Ribeirão Preto, a paz retornou nas noites.
Por algum tempo.
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Nossa, muito assustador!
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