Entre em contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

marchetti57@gmail.com

Seguidores

Translate

Estatísticas

Visualizações

About Me

Copyright © Aristides Marchetti | Created by www.csstemplateheaven.com | Blogger Template by Blogger Template Place

8 de mar. de 2014

Criaturas da Noite em Ribeirão Preto

Foi atípico aquele mês de junho de 1983.
Além do frio, choveu muito.
Foi quando começaram os relatos dos pequenos animais com os pescoços dilacerados no Bosque Municipal.
Os bichos apareciam exangues, e pouco  sangue havia em volta.
Um mistério que foi relatado em uma ou outra nota ao pé de página nos jornais locais.
Um verdadeiro caso para Charles Fort investigar.
Mas ficou nisso. Alguns sensíveis notaram as notícias, mas o cotidiano continuou a fluir.

Nos dias que se seguiram, aconteceram outras ocorrências.
Dessa vez, silêncio na imprensa.
Alguns funcionários que manuseavam o local, descobriram os animais.
No mesmo estado dos anteriores.
Em volta dos pequenos corpos nenhum sinal que evidenciasse qual o agressor.
Na metade do mês, as chuvas se intensificaram.
Por  vários dias choveu incessante, fazia frio, chegou a haver precipitação de granizo em uma ou outra oportunidade.
Com poucos indivíduos circulando pelas ruas, o Bosque Municipal ficou ainda mais abandonado.
Em uma tarde daqueles dias, ao caminhar pelo local, totalmente vazio, frio, escuro, com pancadas eventuais de chuva forte,
as alamedas encontravam-se desertas, o guarda-chuva fez-se mais uma necessário.
Por entre as folhas que caiam no passeio, e a enxurrada que corria pela guia, e as poças que refletiam a luz baça do dia a findar-se
os espaços entre as árvores estavam sombrios.
Rompendo o silêncio havia somente o gotejar da água nas folhas úmidas, e da corrente forte que descia pela guia.
Em passos lentos aproximei-me do recinto dos felinos.
A entrada daquele local havia grandes touceiras de bambu.
A chuva precipitava com mais intensidade, e o bambuzal refletia com intensidade toda essa água.
Os caminhos estavam agora enxarcados e enlameados.
O crepúsculo acentuava-se, e, em alguns pontos afastados já havia escuridão.
Foi nesse momento que vislumbrei uma silueta.
Entre a chuva e a neblina que começava a acentuar-se a figura pareceu-me indistinta nessa atmosfera baça.
Cheguei mais perto. Era um policial. Cumprimetei-o.
O policial respondeu com um som gutural, o qual interpretei como um - boa tarde.
Contudo, mesmo próximo, a figura do policial continuava embaçada, como a neblina do entorno, e tênue.
Os meus passos ficavam marcados na lama.
Notei, intrigado, que não havia marcas no solo, onde o policial havia caminhado. Sensações entorpecidas.
Talvez por ali o solo estivesse mais firme, pensei.
Mas tudo isso ocorria de forma muito rápida.
Tão rápida como a luz do dia que esvaia-se célere.
Essa figura, do policial, ficou evidente pelo quepe. Na verdade estava o indivíduo todo coberto por uma capa de chuva escura, a qual descia até a altura das canelas. E o indivíduo era alto. Possuia uma estatura acima da média.
Ao levantar os olhos para contemplar o rosto do meu companheiro de final de tarde, o seu semblante era uma sombra, acentuada pela capa que envolvia-lhe toda a cabeça, com o quepe sobre o conjunto.
Mas eu não conseguia ver o ser rosto nessa pernumbra.
Apenas dois pontos, ainda mais escuros do que o rosto, como se fossem pontos negros sobre um fundo marrom.
Esses pontos irradiaram uma malignidade fria, selvagem, atemporal.
Naquele momento, a tarde finda tornou-se mais fria, mais escura, e o vento que começou a soprar espalhou mais a chuva, acentou a neblina, agitou as folhas molhadas.
Afastei-me alguns passos.
O indivíduo começou a caminhar em sentido contrário da minha direção.
Seus pés não deixavam marcas no solo enxarcado.
Mais alguns instantes, e a figura estava confundida entre as sombras, a chuva, a neblina e a escuridão que precipitava-se.
Algumas lâmpadas nas luminárias próximas começaram a acender.
Mais alguns instantes e havia somente eu, a chuva, o vento, e as sombras acentuadas pelas luzes.
Essa sequência de fatos foi percebida depois, muito depois.
Os dias seguintes foram ainda de chuva e frio.
Na última semana do mês, os dias amanheceram claros e frios.
As chuvas haviam terminado, indo embora para outras paragens.
Nos dias que se seguiram, continuei com as rotinas cotidianas.
Repartição, escola, algumas conversas eventuais com os amigos.
Em um daqueles dias, ao folhear as páginas de um jornal local, estava noticiado que as chuvas estavam intensas em outra região do Estado.
E, numa nota ao pé da página, constava uma notícia sobre o aparecimento de pequenos animais mortos, com os pescoços dilacerados, lá por aqueles lados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagens populares