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8 de mar. de 2014

Uma Carta para o Dr. Edwar

Aquela manhã de junho estava fria e chuvosa.
No trajeto que o Dr. Edwar fazia até a delegacia, ela passava por sob as grandes árvores da praça, as quais gotejavam a umidade acumulada.
Naquela hora não havia ninguém no entorno. Nem os costumeiros andarilhos embriagados.A luz tênue das últimas luminárias refletia-se nas poças.
Aqueles momentos de silêncio e apatia de um dia frio encontravam um homem simples, de rotinas, caminhando para o seu local de serviço, talvez algo disposto pois o clima ameno depois de vários dias de calor era algo bem vindo.

O Dr. Edwar entrou no prédio da repartição, uma casa antiga, adaptada para ser uma delegacia, de um grande bairro da cidade, mas de qualquer forma pacata em suas ocorrências. Uma desavença ocasional de casais, alguma discussão de vizinhos, um pequeno furto.
À entrada cumprimentou o funcionário que encerraria o seu plantão logo mais, e dirigiu-se para a sua sala. Estava fria. Acendeu a luminária, uma peça antiga de cristal, que fazia parte do acervo da casa. Algumas lâmpadas fracas brilharam, acentuando ainda mais as sombras fugídias nos cantos das paredes entre os arquivos. Ao correr a cortina, entrou um pouco mais de luz, mostrando a praça, do outro lado da rua.
Agora, um ou outro transeunte apressava-se sob a chuva que se intensificava.Não havia nenhuma ocorrência urgente.
Sobre a mesa acumulava-se um volume de de correspondências dos dias anteriores.O Dr. Edwar pediu que lhe trouxessem uma xícara de café e começou a verificar os envelopes.
A maior parte eram documentos oficiais. Algumas propagandas também faziam parte do volume. Outras provinham de entidades que solicitavam algum tipo de auxílio, uma da igreja, comunicando da quermesse, e ainda uma carta em um envelope pardo, de tamanho ofício, sem remetente.
O endereçamento estava escrito em letra de forma com as letras achuriadas com tinta de outra cor, com o objetivo de dificultar uma uma possível identificação.
As autoridades policiais recebem muitas cartas anônimas. Seria essa mais uma. Há sempre uma curiosidade em relação a esse tipo de correspondência.
O Dr. Edwar bebericou um pouco do café, e abriu a carta.Haviam duas laudas datilografadas, em papel comum, e a tinta da fita de impressão da máquina estava bastante fraca.
Haviam algumas palavras corrigidas à tinta, não havia data na cabeçalho e também nenhum nome, nenhuma assinatura. Observando o envelope, foi possível constatar que a carta havia sido postada na cidade mesmo, na agência do correio da avenida. Após esse exame, o delegado passou a ler o texto, o qual dizia, resumidamente, o seguinte:"... há muitos anos que eu não vinha para Ribeirão Preto. A cidade cresceu muito em relação aos anos de 1950. Existem lugares que nem ao menos os reconheci. Foram abertas novas ruas, outras foram pavimentadas, outra ainda estão no completo abandono que sempre as caracterizou.
Ribeirão Preto sempre foi mesmo uma cidade de contrastes.Caminhei por vários bairros, passei pelas antigas estações ferroviárias, vi que a central nem existe mais. Ouvi também que pretendem resolver a questão centenária das enchentes, com o alargamento do leito do rio, o que, penso, irá sacrificar as palmeiras e outras árvores majestosas,  plantadas desde o começo do século. Sinais dos tempos ... Também observei que a cerâmica das sete chaminés não está mais ativa, bem como as demais indústrias que deram o nome aquela rua que termina na fábrica  de refrigerantes. Ouvi também da vizinhança que o dono da fábrica, o Senhor G_ ainda é vivo, bem avançado na idade. No mais escombros.
E mais escombros ainda, quando observei que o antigo Matadouro Municipal foi demolido, o por sobre os restos edifício há uma via pública.
Restaram somente alguns muros de arrimo de separavam os animais para o abate do leito da ferrovia. De qualquer forma, a situação é interessante.
Os nove indivíduos que por ali sepultei, entre os escombros e a cantária, gentes de somenos que perambulavam pelos arredores, prostitutas e notívagos, jamais serão encontrados ..."
O Dr. Edwar leu as últimas linhas entre um austo de espanto e incredulidade. Bebericou mais um gole de café, já frio.

Lá fora, no horizonte, ribombou um trovão, e a chuva ganhou intensidade, enevoando a vista da praça, e tornando baça a luz de um ou outro veículo que passava.

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