Daniel sentou-se na varanda defronte a casa.
Dali podia enxergar toda a extensão da rua.
Manteve as luzes apagadas.
A noite estava fria, como frias são as noites de junho.
Do ponto onde estava podia observar também a Lua, no minguante, a Oeste.
Era dia da Procissão de Santo Antonio.
Daniel havia por anos seguidos acompanhado o andor.
Mas nos últimos tempos, a saúde debilitada veio a impedi-lo de lá estar naquele ano.
A procissão seguia o mesmo trajeto há décadas.
Passava defronte a sua porta.
Naquele ano decidiu que realizaria o seu ato de Fé em Santo Antonio festejando-o quando o andor passasse por sua porta.
Entre a pernumbra, somente quebrada pela luz da rua, e o silêncio do entorno, Daniel instalado
em sua poltrona, adormeceu.
Não
sabia quanto tempo havia passado quando, acordando em um sobressalto
viu a luz tênue das velas do andor, bem como centenas de outros pontos
de luz.
Era a procissão.
Por entre a brisa da noite fria, Daniel observou que o cortejo aproximava-se no mais absoluto silêncio.
Os cachorros da vizinhança estavam quietos. Nenhum latido cortava o ar fino.
E também, interessante, as chamas das velas não oscilavam.
Daniel concentrou-se em suas orações, e a multidão, com suas velas, seus
capuzes, suas sandálias, o andor, com o santo sobejamente iluminado,
entre flores brancas, foram passando, silenciosos, etéreos, preenchendo
todo o espaço da rua, das calçadas, sob as copas das árvores, dentro da
noite. Mágica.
Envolto em pensamentos e preces, não soube depois Daniel dizer qual o intervalo que ficou a meditar.
Acordou uma segunda vez.
Estava no mesmo lugar, sentado em sua poltrona.
Havia passado um grande intervalo de tempo, pois a vela votiva no canto da varanda estava prestes a apagar.
Bruxuleava a sua chama, lançando sombras tremeluzentes de si e dos objetos na varanda.
O grande vaso de samambaia produzia sombras recortadas na parede.
O frio na noite havia acentuado. O silêncio era envolvente.
Não havia mais nenhum sinal da procissão que havia descido a rua e virado em uma esquina.
Esquina do Tempo.
Daniel recolheu-se.
E
durante os sonhos da noite sonhou com uma procissão, profusamente
iluminada, em uma noite deserta de outras vidas, e que as sombras dos
participantes desenhavam sombras oscilantes nas paredes das casas pelas
ruas em que passavam.
Silêncio absoluto. Não ouvia-se nem o murmúrio das orações.
Nasceu o novo dia.
Lembranças noturnas.
Divagações através das orações na Fé e nos Mistérios.
Enquanto
isso o rádio na cozinha noticiava que a procissão da noite anterior,
depois de décadas, havia percorrido um outro trajeto.
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