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8 de mar. de 2014

O Leiteiro Alécio

Há momentos nos quais parece que foi no outro dia.
Há momentos em que os anos de 1960 estão na distância de uma Eternidade.
Mas, os sons, as visagens, os odores ainda manifestam-se nas ruas desertas, nas horas tardias.
Nas horas mais escuras da madrugada.
Era quando o leiteiro vinha devagar com a sua carroça de câmara fria, isolada com cortiça, puxada por um cavalo, para entregar o leite, de casa em casa.
Os litros de leite, confeccionados em vidro, ficavam nas portas das casas, atrás dos muros, nos alpendres.


O leiteiro Alécio passava, recolhia o vazio e deixava o outro litro cheio.Nos finais das tardes ele e o seu cavalo passavam para atender um ou outro pedido, e em um dia qualquer do mês, recebia os atrazados da vizinhança.
E os anos fluem.
O Tempo, essa engrenagem de constante movimento, afasta algumas coisas, envia outras.
E, em um determinado dia não havia mais o leiteiro Alécio.
Resistiu por algum tempo quando das embalagens plásticas, trocou o cavalo por um mais novo, mas a geração seguinte já estava na cultura do descartável.
As tampas dos litros de leite eram de alumínio.
As mulheres guardavam essas tampas por meses a fio, e, em um determinado momento, essas tampinhas iam para a fundição e voltavam em forma de caçarolas.
Isso também passou.
Aqueles sons na madrugada, dos passos do cavalo no piso da rua, dos litros de leite vazios chacoalhando em seus engradados de metal, da voz do leiteiro Alécio dando ordens ao cavalo, e o ruído do trinco do portão da rua sendo aberto soaram por muito tempo.
Soaram quando o leiteiro não mais entregava o leite.
Soaram através dos anos, nas noites frias, nas noites chuvosas de verão.
Soaram quando a madrugada chegava e encontrava-me, insone, adivinhando o mundo para além do muro lá de casa.
Para além dos quintais, dos terrenos baldios, das mansardas antigas, da rua calçada com paralelepipedos.
Para além de todos os muros, de todas as casas, de todas as ruas, até o fim da cidade, e mais para longe ainda, nas sombras, na pernumbra, aonde não chegavam as luzes fracas da rua, nem a luz dos lampiões de querosene, nem a luz da pequena chama de uma vela votiva acesa para o santo, sobre a cômoda.
Passaram todos os aniversários, todas as festas, as vindas e as partidas.

Por vezes, naquelas horas mortas da madrugada, quando ao longe ouve-se um galo, ou um gato na vizinhança, horas que poderiam encontrar um ou outro menino ainda acordado, os mais velhos ouviam, intrigados, nas falas assustadas dos meninos pela manhã, o relato de sons de cascos, com o tilintar agudo de metal batendo em vidro, de rodas girando sobre as pedras da rua, e ordens de comando proferidas a um cavalo.

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