28 de mai. de 2014
A Fábrica de Nuvens
Ao final da tarde ele aparecia na esquina. Entre as sombras do crepúsculo entre as paredes antigas.
A sua buzina tocada por um fole era inconfundível.
O carrinho envidraçado, azul, fazia a sua presença na rua de paralelepípedos, coberta de folhas, nas calçadas rachadas de priscas eras, nas mansardas ocupadas por várias gerações.
A luz que vazava pela vidraças coloridas do carrinho de algodão doce era propiciada por um lampião a querosene. Via-se ao longe reflexos vermelhos, azuis, amarelos, laranjas.
E havia o cheiro do algodão doce que exalava na brisa ao crepúsculo.
Os meninos das redondezas aproximavam-se trazendo nas mãos tostões para adquirirem o doce mágico.
Através dos vidros coloridos era possível ver o toque do mago que criava nuvens brancas ao pressionar pedais de bicicleta e fazer girar um fuso dentro de uma bacia de alumínio. Algo incompreensível, sobrenatural. Do movimento dos pés do mago, um homem velho, muito velho, com ralos cabelos brancos, um óculos de armação de ouro, sustentando na ponta do nariz lentes de incrível espessura, vinham maravilhosas, doces e fantasmagóricas nuvens.
O mago das nuvens brancas jamais verificava o valor ou a validade das moedas que as crianças lhe entregavam.
Era algo atemporal essa sua atitude quanto ao dinheiro. As moedas poderiam ser qualquer época, mas a nuvem jamais deixava de ser entregue ao ávido freguês.
Em alguma oportunidade fui levado a imaginar que, ao passar pela rua ao final do dia, o mago já havia ganho o dinheiro suficiente de sua subsistência, e aquelas poucas peças de nuvens retiradas do horizonte infinito não iriam fazer falta em seu orçamento. Ideias de criança ficar a imaginar coisas esdrúxulas.
E nos desvãos entre o último raio de sol e a primeira estrela no céu, o carrinho de algodão doce conduzido pelo mago de cabelo branco descia e rua para outras paragens, com as cores dos vidros coloridos vistas ainda ao longe, e o cheiro de nuvem espalhado pelo ar.
E assim foi, por entre os verões, por entre os invernos, nos dias de férias, dos dias frios, nos dias quentes, nos dias de chuva, nos dias de aniversário, nos dias de mortes, naqueles dias definitivamente perdidos no Tempo.
Mas tudo aquilo que acontece sobre o mundo tem uma razão. Mesmo que não consigamos entender qual é.
De uma feita voltando certo dia em hora mais tardia da visita a um primo que se encontrava acamado, em um início de noite frio, com um vento seco e empoeirado soprando à socapa, querendo disfarçar o prenúncio de chuva anunciada ao limite do crepúsculo, avistei o carrinho de algodão doce vindo pela rua deserta, espalhando a sua luz colorida, o seu cheiro de nuvem doce. Entre as folhas secas agitadas pelo vento ao ribombar do primeiro trovão o velho parou sob uma árvore frondosa que projetava uma sombra intensa na rua e nas paredes. A minha astúcia de menino aconselhou-me a ficar quieto entre as luzes cambiantes sob o início do temporal.
Daquela sombra intensa provocada pela árvore agitada começaram a surgir meninos e meninas, um grande grupo de crianças, que caminhavam de forma silenciosa, etérea, envolvendo todos o carrinho, com as suas pequenas mãos estendidas depositando moedinhas na mão do fabricante de nuvens, que as entregava, translúcidas, refletindo as cores dos vidros, para cada um, sendo que em seguida iam afastando-se, tênues em sua consistência, tal como as nuvens de açúcar.
Logo em seguida copiosa chuva desabou sobre o mundo, lavando o cheiro do doce, apagando os vidros coloridos.
Cheguei com atraso em casa, todo molhado, levei uma bronca da mãe, tomei um banho e depois de uma sopa fui dormir.
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