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23 de fev. de 2017

Cata Ossinhos (4)

Era Agosto. 1967.
O lugar onde hoje está instalada uma grande escola na Rua Capitão Salomão.
Antigamente havia ali uma pedreira de onde extraíram material para a construção dos Campos Eliseos, do Ipiranga, da Vila Tibério.
Amplos campos de antanho se estendiam por ali.
Em mãos uma lanterna de corpo metálico e duas lentes dos óculos dispensado pela nona.
No lugar do refletor, uma lente.
No outro extremo, junto à tampa para introdução das pilhas, um pequeno furo e uma outra lente.
Enroscando-se e desenroscando a tampa, alterava-se o foco. Uma luneta!
E com ela o Universo ficou mais perto.
Um avião deslocava-se no céu naquele momento. Era um monomotor, branco e vermelho.
Meio século mais tarde ocorreu-me pensar que avião era aquele e quem o conduzia em direção ao aeroporto.
Coisas do Passado.
Todos os dias, em todas as Eras de um Tempo Passado, morto, aviões e meninos cruzam os céus rumo à Eternidade.

Cata Ossinhos (3)

- Lobisomem?
- Sim, um lobisomem.
- Lá naquela casinha, nos fundos da fábrica de refrigerantes, perto da caldeira.
A caldeira ainda exalava calor.
Durante todo o dia houve muita atividade, mas agora, ao anoitecer, outros ocupavam o espaço.
- É meio difícil de acreditar nisso. Você o viu?
- Não, não o vi, mas entre os odores das essências, da lenha queimando, do vapor, do melado no tacho para esfriar, entre os sacos de açúcar e as garrafas limpas e suja, senti o seu cheiro. Um cheio acre, putrefato, de coisas não vivas, mesmo que não mortas.
Um cheiro de passagem do Tempo, de monturos, de fossas, de coisas velhas e rançosas.
As lâmpadas lá do fundo, entre o barracão e o rio foram acesas, provavelmente pelo Seu Zé, o guarda noturno.
Sim, lá vinha ele, empunhando o Smith Wesson calibre 32. Vinha pálido, ofegante.
- Não vão lá para baixo - disse. Por não poder passar pelo rio para atingir outra freguesia, ele ficará por aqui mesmo na fábrica e nos terrenos do entorno. Aqui, você sabem, é uma ilha. E o único caminho de saída é lá pelo beco da Dona Mercedes. Vamos para o escritório tomar um café junto com o Seu G_ e esperar que ele passe e vá embora. Retornará somente de madrugada, após visitar as sete freguesias de sua penitência.
E, dentro da noite, ouvimos,e sentimos o cheiro pestilento entre os acordes dos uivos dos cães ao longe.
- Agora vocês podem ir, mas apressem-se. Evitem a Ponte do Gelo e não fiquem rente os muros do frigorífico.
Amanhã será outro dia, e amanhã será outra noite.
Ao tirar as munições do bolso, foi possível perceber que os projeteis brilhavam bastante. Eram de prata.

Cata Ossinhos (2)

A noite já corria com ares de madrugada.
A música saia em volume baixo das caixas para não acordar ninguém da casa.
O meu amigo Zuchetto comentou:
- Iremos ainda hoje?
Em um canto havia uma mochila com lanternas, ferramentas, água benta (furtada na igreja) e uma Bíblia.
- Sim, respondi, às três horas da madrugada é o momento mais escuro da noite e o mais propício às materializações.
Continuei a limpar e manusear o Smith & Wesson, calibre 32.
- O revólver é mesmo necessário? indagou o meu amigo.
- Algumas semi materializações são passíveis de destruição mecânica, respondi.
Ao longe, no silêncio da noite, um carrilhão acusou os três quarto de hora.

Cata Ossinhos (1)

O Senhor Cláudio e o seu auxiliar cavavam diligência a terra dura no espaço próximo ao alicerce da capela.
A manhã ia alta e havia possibilidade de chuva. O vento úmido arrastava as folhas secas. Aquele mês de maio havia se apresentado muito chuvoso, diferente dos anos anteriores.
Estávamos em uma área próxima a Rua Flávio Uchoa, a aproximadamente cinquenta metros da avenida.
Vários fragmentos póstumos foram surgindo a aproximadamente um metro e meio da superfície.
O buraco deveria ser mais fundo, para bem abaixo do alicerce da capela, pois ali seriam construídas uma série de galerias.
Em dado momento apareceu sob a terra o que parecia ser um antigo alicerce,
- O que são esses tijolos e pedras, seu Cláudio? - perguntei.
E o construtor respondeu-me que eram as fundações do antigo muro do cemitério. Com o alinhamento da Rua Flávio Uchoa, ainda nos anos de 1930, as divisas do terreno chegaram até o ponto onde estão hoje, limitadas pelo passeio público.
Nos anos anteriores o recinto era menor. O perímetro como o conhecemos hoje foi estabelecido ainda nos anos de 1940.
E aqueles escombros e restos que observávamos eram dos indivíduos vitimados pela Gripe Espanhola, a qual no final de 1918 e início de 1919, vitimou de forma fatal mais de duas centenas de cidadãos ribeirãopretanos.
Naquela manhã de maio, quando uma chuva torrencial e fria começou a cair, um fragmento do Passado havia sido posto à lume, oitenta anos depois dos fatos.

Partículas

A tarde já ia avançada nas horas.
O Sr. Bernardo cavava com diligência a terra na Quadra 4 do vasto cemitério.
- Já está tarde "Nego Véio", comentei.
- Eu sei, doutor, mas esse enterro é para amanhã bem cedo, e tudo deverá estar pronto.
Aguardei mais um pouco. Pazada após pazada o monte de terra aumentava.
Vários minutos depois o Sr. Bernardo parou de cavar, apoiou o cotovelo no cabo da pá e comentou:
- Estou pensando enquanto cavo. Ainda em 1943, quando eu tinha sete anos a minha mãe foi sepultada aqui no entorno desse local. Os mortos, naquele tempo, eram enterrados diretamente com o caixão no solo.
Coincidência, não? Depois de setenta anos estou aqui a remexer a terra e por um instante, enquanto o senhor fitava o crepúsculo, senti uma lufada de um vento mais quente e um odor de flores.
- Coisas da Vida, velho, eu disse.
- E também da Morte, penso.

"O Boca"

Olegário foi o último freguês a deixar o bar.
Às suas costas o proprietário passou o ferrolho na porta de madeira.
De um lado e de outro da avenida deserta havia ainda algum luminoso de neon aceso.
Lá em cima brilhava a Lua. Estava na fase cheia e a sua luz prateava os telhados antigos na noite fria.
Olegária começou a caminhar devagar rumo a sua casa.
Estava sem pressa. As noites de sexta feira prenunciam o fim de semana.
E, sem pressa, foi caminhando pela via pública vazia de movimento.
Não tinha o hábito de beber, mas naquela noite em especial havia tomado talvez um trago ou outro, comemorando sozinho a elegia que havia composto sobre a vida.
Sobre a vida em geral, não sobre uma vida específica.
Sentia-se bem. Na verdade, sob o frio da noite aquele trago a mais havia sido bom.
Caminhou, e sob as árvores frondosas da avenida que levava até a praça, as sombras sucediam-se entre a vaga iluminação pública e a pálida luz da Lua.
Quando já se encontrava atravessando o caminho diagonal que cortava a praça, ele avistou o indivíduo.
Estava encostado em um poste de iluminação. Trazia um sobretudo e na cabeça um chapéu mole que lhe encobria o rosto.
- Tem fogo? perguntou o homem, quando Olegário cruzou com ele.
- Sim, tenho - respondeu e prontificou-se a acender o isqueiro. Imediatamente a chama brilhou e iluminou o rosto do solicitante.
Olegário deu um passo para trás, assustado com o que viu, ao mesmo tempo que sentiu um forte cheiro de putrefação.
E o que viu foi um rosto descarnado e pútrido, quase que somente uma caveira, com os ossos sujos, na imagem embaciada proporcionada pela luz da pequena chama do isqueiro à gasolina.
Olegário afastou a correr do local, procurando estar o mais longe e o mais rápido possível daquela imagem tétrica e inexplicável.
Correu e correu até chegar à sua casa, vários quarteirões daquele ponto.
Ele guardou a história dessa experiência por muitos anos até uma noite há pouco tempo passado, em um círculo muito pequeno de amigos contou a história a título de desabafo e para completar mais um poema sobre a finitude da vida. Olegário escrevia poemas simbolistas ao estilo de Augusto dos Anjos.
No outro dia, lendo o obituário de um jornal local, fiquei a saber do seu passamento.

A Quermesse do Asilo

Durante muitos anos, nos meses de junho, o trenzinho da Quermesse do Asilo Padre Euclides, em sua bitola de sessenta centímetros levou o pessoal em passeios noturnos por entre os pomares e os campos antigos, ao lado do Cemitério da Saudade, onde hoje existe uma escola e vários outros prédios comerciais.
Mais do que uma volta pelo perímetro do terreno, a pequena locomotiva à diesel, com o seu farol único, um olho de Ciclope, propiciava um retorno à priscas eras com os cenários iluminados pela luz amarelada e baça e os resquícios dos tempos antigos.
Quem passava pela rua Flávio Uchoa e no entorno nessas noites festivas, podia observar o farol da locomotiva rompendo as trevas nas noites frias.
Por entre as falhas das cercas de madeira e dos muros de taipa os olhos curiosos e poéticos podiam divagar sobre aquela luz imersa na escuridão das eras.
Saborear os doces daquela época, todos feitos em tachos, sentir o calor da fogueira e embarcar para o passeio mágico eram ações que, ao terminarem, faziam com que se desejasse a mesma experiência a qual, certamente, ocorreria no ano seguinte.
O tempo passava mais devagar, os acontecimentos eram efêmeros, e vindo pelas tranquilos ondas longas de rádio, demoravam a trazer as notícias.
E quando elas chegavam, demoravam mais tempo para irem embora.
A vida corria de forma plácida e ninguém podia imaginar mudanças drásticas.
Mas essas mudanças ocorreram. Essas mudanças ocorrem.
De um certo ano para frente, o trenzinho não mais circulou.
Os indivíduos crescem, morrem, partem para outros lugares, e os interesses são outros.
Por muitos anos a pequena locomotiva e os seus vagões ficaram em um canto do terreno esperando naquela mesma fluência do tempo no passado.
Um dia removeram a linha férrea. Os vagões viraram sucata e a locomotiva enfeita o jardim.
Mas a Imaginação em cumplicidade com o Tempo ainda possibilita, na memória dos cidadãos mais velhos, as recordações desses momentos atemporais de encanto e poesia.
Quiçá atiçando na mente dos mais afoitos e faze-los ouvir, nas noites frias e silenciosas, o som do apito a ar e vislumbrar o espectro da luz do farol varrendo o topo das árvores e sendo observada por entre as falhas dos muros de taipa que ainda se encontram por lá.

O Fantasma da João Penteado

Ao entardecer, sob as sombras das árvores antigas, alguns afirmaram tê-lo visto.
Outros jamais perceberam qualquer coisa.
No mundo veloz, de sensações fugazes e de extroversão, os sentimentos e a poesia estão relegados aos escombros e a poeira.
E o que aqueles que viram, afirmaram ter visto?
Um menino pequeno, loiro, oito, nove anos, mas com uma característica na qual todos concordavam.
A questão de sua roupa.
Eram roupas de uma outra época, talvez de meio século atrás.
Calções no joelho, suspensórios, camisa listrada e sapatos de duas cores.
Aqueles que o viram disseram que no entremeio entre as sombras das árvores ao chegarem na esquina, após uma rápida olhada para a mão do trânsito, já não o viam mais.
Curioso.
Quando os indivíduos estavam juntos, por vezes teciam um comentário exclamando o fato.
Quando o passante estava só, guardava para si a impressão. Às vezes relatava a passagem com a mulher, o marido, algum amigo.
E mais uma porção de Tempo se esvaiu.
Uma lenda urbana, uma ilusão visual.
Um dia, em seus afazeres de liberar espaço em uma estante de livros, Ernesto encontrou em uma caixa de papelão vários recortes de jornais antigos.
Manuseou-os e, entre as reportagens encontrou uma que referia-se a morte de um menino.
Ele havia morrido após uma queda de trinta metros em uma pedreira localizada na Rua João Penteado, na primeira metade da década de 1960.
O mundo veloz, insensível, extrovertido não deixa espaço para o sentimento, a introspecção, a poesia.

A Fábrica No Sonho

A Lua Nova caía obliqua no céu de Oeste.
A noite ia alta, em prenúncio de madrugada.
Estava frio e ao longe as derradeiras nuvens de chuva afastavam-se no horizonte entre relâmpagos opacos.
A caminhada pelas ruas deserta haviam levado Antonio até os limites do bairro, próximo a via férrea, por entre os galpões abandonados e das antigas fábricas daquele setor da cidade.
Bem lá ao final da rua silenciosa ficava a fábrica de refrigerantes.
Tudo quieto, entre as sombras alongadas pelas lâmpadas nos poucos postes de iluminação pública.
Em dado momento uma luz mais intensa atraiu a atenção do flanador noturno, luz essa vinda do final da rua.
Curioso, Antonio caminhou com mais celeridade e logo estava no portão gradeado da antiga fábrica de refrigerantes.
Mas que surpresa!
Havia um movimento intenso de labor, de funcionários e suas sombras movimentando-se pelo pátio coberto de mato rasteiro, lampiões acesos, a fornalha com a bocarra vermelha expelindo chamas, e o ruído surdo, distante, de maquinário em funcionamento.
A fumaça branca da chaminé atingia uma grande altura no céu noturno eclipsando as estrelas.
Enquanto olhava para toda aquela atividade, não percebeu a aproximação do guarda do portão que lhe perguntou, com o rosto encoberto pela aba do boné o que ele desejava.
Nada não, respondeu Antonio, apenas que estava a caminhar por aqui e notei a faina que se desenvolvia na fábrica que eu julgava fechada.
Sim, a fábrica está fechada, mas devemos entregar uma última produção, para depois todos podermos ir descansar.
Pouco a pouco, enquanto essa rápida conversa era entabulada, as luzes foram esmaecendo, bem como a figura do guarda do portão.
A fornalha apagou-se, os lampiões extinguiram suas chamas, os vultos cambiantes do funcionários no pátio eclipsaram-se nas sombras, deixando  somente o capim refletindo a luz baça da Lua, eventuais fogos fátuo dos pirilampos e o silêncio predominou novamente na noite.
Ao fundo havia apenas as ruínas da fábrica antiga a qual, muitos anos antes, havia sido destruída pela explosão da caldeira, vitimando vários funcionários os quais faziam hora extra para entregar um grande pedido de bebidas.

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