A casa permaneceu fechada, abandonada em seu vazio por quase meio século.
Construída
na época aurea no início do século XX, com o passamento de seu
proprietário original, e depois por uma sucessão de herdeiros, viu-se
sem ninguém a ocupá-la ainda ao final dos anos de 1930.
E assim permaneceu, com a sua aparência soturna de coisas antigas,
abandonadas, com os seus muros altos, a sua pesada grade de ferro
ornamentando a frente junto ao passeio, os seus vitrais de muitas cores,
o seu imenso quintal onde árvores e arbustos tomaram conta.
Nos primeiros tempos havia um advogado que administrava o espólio, o
qual mantinha uma ou outra lâmpada acesa para afastar o ar de abandono
que a envolvia.
A luz brilhava por entre pedras coloridas de uma
luminária turca de fino lavor, instalada no alpendre. Alpendre esse
guarnecido de uma pesada porta de ferro fundido, a qual abria-se em duas
folhas para o interior, uma sala imensa, com o piso revestido de
madeira.
Dali avistava-se o sopé da escada com balaustras ricamente lavradas em madeira de lei.
Mais
além, nos fundos sombreados de outros comodos, via-se a cerâmica do
piso, disposta em forma de lajotas pretas e brancas, no formato do
xadrez.
Mas, um dia esse advogado também partiu, consolidando o completo
abandono. Árvores enormes no quintal, anos e anos de folhas não
recolhidas, o mato crescendo livre, os gatos vadios entrando em seu
interior por um ou outro vidro partido, uma era imensa que cresceu sem
controle tomava conta das paredes em dois ângulos da casa e parte do
telhado do sobrado.
Até que em um determinado dia, por instâncias de um distante parente,
começou um grupo de trabalho a providenciar reformas na casa.
No
quintal, como costumava acontecer, havia uma construção apartada do
resto da casa, a qual servia de dormitório para os empregados, e uma
área de tanques de lavagem de roupas e um banheiro. Havia mais um cômodo
escada acima.
Quando os operários começaram a remover o piso do quarto de dormir no
térreo, em um ângulo da parede oposto a porta, encontraram, enterrada,
uma pesada caixa de madeira com a tampa lavrada. Um trinco, guarnecido
por pesado cadeado, quase que totalmente corroido pela ferrugem, e que
cedeu a pressão de uma ferramenta, permitiu a abertura da tampa.
Houve um espanto, uma surpresa geral com o conteúdo da caixa.
Havia
um esqueleto, um pequeno esqueleto, provavelmente de uma criança, cujas
vestimentas emboloradas e descoloridas pelo tempo levaram a crer
tratar-se de uma menina.
A vinda das autoridades, da imprensa, dos curiosos em geral, as
conversas generalizadas sobre o fato, as investigações posteriores,
pouco puderam esclarecer.
A aparência dos restos denotavam denotava
que os mesmos estavam ali por várias décadas, o que era confirmado pelos
fragmentos das roupas e do calçado que calçava os pés. Restava ainda
uma fivela presa ao mesmo, em uma moda utilizada nos anos de 1920.
O mistério de aquilo tudo, no mínimo sessenta anos depois da ocorrência
do fato, levou as autoridades investigarem antigos arquivos de pessoas
desaparecidas, mas nada foi conclusivo.
Que habitava a casa, naqueles
distantes anos, era a viúva do construtor, e um filho, um intectual e
poeta, morto ainda nos anos de 1930.
Ter uma resposta para esse antigo drama era algo que escapava da compreensão e da possibilidade de um esclarecimento.
A
caixa de madeira foi incinerada, lá mesmo no quintal, e os restos, após
passarem de um setor de perícia para outro, foi finalmente sepultado em
uma das gavetas gerais do grande cemitério da cidade.
O corpo permaneceu por lá durante alguns anos, mas como não houve
renovação para a permanência no local, foi mais uma vez exumado e
perdeu-se entre tantos outros no ossário.
A casa recebeu as reformas
naqueles idos dos anos de 1980, foi utilizada por algum tempo como
escritório e depois voltou ao abandono das coisas antigas, mortas.
Encontra-se hoje bem descaractizada em sua aparência original, e ainda abandonada.
Soube que, de tempos em tempos, um herdeiro quita os impostos.
Um
dia, ao examinar um acervo doado para uma biblioteca da cidade,
deparei-me com uma vasta coleção de livros, coleção essa a qual abrangia
livros de romance, de poesia, de Filosofia, de ciências naturais, de
direito, de medicina, de curiosidades.
A biblioteca certamente de um intelectual, de um pesquisador.
Nenhum dos volumes era posterior aos anos de 1920.
Alguns deles de indubitável valor, devendo pois serem incorporados ao acervo da biblioteca pública.
Entre os inúmeros documentos, havia um pequeno livro encapado em couro,
cujo material encontrava-se bem danificado pelo tempo e pela umidade.
Ao abri-lo, um surpresa!
O livro era todo manuscrito.
As
letras lá gravadas há oitenta anos ou mais compunham poesias e prosa
que a leitura lembrava o estilo de Villiers de L'isle-Adam. Muitas
páginas estavam borradas e danificadas pelo tempo e pela má conservação.
Mas daquilo que era possível apurar, haviam relatos absurdamente
fantásticos nos quais havia crime, tortura, sofrimento mental, lirismo.
Furtei-me a comunicar naquele momento o encontro do manuscrito. O meu
desejo de conhecer melhor aquilo que lá estava relatado fez-me por um
momento abandonar escrupulos.
Naquela noite, em minha escrivaninha, sob a luz de uma luminária bem
focada, passei a tomar conhecimento dos escritos de uma pessoa, um
homem, de inegável talento, de uma mente ági, inteligente, sofredora e
terrível.
As linhas foram revelando uma mente superior mas eivada de uma sordidez medieval.
Um homem inteligente, limitado pelas conveções e valores de seu tempo,
desejando conhecer mais e mais, contudo limitado por vezes por limites
materiais e por falta de iniciativa, daquela iniciativa que considera os
riscos.
Cansado, envolvido pelo tédio de uma época histórica posterior a uma
guerra, porque as guerras de uma forma ou de outra provocam revisões nos
valores, desejava o homem ter, por entre a vulgaridade reinante, o
desejo de eter para si um segredo, um segredo inconfessável, um segredo
no qual encerrasse não amor ou ódio, nem ao menos vingança, mas um
segredo que encerrasse remorso.
E para obter esse remorso, resolveu imolar um inocente.
Escolher uma criatura totalmente totalmente fora de seu mundo, de seus valores, da sociedade decrépita que o envolvia.
Resolveu matar uma criança!
Essa ideia amadureceu em sua mente durante muito tempo.
Avaliou os riscos, a possibilidade de ser descoberto, de ser apanhado.
Gozava de um espaço decadente, mas muito amplo.
Retirava-se de casa e voltava sem despertar a atenção de parentes ou de serviçais.
No seu recanto havia um portão que abria-se para uma rua, além da entrada principal.
Tudo isso estava minuciosamente relatado, como uma confissão.
Em
um determinado final de dia, escuro e chuvoso, quando a sua mente
fervilhava entre o tédio, cada vez mais intenso, o qual algumas vezes
havia feito o mesmo a utilizar de uma droga comum de sua época, o ópio,
ao aproximar-se de casa, viu caminhando pela rua molhada, ainda sem
pavimentação, uma criança, uma menina, loira, miuda.
Algo em sua mente cedeu.
Aproximou-se da criança, oculto que estavam
na rua deserta, entre as sombras das grandes árvores que por ali
existiam, agarrou-a rapidamente, sentindo o seu corpo magro, leve,
evitou que gritasse em vista da agressão súbita, imobilizou-a, levou-a
para o quarto nos fundos da casa, cloroformizou-a e depois a
estrangulou. Não a violou. Após o ato, colocou o corpo em uma pesada
caixa de madeira na qual guardava pertences, abriu, no ângulo de uma das
paredes do quarto, sob um pesado armário que arrastou, um buraco no
piso onde depositou a caixa.
Reconstuiu o piso, recolocou o armário no lugar.
Regozijou-se de seu segredo.
Durante os dias seguintes procurou por notícias sobre o fato de uma menina desaparecida.
Passaram-se os dias, os meses, e ninguém tocou no assunto de uma criança desaparecida.
Naquela época de pouca ou nenhuma iluminação pública, as noites eram mais escuras.
Vagou
durante muito tempo pelas ruas escuras, pelas noites gélidas, nas
noites cálidas de verão esperando ouvir algo sobre o feito, mesmo que
fosse um murmúrio trazido pelo vento.
Nada!
Jamais ouviu coisa alguma.
Era possível perceber o seu
desalento, porque, sem notícias sobre o feito, como haver o remorso de
haver feito alguém sofrer uma perda?
Era como se nada houvesse acontecido!
Desespero!
Uma outra ação?
Não, de forma alguma, pois ele não era um criminoso vulgar, um malfeitor da pior espécie!
Mais
algum tempo, e a resistência para não abrir a cova e verificar se havia
mesmo feito aquilo que agora a sua mente duvidava haver realizado.
Havia um segredo, mas não havia o menor remorso!
Tempos das águas, tempo do frio, tempo do calor.
E um dia a constatação de que a tuberculose, a doença dos poetas o havia acometido.
Sentença de morte anunciada!
Aquelas palavras, pelo que foi possível perceber, foram gravadas
pouco antes do desenlace, quando nenhum outro cuidado humano poderia
salvá-lo.
O livro manuscrito, bem como o nome do seu autor, e de
sua vítima inocente repousam tranquilamente no fundo do rio que corta a
cidade.
Em paz descansam!