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8 de mar. de 2014

O Coral das Sombras Diáfanas

Os espaços urbanos mudaram.
No lugar de antigos prédios, de terrenos baldios, surgiram, com o passar dos anos, outras construções e os terrenos foram ocupados.
É assim que funcionam as cidades.
Contudo alguns edíficios foram preservados.
Alguns públicos, outros não, a manutenção desse conjunto arquitetônico mantém um liame de ligação entre o Presente e o Passado.

Esses edifícios, concebidos com outros materiais, com outras técnicas destacam-se, hoje, das construções do entorno.
Possuem uma aparência vetusta, como um objeto que virou uma esquina do Tempo, e por vezes mostram-se apartados do atual momento histórico.
Refletem uma egrégora de outras ideias, outros indivíduos, outros valores.
Penetram na linha do Tempo sublimes, inabaláveis, enfrentando as intermpéries. Repositários da História.
Pelo fato de não terem sido demolidos, criam uma força sublime que nos faz acreditar estarem fadados ao um Futuro muito mais distante daqueles todos que os veem e os frequentam. São mágicos. Por vezes, soturnos. Em suas fundações de tijolos de barro cru, sustentando a estrutura de grossas paredes, entre as vigas de madeira, os pisos, os antigos encanamentos, a fiação elétrica, as sucessivas pinturas da paredes, repousam a História de inúmeros fatos, bons ou não, que compoem a marca dos indivíduos e suas criações no mundo.
Alguns desses edifícios parecem exalar uma vida própria, como se fossem organismos imensos, desafiando as épocas, os valores, os homens.
Viram lendas. São assombrados. O Passado percorre as suas salas, os seus corredor5es. Os seus cantos escuros. Goteja dos telhados em dias de chuva. Está impregnado no lodo das paredes e das calçadas de tijolos, contornando os antigos canteiros de flores. Alguns tem quintais com pomares. Árvores que estão lá há muitas décadas. Algumas ainda produzem frutos. Outras morreram, e os galhos finos, secos, são testemunhos dos tempos aureos.
A arquitetura reflete o momento histórico em que foi criada.
A exuberância é a prova do poder econômico.
Mas tanto as construções mais ricas quanto as mais humildes, se permanecem passam a ter uma aura.
Os espíritos antigos, em algum momento, apossam-se do lugar. É um refúgio, ainda inespugnável, do avanço das mentalidades que não pautam pelos sentimentos, pela poesia.
Em Ribeirão Preto foram preservados alguns lugares assim.
Na antiga escola pública do centro permanecem algumas características mesmo sob a insensibilidade de todos os que percorrem os seus espaços. Os homens passam, as ideias ficam.
Caminhar pela noite deserta e calma era aquilo que Mário apreciava fazer.
Em uma noite mais escura e mais fria do que as demais, quando realizava uma calma e distraída reflexão, entre passos lentos, observando as nuvens encobrirem o céu de estrelas, e percebendo a brisa fria que agitava as árvores, Mário viu-se defronte ao prédio da escola, silhueta recortada contra o fundo esbranquiçado de nuvens agitadas.
As árvores na rua projetavam sombras escuras, impedindo a iluminação pública de atingir alguns recessos, envolvendo tudo em pernumbra. E a pernumbra faz imaginar coisas.
No momento em que apreciava a fachada insone do prédio antigo, pareceu haver, projetando-se das janelas do andar superior, uma fosforecência que contrastava com a escuridão. O que era aquilo? Tarde da noite, quase na Hora Neutra da Madrugada, luzes em um prédio público, uma escola?
Logo em seguida, por entre o som das folhas agitadas agora por uma brisa mais forte, mais fria, Mário passou a ouvir vozes.
Vozes a cantar! Um coral, executando uma peça de canto, tênue, como a luminescência que escoava das janelas, mas bem perceptível entre a brisa e as sombras esvoaçantes na noite fria.
Um leve temor atávico instalou-se em sua consciência. Aquele temor diante de coisas desconhecidas. Continuou a caminhar, observando o prédio, as luzes tênues, o canto, de muitas vozes que ecoavam e sumiam, levado pelo vento.
Passou defronte o prédio, e mais um pouco encontrava-se na  outra esquina.
As luzes tornaram-se bem fracas, confundindo-se com a iluminação pública, as vozes, suaves, foram mais e mais atenuadas entre as rajadas do vento, agora forte o suficiente para prenunciarem uma chuva próxima.
Mais célere, Mário afastou-se dali.
A chuva começou a precipitar-se. Chuva fria, transudando a Passado, a lembranças antigas. De outros tempos, da infância, de alguma história ouvida e não bem compreendida.
O Tempo passa. Inexorável. O cotidiano, a necessidade de permanecer existindo leva para algum canto da mente as lembranças mais doces, mais impressionantes.
Mário, por diversos motivos não caminhou mais pelas noites.
Talvez por receio, talvez por querer manter uma lembrança e uma incerteza sobre aquilo que testemunhou. Uma manifestação mágica do Contínuo Espaço Tempo, ou uma ilusão.
O prédio mantem-se lá, depositário de inúmeras energias e manifestações através de cada época, de cada momento que capturou e de vez em quando, por mecanismos que não compreendemos, devolve-os ao mundo.

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