Os espaços urbanos mudaram.
No lugar de antigos prédios, de terrenos
baldios, surgiram, com o passar dos anos, outras construções e os
terrenos foram ocupados.
É assim que funcionam as cidades.
Contudo alguns edíficios foram preservados.
Alguns públicos, outros não, a manutenção desse conjunto arquitetônico mantém um liame de ligação entre o Presente e o Passado.
Esses edifícios, concebidos com outros materiais, com outras técnicas destacam-se, hoje, das construções do entorno.
Possuem uma aparência vetusta, como um objeto que virou uma esquina do
Tempo, e por vezes mostram-se apartados do atual momento histórico.
Refletem uma egrégora de outras ideias, outros indivíduos, outros valores.
Penetram na linha do Tempo sublimes, inabaláveis, enfrentando as intermpéries. Repositários da História.
Pelo fato de não terem sido demolidos, criam uma força sublime que nos
faz acreditar estarem fadados ao um Futuro muito mais distante daqueles
todos que os veem e os frequentam. São mágicos. Por vezes, soturnos. Em
suas fundações de tijolos de barro cru, sustentando a estrutura de
grossas paredes, entre as vigas de madeira, os pisos, os antigos
encanamentos, a fiação elétrica, as sucessivas pinturas da paredes,
repousam a História de inúmeros fatos, bons ou não, que compoem a marca
dos indivíduos e suas criações no mundo.
Alguns desses edifícios parecem exalar uma vida própria, como se fossem
organismos imensos, desafiando as épocas, os valores, os homens.
Viram
lendas. São assombrados. O Passado percorre as suas salas, os seus
corredor5es. Os seus cantos escuros. Goteja dos telhados em dias de
chuva. Está impregnado no lodo das paredes e das calçadas de tijolos,
contornando os antigos canteiros de flores. Alguns tem quintais com
pomares. Árvores que estão lá há muitas décadas. Algumas ainda produzem
frutos. Outras morreram, e os galhos finos, secos, são testemunhos dos
tempos aureos.
A arquitetura reflete o momento histórico em que foi criada.
A exuberância é a prova do poder econômico.
Mas tanto as construções mais ricas quanto as mais humildes, se permanecem passam a ter uma aura.
Os
espíritos antigos, em algum momento, apossam-se do lugar. É um refúgio,
ainda inespugnável, do avanço das mentalidades que não pautam pelos
sentimentos, pela poesia.
Em Ribeirão Preto foram preservados alguns lugares assim.
Na antiga
escola pública do centro permanecem algumas características mesmo sob a
insensibilidade de todos os que percorrem os seus espaços. Os homens
passam, as ideias ficam.
Caminhar pela noite deserta e calma era aquilo que Mário apreciava fazer.
Em
uma noite mais escura e mais fria do que as demais, quando realizava
uma calma e distraída reflexão, entre passos lentos, observando as
nuvens encobrirem o céu de estrelas, e percebendo a brisa fria que
agitava as árvores, Mário viu-se defronte ao prédio da escola, silhueta
recortada contra o fundo esbranquiçado de nuvens agitadas.
As árvores na rua projetavam sombras escuras, impedindo a iluminação
pública de atingir alguns recessos, envolvendo tudo em pernumbra. E a
pernumbra faz imaginar coisas.
No momento em que apreciava a fachada
insone do prédio antigo, pareceu haver, projetando-se das janelas do
andar superior, uma fosforecência que contrastava com a escuridão. O que
era aquilo? Tarde da noite, quase na Hora Neutra da Madrugada, luzes em
um prédio público, uma escola?
Logo em seguida, por entre o som das folhas agitadas agora por uma brisa mais forte, mais fria, Mário passou a ouvir vozes.
Vozes
a cantar! Um coral, executando uma peça de canto, tênue, como a
luminescência que escoava das janelas, mas bem perceptível entre a brisa
e as sombras esvoaçantes na noite fria.
Um leve temor atávico instalou-se em sua consciência. Aquele temor
diante de coisas desconhecidas. Continuou a caminhar, observando o
prédio, as luzes tênues, o canto, de muitas vozes que ecoavam e sumiam,
levado pelo vento.
Passou defronte o prédio, e mais um pouco encontrava-se na outra esquina.
As
luzes tornaram-se bem fracas, confundindo-se com a iluminação pública,
as vozes, suaves, foram mais e mais atenuadas entre as rajadas do vento,
agora forte o suficiente para prenunciarem uma chuva próxima.
Mais célere, Mário afastou-se dali.
A chuva começou a precipitar-se.
Chuva fria, transudando a Passado, a lembranças antigas. De outros
tempos, da infância, de alguma história ouvida e não bem compreendida.
O
Tempo passa. Inexorável. O cotidiano, a necessidade de permanecer
existindo leva para algum canto da mente as lembranças mais doces, mais
impressionantes.
Mário, por diversos motivos não caminhou mais pelas noites.
Talvez por receio, talvez por querer manter uma lembrança e uma incerteza sobre aquilo que testemunhou. Uma manifestação mágica do Contínuo Espaço Tempo, ou uma ilusão.
O prédio mantem-se lá, depositário de inúmeras energias e manifestações
através de cada época, de cada momento que capturou e de vez em quando,
por mecanismos que não compreendemos, devolve-os ao mundo.
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