Ficava para o lado Norte, próximo à ferrovia da Mogiana.
O Hospital dos Lazarentos.
E o pequeno cemitério ao lado do hospital, como era comum naqueles dias.
Os indivíduos que não sobreviviam a doença eram por lá sepultados.
Não haviam muitos recursos contra a doença, e portanto não eram incomum as mortes.
Por muitos anos o hospital atendeu aos necessitados, os quais vinham de muitos lugares, alguns de perto, da cidade, outros não.
A situação geral era de abandono, de total falta de esperança.
Era esperar o inevitável.
Contudo, naquele lugar humilde e desesperançoso, os pacientes eram bem tratados.
A
passagem era suave, com os demais pacientes, os funcionários,
enfermeiros e médicos do hospital sendo, quase sempre, os únicos que
velavam os que partiam.
O prédio do hospital era uma construção ampla, de duas águas, com um
pátio defronte, e, nos fundos uma horta que era cuidada e mantida pelos
pacientes.
Da horta provinham as hortaliças utilizadas na cozinha.
Mais ao fundo, transpunha-se um portão de madeira o qual permitia a entrada no pequeno cemitério.
Durante muitos anos, lápide após lápide, o terreno veio a ser ocupado.
Os antigos não gostavam de construir em espaços nos quais já haviam existido outras construções.
É sabido que a energia, que a egrégora do lugar permanece.
Daí nascem as lendas e as casas mal assombradas.
Com o passar dos anos, e com a adoção de novos procedimentos relativos as doenças, o hospital deixou de funcionar.
Os vidros da janelas foram sendo quebrados, partes do telhado ruiram e
aquele ar de abandono que prenuncia o taperismo tomou conta do lugar.
E com o abandono é comum o mato alastrar-se pelos espaços dos jardins de das hortas.
No Hospital dos Lazarentos não foi diferente.
Toda aquela área em abandono total, incluindo o pequeno cemitério de gente esquecida pelos parentes e pelo tempo.
E mais tempo.
As lápides, algumas em ruína, surgiam por entre o capim alto.
A pequena capela, que era avistada pelo ferrovia por aqueles que partiam
para Minas, um dia também desmoronou no auge do abandono.
Mais alguns anos.
Mais alguns invernos frios, mais alguns verões de chuvas.
Essas
construções abandonadas tornam-se diafanas para quem as contempla,
envolvidas no silêncio tranquilo das coisas esquecidas, mortas.
Com o virar dos anos todos esquecem-se delas.
E assim aconteceu com o hospital.
E com o pequeno cemitério.
Um dia demoliram o prédio.
O cemitério, com os seus muros baixos ficou ainda mais esquecido.
Sem as ruínas do hospital, tornou-se ele visível por quem trafegava nos trens.
Disse o meu amigo que, ao anoitecer do Dia de Finados de 197_,
quando retornava de um compromisso, o trem passou pelo local do
cemitério, retornando para Ribeirão Preto.
Poucas pessoas viajavam naquele momento, em um dia de feriado religioso.
Após a última curva e a entrada na reta final que levava para a Estação
do Barracão, P_ vislumbrou uma claridade no lado direito, uma claridade
tênue, por entre as árvores de cerrado e o capim baixo.
O horizonte recortava-se escuro no Ocaso.
Não havia a Lua no céu.
Mais um avanço da composição, e o meu amigo percebeu aonde estava.
Passando pelo local do antigo hospital, com o cemitério ao fundo.
A luz provinha de uma miríade de velas acesas aonde localizavam-se as lápides antigas, abandonadas.
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