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8 de mar. de 2014

A Loira do Banheiro

As lendas são histórias populares, do senso comum, nas quais em que pese não terem comprovação científica, inundam o imaginário popular.
Mas, estamos a divagar.
Não há explicações para o que não pode ser explicado.
Com a urbanização, as cidades, tal como nos campos de antanho, passou a ter as suas lendas.
Urbanas. Não menos interessantes.

Os fatos relacionados com uma jovem loira, que, de tempos em tempos assombra os banheiros femininos das escolas são muito conhecidos.
Em Ribeirão Preto essa lenda iniciou-se ainda em meados da década de 1950 e permanece até hoje.
O porque de existir, como todas as lendas, foge de nossa possibilidade de compreensão.
Mas a loira do banheiro existe, e, de tempos em tempos, assombra os banheiros.
Femininos.
Não há relatos da aparição em banheiros masculinos. Claro, pois ela, a Loira do Banheiro, é uma dama!
No mês de Maio do distante ano de 1974, algo aconteceu por aqui.
Tal como aqueles fenômenos sazonais, os quais foram estudados com maestria por Charles Fort, que aparecem em alguma época e depois esvaem-se no Tempo, permanecendo na lembrança daqueles que o conheceram e que dão um colorido de medo nas narrativas, nos casos contados na boca da noite, a Loira do Banheiro visitou uma escola.
Uma escola pública, tradicional em Ribeirão Preto, como eram tradicionais as coisas antigas.
Hoje tudo banalizou-se, tudo caminhou para um enfado, uma falta total de sensibilidade e poesia, matéria prima necessária para criarem-se fantasmas.
Mas esse fantasma, a Loira do Banheiro, frequentou com tal assiduidade as dependências da escola em questão, que as meninas passaram a recusar-se a utilizar o banheiro, havendo vários casos de desmaios e histeria generalizada entre elas, que a direção da escola suspendeu as aulas por vários dias.
Não houve aulas no período noturno por algum tempo.
Haviam relatos sobre uma luz cambiante divizada através das janelas daquele recinto condenado.
Nas turmas das séries diurnas havia também um frenesi, um medo mal dissimulado.
Entreva-se no banheiro somente em grupos.
Em um certo dia, mais frio e muito nublado, vários alunos afirmaram terem visto uma luz baça, de tom verde, a esvair-se por sob as portas de um dos sanitários.
Havia medo nos alunos. Havia medo entre os professores e funcionários.
Havia a ausência de uma explicação.
Mas, os dias foram passando, e como acontece nesses casos, o fenômeno vai de desernegizando, outros fatos ocuparam seu lugar.
Tal como quando se obtém uma graça, o motivo pelo qual solicitou-se, dissolve-se no cotidiano de cada dia, com as preces vagando eternamente pelo éter, até o momento no qual sejam novamente necessárias.
Assim aconteceu. O temor, o receio atávico, o medo ancestral foi embora.

Em nossa Ribeirão Preto, essa aparição foi relacionada a uma jovem que morreu aos 18 anos, em 1953.
Após essas ocorrências, o túmulo da família aonde essa jovem encontra-se sepultada, foi local de peregrinação.
Curiosos e crédulos estiveram por lá. Retirou-se da lápide a foto da jovem.

Os anos passam, atropelam-se as recordações.

No outro dia ouvi as observações de uma menina, muito jovem ainda, dizendo que, de vez em quando, sente uma presença, como se alguém mais estivesse no banheiro da escola.Não um outro colega, se me entendem.
Há sempre em resquício de medo.
Há sempre uma sombra, há sempre em reflexo mal divisado no espelho.
Mas isso é somente uma lenda.
Um lenitivo para o tédio das horas vazias.

No outro dia o zelador da escola comentou que havia esquecido de apagar a luz do banheiro feminino.
Mas ele estava muito cansado da labuta diária para sair de sua casa, abrir uma série de portas e acionar o interruptor.
De mais a mais, comentou, não saber se era a lâmpada daquele recinto em questão que estava acesa.
Afinal, a luz que escoava por entre a folhagem do jardim entorno, vista por seus olhos cansados,  era de um tom verde.

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