A Lua, sempre a Lua, olhando de esguelha entre as nuvens.
Nuvens de chuva.
Daquelas chuvas de Agosto que vem, e em seu rastro, frio.
A conversa havia esmorecido.
A longa caminhada de volta, pelas ruas frias, desanimava.
Entre a vegetação gotejante, e o silêncio da noite,
Tão grande silêncio em tão imensa noite, de sombras longas,
Por entre a paisagem noturna, apenas sugerida,
Houve o ânimo para mais um café.
Ao longe, muito longe, um uivo.
Que uivo?
Algum cão perdido nessa noite eterna, de Lua, de frio, de chuva?
Mais algumas achas de lenha na fornalha.
A produção naquela perene, eterna, noite de Agosto
Não poderia parar.
Horas extras são para isso. Para a produção não parar.
O vapor resfolegou na máquina de lavar garrafas.
Mais cem dúzias, e acabaremos.
Cem dúzias de garrafas, e um uivo.
Dessa vez amortecido pela grande máquina de lavar garrafas.
Aonde estamos?
Em algum momento do século XX.
Cheio de modernismos.
Vejam, já faz algum tempo que o homem pisou na Lua.
Naquela Lua, lá de cima?
E novamente um uivo, lá pelos descampados da ferrovia, lá pelos descampados do fim do
Mundo.
Então não há mais silêncio na noite?
Há a máquina lavando garrafas, há o gotejar da chuva nas árvores e nos telhados.
Há o uivo.
Sombras longas provocadas pela Lua no pátio.
Mais um café?
Mais lenha, mais vapor, mais café, mais refrigerante nas garrafas - a encomenda foi grande!
Que horas são? Uivo.
Faltam vinte para as onze. Logo acabaremos.
Lá no distante campo, para os lados do matadouro, para os outros lados do Mundo,
O silêncio do gado mugidor denunciava. Uivo.
A São Paulo/Minas passou, célere, com o seu farol de acetileno rasgando a noite, em seus escuros atocaiados.
O homem já não esteve na Lua?
E, entre o vapor da máquina de lavar garrafas, o perfume doce do xarope, e as garrafas saindo, cheia de néctar da longevidade, as sombras frias, o café, a hora extra, a caminhada até a casa, distante, em outro bairro.
Um apito curto e, um uivo.
Um uivo, perdendo-se lá pelos campos, para o lado do Cemitério dos Lazarentos.
Outra freguesia.
Sete na noite. De Lua. Aquela mesma Lua na qual o homem pôs os pés.
Vamos amigos, a noite é avançada, deu a cota.
Chegaremos amanhã para mais uma faina, e a caldeira ainda estará quente.
Irá requentar as marmitas.
Um uivo. Longe.
Para as bandas aonde foi a São Paulo/Minas, com gentes e cargas.
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