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8 de mar. de 2014

Edgar e o Lobisomem

O homem altera o tempo todo a topografia na face da Terra.
Os lugares permanecem como os conhecemos por algum tempo.
Depois, algumas vezes pelo abandono, outras vezes pela intervenção pura e simples, quando, depois de algum tempo, volta-se a um determinado lugar, é possível perceber que ele não existe mais como era conhecido.

Na época dos fatos relatados, o lugar em questão era bem diferente.
Havia uma série de prédios, uma caldeira, uma chaminé, vários barracões, e uma mata.
Em um canto do terreno, cercado para evitar que os cavalos invadissem, eram cultivados capim colonião e cana. Até a divisa com o rio.
Em diagonal a esse cercado, afastada de muitos metros, a mata ciliar era abundante. E escura.
O crepúsculo deixava antever aquele momento do dia que ainda não é noite, e que a noite ainda é dia.
Entre as árvores, a escuridão e as sombras já haviam tomado posição.
Nesse instante breve, mágico, que são os últimos minutos do dia, era possível ouvir um cão a ladrar, distante.
O ar rescendia a chuva que havia caido durante a tarde.
A Leste, a Lua começava a mostrar a sua cara cheia.
Os primeiros pirilampos cintilavam sobre o mato úmido.
Nesse momento, enquanto na cozinha da fogão a lenha, enquanto conversávamos sobre amenidades, saboreando um café coado na hora, era possível perceber que a noite se acentuara, e uma ou outra lâmpada lançava a sua luz fraca, afastando a escuridão para outros recônditos, lá entre os ângulos das paredes antigas.
A silhueta dos prédios da antiga fábrica de refrigerantes era divisada na pernumbra.
Logo, noite feita, a luz prateada da Lua incidiu sobre as cumeeiras.
Um silêncio na conversa, um silêncio no mundo.
A Hora do Angelus, a Hora da Anunciação.
Dizem que os anjos recolhem-se, porque a partir desse momento, as Trevas dominam as paragens.
E num instante, o portão de tela foi aberto com impeto, rompendo o silêncio. O Edgar com a sua lanterna equipada com lâmpada Crypton entrou esbaforido na cozinha.
O seu ar de espanto impressionou aos que estavam reunidos entorno da mesa.
O que havia acontecido?
Após tomar um pouco de água e bebericar uma xícara de café, explicou que, ao passear o forte facho de luz sobre a escuridão no começo da mata, divisou uma criatura enorme, de pelos eriçados, e olhos vermelhos. A visagem foi rápida, mas deslocava-se em direção a ele. O susto foi grande, e com o auxílio da luz forte, evadiu-se daquele ponto, correndo pela trilha até a casa.
Após esse relato, entre o ladrar distante de algum cachorro perdido, e o último grasnar de um frango d'água acomodando-se para a noite lá na beira do rio, novamente o silêncio predominou.
Momentos mágicos, irretocáveis.
O ruído no trinco do portão e o caminhar sobre os pedriscos avisavam que o Zé do Gino havia chegado.
Reuniu-se a nós depositou as compras sobre o balcão de pedra, acendeu um cigarro, tomou um café, e riu-se do nosso espanto.
Afinal, disse, - há Lua cheia no céu, meninos!
O que vocês poderiam esperar?
E escorreu pela ampulheta mais uma enfiada de anos.

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