Por três décadas Henrique vagou, bêbado, pela ruas do bairro antigo.
Uma referência.
Lá na esquina do Henrique.
Lá no boteco do Henrique.
Aonde, por anos, tomava a primeira dose do dia.
Depois de muitos anos, o dono do boteco, o Senhor João, morreu.
Henrique perdeu o grande amigo das talagadas.
Tempos românticos, mais suaves, quando havia ainda cuidados com o sereno.
As noites eram frias.
Luzes fracas, cálidas, nas noites mal iluminadas, sem luar.
Melhores, quando a Lua cheia brilhava e tornava as ruas de paralelepípedos prateadas.
E emprestava um brilho sobrenatural as plantas nos quintais, nos jardins.
Henrique foi de todos esses lugares, por tanto tempo.
Entoava, às
vezes sóbrio, a maior parte do dia nem tanto,uma estrofe da célebre
canção popular, do Nelson Gonçalves, " ... a deusa da minha rua ..."
Era outra marca do Henrique.
Nas tardes de sol, entre as sombras projetadas pelas árvores nas
calçadas, e mesmo nas horas mais tardias, entre o frio, ouvia-se " ... a
deusa da minha rua ...".
Talvez Henrique, o Bêbado Alegórico, em algum momento de sua vida tivesse amado alguma mulher.
Talvez partisse daí, como em muitos outros casos, uma desilusão que o
tivesse levado a abandonar a casa que vivia em conforme com a sua velha
mãe, e o emprego no armazém do Círculo Operário, e passado a viver pelas
ruas, dependendo da caridade dos velhos moradores do bairro, que lhe
forneciam alguma roupa, alimento, um banho esporádio e uns trocados para
a bebida.
E assim foi.
De uma década para outra, o Henrique, envelhecendo na
rua, as gerações passando, o bairro, mesmo que lentamente,
modificando-se, mudanças, nascimentos, mortes, e o Henrique entoando
"... a deusa da minha rua ..." com sua voz rouca de bêbado, cujo timbre
refratava nas paredes das casas nas ruas estreitas das travessas, nas
ruas largas e pela avenida e chegava aos ouvidos de todos os que o
conheciam.
Muitos e muitos anos de abandono material.
Talvez um imenso abandono espiritual do qual não podemos sequer imaginar a extensão.
Chuvas,
verões, invernos, natais, aniversários, felicidade, tristezas, dores,
sofrimento da carne, tudo que um dia tem seu término.
Para o Henrique foi no Outono. De 1993.
Quando encontrado, já havia horas que não estava mais aqui.
Sem parentes, sem nenhum elo familiar que fosse conhecido.
Indigente.
Quadra Onze.
Mas o Tempo não cessa de caminhar, levando tudo para as sombras da Eternidade.
Contudo, há quem diga, ao caminhar pelas ruas desertas e tranquilas
do bairro antigo, principalmente os retardatários, terem ouvido, muito
baixo, muito distante, talvez lá no quarteirão seguinte, a entonação
cadênciada, de uma voz ébria, cantando, entre a brisa e as folhas secas,
e mesmo nas noites de chuva, " ... a deusa da minha rua ..."
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