Ficou o abandono. Depois os escombros. Depois as ruínas.
O madeiramento dos telhados cedeu, permitindo que as águas de muitos marços tingissem as paredes de limo verde.
As samambaias, precursoras do taperismo tomou conta dos desvãos dos telhados.
Uma figueira instalou as raízes junto a caixa d'água que alimentava a caldeira.
Pilhas de lenha tomadas pelo mato de muitos anos estavam esparças pelo pátio entorno.
E o maquinário lépido em produzir sonhos, passou ele mesmo a sonhar no desenrolar dos anos de absoluta inércia.
E
quando prédios e máquina descançam por décadas, os fantasmas das
lembranças dos bons momentos perlambulam, livres, pelos cômodos, pelos
porões, pelos telhados, assombrando o assombramento daqueles que
acreditam.
Durante muitos e muitos anos a chaminé de chapa, com o chapéu
triangular típico dessas estruturas, ficou a contemplar o céu de todas
as estações, de todas as noites, testemunho irrefutável de que por
aquelas bandas o tempo parou em algum momento dos anos de 1960.
No antigo escritório, sobre a mesa, permaneceram documentos pretéritos que realizaram seus efeitos há décadas.
Um
lampião a querosene para as emergências nos assuntos das trevas, nas
tardes chuvosas e frias de antigos invernos, pendia de uma arame fixado
ao teto de madeira.
Uma imagem do santo guarnecia a parede.
E, pelos vastos terrenos
em derredor da fábricas, até aos longes nas margens do rio, até a
ferrovia, surgiram lendas de aparições e lobisomens, dos antigos homens, de seus trabalhos, de suas lutas, de suas paixões esquivas, transformando-os em almas penitentes.
E o meu amigo por décadas, mesmo precariamente de finanças, por
vezes acionava o fogo e o maquinário, na ânsia de ver ressurgir o
resplendor de épocas passadas, de fartura e felicidade ingênua, quando o
xarope extraído do açúcar mascavo corria, célere, para transformar-se
em delícias gasosas, misturado a água e as essências mágicas.
Há o valor e o desvalor de tudo que é humano, frugal em sua existência breve na imensidão de tempo característica da Eternidade.
E
tudo se esvai, permanecendo a lembrança e algumas fotos desbotadas. Não
possuímos ainda a química para fixar imagens como fixamos pensamentos.
E um dia as ruínas nem mais ruínas eram. Apenas um terreno
desvastado, coberto pelo mato e pela águas sazonais que invadem o mundo.
No
crepúsculo as energias se manifestam, e, se souberem ouvir, ouvirão
maravilhosas histórias de um tempo que não voltará, jamais.
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