É provável que um ou outro leitor já tenha escutado, na calada da noite, um berro naquele som que não pode ser atribuído a algum cachorro, gato, ou qualquer outro animal noturno que vagueie nas sombras. O som surge de súbito, ecoa pelos fundos dos quintais e desaparece no horizonte, de forma diáfana, e que não permite a localização de sua origem. Existem pela cidade, em que pese todo o modernismo, resquícios de lugares antigos, mansardas decrépitas nas quais nem as lâmpadas halógenas conseguem expandir luz. Ribeirão Preto tem lugares assim. Às margens das antigas ferrovias, no entorno da extinta Cerâmica São Luiz, lá pelos fundos de onde existiram por muitos anos o Frigorífico Morandi, o Matadouro Municipal, a fábrica da Douradinha, o Frigorífico Marchesi e outras tantas instalações por aqueles arredores, os quais conservam a Egrégora dos anos passados de muita história sob as luzes tênues vindas de lâmpadas em postes de madeira e de lampiões a querosene. Em determinados momentos ao crepúsculo é possível ser percebido por um ou outro indivíduo mais sensível a atividade febril que havia naquele local e que foi esmaecendo aos poucos, dando lugar a um abandono e ruínas as quais contudo conservaram a magia esplendorosa daqueles tempos áureos. Entre as matas conservadas às margens do rio, animais que se imaginam somente nas matas distantes acorrem àqueles lugares como refúgio a poucas quadras do centro da cidade. Se for observado com atenção, esses espaços na verdade constituem uma ilha, pois é necessário atravessar a a ponte da rotatória ou a ponte da Via Norte para ter acesso ao local. Essa ilha tem mantido a energia dos locais de imolação que foram os três frigoríficos do local, bem como de uma série de crimes de morte que se desenrolaram naquele espaço. Em algumas oportunidades nas quais desloquei-me por ali a passeio e em visita a amigos que moravam nas imediações, naqueles momentos em que o dia ainda não é noite e a noite ainda tem resquícios do dia, ouvi um som surdo, monocórdio, intenso, cujo eco repercutiu naquelas paredes antigas, no entorno da moderna avenida, entre a cantaria corroída e os telhados decrépitos dos antigos prédios, testemunhas de uma época que o vórtice dos anos não conseguiu ainda apagar de todo. Pela frente a Rua Industrial, ao lado o mato e as árvores grandes às margens do rio, com o crepúsculo a desenhar longas sombras. Esse lamento, uma mistura de angústia e medo parece exalar da alma daquele lugar secular de histórias de vitórias e derrotas.
Esses berros que ribombam e se afastam na distância pelas margens do rio são, para o meu entendimento e de alguns moradores daquele lugar, dos quais um e outro trabalhou nas indústrias e nas ferrovias nos tempo antigos, um estertor daqueles que por lá estiveram e que não irão retornar jamais.
13 de mar. de 2014
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