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8 de mar. de 2014

O Túmulo da Família

Sob a sombra da murta, a leitura de Poe na tarde fria, fez as horas passarem céleres.
O crepúsculo anunciou-se nas sombras longas, na pernumbra entre os túmulos mais afastados.
Hora mágica de cores sublimes no céu, nas copas das árvores e nas imagens de santos e cruzeiros, nas alamedas estreitas, de muitas passagens, na cidade surreal.
O cemitério.
Em suas alamedas tranquilas, os bancos cobertos de folhas é um convite a reflexão e a leitura.
Mas, ao crepúsculo, a Lua Nova a oeste tornou-se mais notável, mais brilhante.

Hora de partir daquele espaço solene, dedicado ao Tempo, dedicado a Eternidade.
Uma brisa fria agitou as folhas secas e fez com eu apertasse a gola do casaco, agora muito leve para o frio do início da noite.
Passos rápidos. Para qual lado?
Agora, já com as sombras definitivamente instaladas, o brilho amarelado de uma ou outra vela votiva entre os túmulos tornava-se mais intenso.
Momento de hesitação!
Contudo, veja, a rua movimentada está aí ao lado, vejo os postes de iluminação.
Nesse momento surge à frente sinais de pegadas, brilhando na semi escuridão.
Poderia ser os rastros de algum operário que havia pisado na cal.
Seguiam um rumo, o rumo que passei a seguir.
Mais intensa a escuridão, mais silenciosos os espaços entorno.
As marcas no chão tornaram-se mais brilhantes.
Uma brincadeira, uma aparição de fogos fátuos?
Naquela época, nas sepulturas gerais, diretamente na terra, por vezes foram esses fenômenos observados pelo vigia, o velho Geraldo.
Onde está o vigia? Provavelmente trancando o portão do lado oposto, aquele que se abre para a avenida.
Logo ele passará por aqui, penso, com a sua luminária a querosene.
Acompanho os passos.
Brilhantes, de um verde fosco.
Até chegar abruptamente ao local aonde havia estado horas atrás.
O túmulo da família.
Agora, nesse momento de noite feita, fria, aperto mais a gola do casaco, aperto mais o volume sob o braço.
Lá ao longe vislumbro uma luz oscilante.
É o vigia vindo pela alameda principal para verificar os cadeados.
Quando ele estiver mais próximo irei até ele, para poder sair por um dos portões.
A luz desaparece por entre os troncos robustos das árvores centenárias, por entre as capelas, por entre os túmulos antigos, cobertos de folhagens.
Nesse momento, do túmulo a minha frente, passa também a emanar um luz verde, opaca, oscilante como os sinais dos pirilampos.
Essa luz começa a emanar de vários outros túmulos em volta, mas naquele em que estão os meus ancestrais, ela é mais intensa.
Uma viagem de sonho ao passado.
É para isso que naquele momento sou induzido.
Em vijagens rápidas, como são as imagens nos sonhos, percorro em um instante toda a infância, entre aqueles que hoje fazem parte das lembranças vivas em minha mente, e sepultados estão no solo consagrado.
Fogueiras de São João, luzes de Natal, o cheiro de pinheiros naturais, enfeitados de lâmpadas e guirlandas, aniversários, pipas no céu, brincadeiras infantis antes das horas mortas,  doces deliciosos, comidas apetitosas, sons da cozinha, dos quintais, imensos, que levavam a outros quintais, e até a rua, no outro quarteirão, entre o cheiro de doce de abóbora, doce de banana, de sorvete de groselha, de pipoca estourada na hora, de cera para o assoalho dissolvida na gasolina, das frutas, goiabas, laranjas, uva, das cortinas do quarto agitadas pela brisa, da vela votiva acesa a um canto da comoda,  do chamado da mãe para o banho, após um dia de folguedos mágicos, tragados pelo vórtice de um tempo passado.
Sem retorno.
Os rostos brilhantes, estampados de alegria e ingenuidade.
Os companheiros de folguedos, os cachorros, os animais de criação, as hortas perfumadas pelas essencias de seus vegetais puros.
O silêncio. Sem retorno.
O canto do galo nas madrugadas do ano.
O som de fantasmas belicosos disputando as atenções da Lua e da Noite.
Silêncio.
Em um instante, somente o silêncio. E a escuridão.
As luzes esmaeceram até apagarem.
Um ou outro reflexo ao longe.
Ficou a noite.
E mais perto, dentro dessa noite atemporal, a pernumbra quebrada pela lamparina a querosene do Sr. Geraldo, o vigia.
A um aceno meu, ele parou e esperou-me.

 - Está ainda por aqui, menino!
Já é noite.
Uma tarde dessas você não irá encontrar-me para abrir o portão, e passará a noite aqui, entre os pirilampos, os fantasmas e as lembranças!

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