No alto, entre as duas portas de madeira de folhas duplas brilhava a luz fraca.
Aquela
lâmpada acesa nas noites frias, nas noites de chuva, nas noites cálidas
de verão significava que ainda era possível conseguir um pão, um quilo
de açúcar, um pouco de pó de café, um carretel de linha, um pacotinho de
chá, um lápis, um refrigerante, uma caixa de fósforos, um maço de
velas, uma mecha de lampião, um litro de leite, uma lâmpada, um
cigarro, uma dose, um doce.
O bar do Seu João ainda estava aberto.E isso foi assim por quase três décadas.
Mesmo porque há um final para tudo.
Aquela
luz fraca, por entre as folhas das árvores era um sinal para que uma ou
outra necessidade pudesse ser satisfeita, quando todos os demais
lugares do bairro antigo, de longas e escuras ruas já estivessem
fechados.
Comércios e casas.
Havia no ar um silêncio pungente quebrado somente pelo rádio que o Seu João mantinha ligado, à espera de um freguês tardio.
O bar aberto até outras horas soava como uma benção.
Talvez um anátema para o seu dono.
Figuras e valores que não existem mais nesse mundo averso ao sentimento e
a poesia, por duas gerações a luz fraca na noite, como um farol a
orientar naus perdidas, guiavam aqueles com uma necessidade
intransferível.
Nas noites de chuva, refletida no piso molhado da rua
deserta, essa luz propagava-se com miríades de outras luzes, coloridas,
diafanas, que obtinham a mesma grandeza misteriosa do infinito logo
ali, acima das cabeças, tal como se houve outro infinito, sob os pés,
refletido nas poças de água.
O interior do local era mágico para as crianças.
Cartazes diversos nas paredes.
Duas mesas e algumas cadeiras a um canto.
Uma
grande vitrine de madeira e vidro abrigava uma infinidade de doces
coloridos, aqueles doces dos tempos antigos, passados, envolvidos em
suas embalagens simples, de bolinhas, de palhaços, de bichos, de circos
em movimento.
E haviam balas envolvidas em papéis de cores vivas.
E havia uma geladeira antiga, de estrutura de madeira aonde eram depositados os refrigerantes.
E
entre os refrigerantes havia a Douradinha, um néctar a ser saboreado
entre divagações filosóficas da primeira infância, a curiosidade a
descobrir mundos, um elixir que, naquele momento, poderia transformar um
garoto em um ser feliz, imortal.
Haviam naquela vitrine simples, doces de um caráter sobrenatural cujo paladar podia levar a outros pontos do Espaço/Tempo.
Haviam
muitas garrafas de aguardante, e o cheiro característico das bebidas
que respingavam no balcão e eram enxugadas com frequência pelo Seu João.
E haviam as noites em que saborear um picolé de groselha, aonde
observar a Lua minguante escondendo-se entre as nuvens de chuva no céu
noturno a Oeste, revestia tudo de uma solenidade em sua simplicidade
mágica. A maioria dos personagens já não se encontram mais por aqui.
E a passagem do Tempo vai levando tudo para longe.
Em um vórtice fabuloso que envolve a todos na vida e na Eternidade, os lugares, as épocas mudam.
Em uma determinada noite, a luz não mais se acendeu.
Talvez
a mesma lâmpada tenha ficado lá, por muitos anos, entre o vento, a
chuva, o frio, nas noites de verão, naquele tempo eu imaginava ser
sempre a mesma lâmpada - mas em uma noite não houve mais luz.
Os nossos olhos passam a não enxergar os detalhes de um momento quando os interesses mudam de foco.
Outros lugares, outros valores.
Mas em uma noite fria, de chuva, passei pelo local.
Eram
horas tardias, horas perdidas naquelas noites do Passado que transuda
em Eternidade, passei pelo local dos dias de infância.
Aquele setor do bairro possuia muitas casas em ruínas, abandonadas na dinâmica urbana das mudanças que vem sempre a ocorrerem.
Por
entre as folhagens molhadas, silenciosas na ausência de vento, com a
iluminação pública oscilante entre a densa folhagem, pensei ter visto,
refletida no piso molhado, a luz noturna do bar, que estava aberto para
socorrer um freguês retardatário em uma necessidade.
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