"Se não tivermos embriagados de vinho ou poeisa, a vida vira um mero trajeto do pó ao pó"
Baudelaire
A casa era velha quando éramos meninos.
Em
seu canto, no meio do quarteirão, cercada de terrenos baldios como
acontecia naqueles tempos, ficou dormindo, talvez sonhando, por muitos
anos.
Construída em um nível acima da rua, situação que a deixou assim quando
por volta dos anos de 1920 a Prefeitura nivelou e retificou o traçado
das ruas do bairro, era possível avistar da rua toda a extensão de sua
ruína antiga. Era possível enxergar o seu pórtico e a porta principal de madeira pesada.
Mesmo
com o passar do Tempo e pelo abandono que cercava, a casa era uma
sólida construção, de estilo utilizado ao final do Século XIX, uma
construção mais sofisticada, diferente das demais casas do bairro.
Uma história a envolvia.
Um incêndio de muitos anos atrás, e a
decretação de seu abandono pelo último ocupante, e, como acontecia
naqueles tempos, o abandono pelos prováveis herdeiros.
Ano sobre
ano foram passando, e a casa, agora transformada em um decrépito animal
adormecido no lento passar do tempo, como notam as crianças, naquele
tempo infinito entre uma festa de São João a outra, entre um Natal e
outro, acumulava os sinais do abandono, das intempéries, do mato
crescendo no jardim em uma estação, fenecendo em outra, os vidros
quebrados, um beiral do telhado que cedeu de há muito.
Nas noites tempestuosas, a casa adquiria uma aparência sórdida de
decadência malsã, pois exalava um cheiro que tresudava a coisas mortas,
esquecidas, talvez devido as inúmeras plantas sem nenhum cuidado que
esparravam-se pelo jardim, pelo grande quintal aos fundos, e que, em
muitos pontos fixavam-se nas paredes de há muito sem pintura,
prenunciando que um dia aquelas plantas, com suas raízes, iriam
finalmente por o prédio abaixo.
Nas noites que seguiam a dias especialmente chuvosos era possível
enxergar, através das grades enferrujadas do antigo portão uma
quantidade muito grande de cogumelos e orelhas de pau que cresciam por
todo aquele terreno de abandono.
Houve um ou outro transeunte que afirmou ter visto nessas
oportunidades, que essa flora de umidade e escórias tornavam-se
ligeiramente fosforecentes nas noites escuras, talvez fazendo uma
analogia ao incidente do incêndio de várias décadas passadas.
Durante toda a nossa infância, a casa sempre foi um lugar a ser evitado.
As pessoas passam pelos lugares, pelas casas, pela vida, e vão-se embora.
Do pessoal que conheceu os fatos, talvez nenhum mais estivesse por aqui.
As histórias antigas vão esmorecendo, outras ocupam o seu lugar, a
poeira sendo depositada camada sobre camada, as folhas secas que correm
pelas ruas e alamedas nas noites frias, imitando sons de fantasmas, as
conversas sobre os fatos esmorecendo e finalmente também morrendo, fazem
de locais como a casa incendiada motivo para as mazelas da comunidade e
por fim também esquecem-se deles.
Afastei-me também do bairro, colocando entre a casa incendiada e minha infância uma enorme distância de épocas e sentimentos.
Em
um dia, consultando antigos documentos e jornais para a elaboração de
um texto sobre folclore, descobri uma pequena nota na página interna de
uma edição do início dos anos de 1920.
Relatava o artigo um curioso e horrendo acidente doméstico.
Uma
senhora havia sido totalmente incinerada quando encontrava-se sentada na
sala de sua residência. Seu corpo havia sido totalmente consumido pelas
chamas, restando apenas o pé esquerdo dentro do calçado. Nada mais no
cômodo havia sito atingido pelo fogo, e tampouco a poltrona aonde estava
sentada sofreu grandes danos.
Mistério insondável para aquele tempo, para aquelas pessoas!
E, para o
meu espanto, o local do fato era a casa, a casa incendiada, que durante
décadas veio abandonada, e cuja influência povoou os meus sonhos e de
muitas outras crianças da minha época.
Compreendi tudo. Há um nome para esse inexplicado fenômeno. Combustão
Humana Expontânea. A Ciência não tem uma resposta conclusiva para o
mesmo.
Naqueles distantes anos de 1920, em uma pequena cidade do
interior, a incompreensão do fato foi suficiente para lançar um anátema
sobre a casa e seus arredores, com os vizinhos silenciando, com as
pessoas se afastando, algumas morrendo, deixando o lugar, e a casa
incendiada entregue ao seu segredo mórbido.
Havia em outro caderno do mesmo jornal a nota de falecimento da Senhora
M. de I. M, uma mulher estrangeira, que contava na época com 62 anos.
Há algum tempo passei pelo local.
No endereço existem agora um salão comercial.
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