Entre em contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

marchetti57@gmail.com

Seguidores

Translate

Estatísticas

Visualizações

About Me

Copyright © Aristides Marchetti | Created by www.csstemplateheaven.com | Blogger Template by Blogger Template Place

8 de mar. de 2014

A Casa Incendiada

"Se não tivermos embriagados de vinho ou poeisa, a vida vira um mero trajeto do pó ao pó"
 

Baudelaire
 

A casa era velha quando éramos meninos.
Em seu canto, no meio do quarteirão, cercada de terrenos baldios como acontecia naqueles tempos, ficou dormindo, talvez sonhando, por muitos anos.
Construída em um nível acima da rua, situação que a deixou assim quando por volta dos anos de 1920 a Prefeitura nivelou e retificou o traçado das ruas do bairro, era possível avistar da rua toda a extensão de sua ruína antiga. Era possível enxergar o seu pórtico e a porta principal de madeira pesada.

Mesmo com o passar do Tempo e pelo abandono que cercava, a casa era uma sólida construção, de estilo utilizado ao final do Século XIX, uma construção mais sofisticada, diferente das demais casas do bairro.
Uma história a envolvia.
Um incêndio de muitos anos atrás, e a decretação de seu abandono pelo último ocupante, e, como acontecia naqueles tempos, o abandono pelos prováveis herdeiros.

Ano sobre ano foram passando, e a casa, agora transformada em um decrépito animal adormecido no lento passar do tempo, como notam as crianças, naquele tempo infinito entre uma festa de São João a outra, entre um Natal e outro, acumulava os sinais do abandono, das intempéries, do mato crescendo no jardim em uma estação, fenecendo em outra, os vidros quebrados, um beiral do telhado que cedeu de há muito.
Nas noites tempestuosas, a casa adquiria uma aparência sórdida de decadência malsã, pois exalava um cheiro que tresudava a coisas mortas, esquecidas, talvez devido as inúmeras plantas sem nenhum cuidado que esparravam-se pelo jardim, pelo grande quintal aos fundos, e que, em muitos pontos fixavam-se nas paredes de há muito sem pintura, prenunciando que um dia aquelas plantas, com suas raízes, iriam finalmente por o prédio abaixo.
Nas noites que seguiam a dias especialmente chuvosos era possível enxergar, através das grades enferrujadas do antigo portão uma quantidade muito grande de cogumelos e orelhas de pau que cresciam por todo aquele terreno de abandono.
Houve um ou outro transeunte que afirmou ter visto nessas oportunidades, que essa flora de umidade e escórias  tornavam-se ligeiramente fosforecentes nas noites escuras, talvez fazendo uma analogia ao incidente do incêndio de várias décadas passadas.
Durante toda a nossa infância, a casa sempre foi um lugar a ser evitado.
As pessoas passam pelos lugares, pelas casas, pela vida, e vão-se embora.
Do pessoal que conheceu os fatos, talvez nenhum mais estivesse por aqui.
As histórias antigas vão esmorecendo, outras ocupam o seu lugar, a poeira sendo depositada camada sobre camada, as folhas secas que correm pelas ruas e alamedas nas noites frias, imitando sons de fantasmas, as conversas sobre os fatos esmorecendo e finalmente também morrendo, fazem de locais como a casa incendiada motivo para as mazelas da comunidade e por fim também esquecem-se deles.
Afastei-me também do bairro, colocando entre a casa incendiada e minha infância uma enorme distância de épocas e sentimentos.

Em um dia, consultando antigos documentos e jornais para a elaboração de um texto sobre folclore, descobri uma pequena nota na página interna de uma edição do início dos anos de 1920.
Relatava o artigo um curioso e horrendo acidente doméstico.
Uma senhora havia sido totalmente incinerada quando encontrava-se sentada na sala de sua residência. Seu corpo havia sido totalmente consumido pelas chamas, restando apenas o pé esquerdo dentro do calçado. Nada mais no cômodo havia sito atingido pelo fogo, e tampouco a poltrona aonde estava sentada sofreu grandes danos.
Mistério insondável para aquele tempo, para aquelas pessoas!
E, para o meu espanto, o local do fato era a casa, a casa incendiada, que durante décadas veio abandonada, e cuja influência povoou os meus sonhos e de muitas outras crianças da minha época.
Compreendi tudo. Há um nome para esse inexplicado fenômeno. Combustão Humana Expontânea. A Ciência não tem uma resposta conclusiva para o mesmo.
Naqueles distantes anos de 1920, em uma pequena cidade do interior, a incompreensão do fato foi suficiente para lançar um anátema sobre a casa e seus arredores, com os vizinhos silenciando, com as pessoas se afastando, algumas morrendo, deixando o lugar, e a casa incendiada entregue ao seu segredo mórbido.
Havia em outro caderno do mesmo jornal a nota de falecimento da Senhora M. de I. M, uma mulher estrangeira, que contava na época com 62 anos.

Há algum tempo passei pelo local. 


No endereço existem agora um salão comercial.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagens populares