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20 de mar. de 2014

O Dia de São José

A cheia da goiaba, com as chuvas marcando o início do Outono, caiam com estrépito sobre os telhados antigos e quintais antigos, sobre os pomares, naquelas ruas silenciosas de paralelepípedos do bairro, muitas ainda sem calçamento, enchendo o rio, criando poças, abreviando o dia, fazendo com que as lâmpadas elétricas e os lampiões fossem acesos, e revigorando as plantas, entre elas as goiabeiras as quais nos dias seguintes tornavam-se pródigas em frutos maduros.
Em um desses dias no passado distante, durante uma conversa amena ao final da tarde com o meu velho amigo G_, a chuva começou a cair, intensa.
O dia escureceu com celeridade, um vento frio soprou de longe, vindo lá dos lados do Sul, e o barulho da chuva torrencial abafou todos os demais ruídos da fábrica de refrigerantes, do maquinário resfolegante movido com o vapor da caldeira.
O resfriamento brusco do ar fez com que a fumaça da chaminé exalasse fumaça branca.
Nada podíamos fazer no momento a não ser esperar a passagem do temporal.
Naquele ano a chuva foi especialmente intensa.
A tempestade havia começado no meio da tarde, e ao anoitecer mantinha a mesma intensidade.
Lá nos fundos, o rio, não mais contido pelas margens, já dominava com suas águas os alicerces do primeiros prédios e chegava próximo as fundações da grande fornalha e sua caldeira.
Tomamos mais uma xícara de café.
Lá na fábrica alguns funcionários abrigavam-se sob o telhado da varanda esperando uma chance de poderem ir embora.
Nesse momento, nos entremeios de um trovão e outro, o meu amigo contou uma história de priscas eras sobre a touceira de flores de São José.
Antes da construção do barracão rosa, como era chamado um dos prédios da fábrica havia um grande canteiro de flores de São José.
Uma parte dessas plantas foram removidas para dar lugar as fundações do prédio, mas as plantas remanescentes continuaram a vicejar, e nos anos seguintes retornaram ao esplendor original.
Dizia o meu amigo que nas noites do dia de São José, por um fenômeno não compreendido, essas flores exalavam na noite escura uma luminescência encantadora e sinistra.
A primeira vez foi notada pelo guarda noturno que reportou o fato ao G_ no dia seguinte.
Como era próprio do meu amigo uma memória especialmente ativa, gravou ele o fato e, no ano seguinte buscou observar o acontecido.
Nada aconteceu. Nos anos seguintes também não.
O fenômeno da noite de São José resvalou para aquele espaço reservado aos tidos e acontecidos das lendas e dos fatos insólitos.

Passaram os anos até a tarde em questão onde esperávamos que a chuva amenizasse para que todos pudessem ir embora após a faina diária.
A chuva finalmente amainou. Os funcionários da fábrica despediram-se.
Entre a chuva fina e o chão molhado acendemos as luzes dos barracões para a noite.
O rio produzia um som intenso, grave, com suas águas a descerem com velocidade para os campos ao longe.
Um telefonema entreteve G_ por mais algum tempo.
Noite. Ao longe o ribombar de trovões no horizonte.
Por aqui, o barulho do rio, o gotejar da água dos velhos telhados, a luz da fornalha que amainava.
Preparando o veículo para irmos embora, notei um brilho tênue espalhado sobre as plantas e o chão encharcado do pátio lá no limite do terreno, próximo ao muro de taipa. Não haviam luzes elétricas naquele barracão de sucatas.
Ato contínuo chamei pelo meu amigo.
Com alguma apreensão caminhamos até o lugar do evento. Não era possível ser fogo pois a chuva intensa que caíra havia molhado todo o mato e a lenha da caldeira, impedindo qualquer tipo de combustão.
Rente a parede do barracão rosa, e por uma grande extensão do terreno onde vicejavam as flores de São José, havia uma luz que oscilava entre o azul e o lilás, fraca, porém suficiente para projetar sombras.

O fato constatado há muitos anos atrás repetia-se aos nossos olhos de uma maneira mágica, intensa, estranha.
Olhamos para aquela luz que se espraiava agora por todo o terreno dos fundos e escoava, como se fosse um plasma em direção ao rio, juntando-se a água que corria e gradativamente foi diminuindo de intensidade.

Em alguns minutos o lugar estava novamente às escuras, e as poças refletiam apenas as luzes distantes das instalações da fábrica de refrigerantes.

13 de mar. de 2014

O Berrador

É provável que um ou outro leitor já tenha escutado, na calada da noite, um berro naquele som que não pode ser atribuído a algum cachorro, gato, ou qualquer outro animal noturno que vagueie nas sombras. O som surge de súbito, ecoa pelos fundos dos quintais e desaparece no horizonte, de forma diáfana, e que não permite a localização de sua origem. Existem pela cidade, em que pese todo o modernismo, resquícios de lugares antigos, mansardas decrépitas nas quais nem as lâmpadas halógenas conseguem expandir luz. Ribeirão Preto tem lugares assim. Às margens das antigas ferrovias, no entorno da extinta Cerâmica São Luiz, lá pelos fundos de onde existiram por muitos anos o Frigorífico Morandi, o Matadouro Municipal, a fábrica da Douradinha, o Frigorífico Marchesi e outras tantas instalações por aqueles arredores, os quais conservam a Egrégora dos anos passados de muita história sob as luzes tênues vindas de lâmpadas em postes de madeira e de lampiões a querosene. Em determinados momentos ao crepúsculo é possível ser percebido por um ou outro indivíduo mais sensível a atividade febril que havia naquele local e que foi esmaecendo aos poucos, dando lugar a um abandono e ruínas as quais contudo conservaram a magia esplendorosa daqueles tempos áureos. Entre as matas conservadas às margens do rio, animais que se imaginam somente nas matas distantes acorrem àqueles lugares como refúgio a poucas quadras do centro da cidade. Se for observado com atenção, esses espaços na verdade constituem uma ilha, pois é necessário atravessar a a ponte da rotatória ou a ponte da Via Norte para ter acesso ao local. Essa ilha tem mantido a energia dos locais de imolação que foram os três frigoríficos do local, bem como de uma série de crimes de morte que se desenrolaram naquele espaço.  Em algumas oportunidades nas quais desloquei-me por ali a passeio e em visita a amigos que moravam nas imediações, naqueles momentos em que o dia ainda não é noite e a noite ainda tem resquícios do dia, ouvi um som surdo, monocórdio, intenso, cujo eco repercutiu naquelas paredes antigas, no entorno da moderna avenida, entre a cantaria corroída e os telhados decrépitos dos antigos prédios, testemunhas de uma época que o vórtice dos anos não conseguiu ainda apagar de todo. Pela frente a Rua Industrial, ao lado o mato e as árvores grandes às margens do rio, com o crepúsculo a desenhar longas sombras. Esse lamento, uma mistura de angústia e medo parece exalar da alma daquele lugar secular de histórias de vitórias e derrotas.
Esses berros que ribombam e se afastam na distância pelas margens do rio são, para o meu entendimento e de alguns moradores daquele lugar, dos quais um e outro trabalhou nas indústrias e nas ferrovias nos tempo antigos, um  estertor daqueles que por lá estiveram e que não irão retornar jamais.

8 de mar. de 2014

Luzes nas Noites de Ribeirão Preto

Há relatos, desde muito tempo, sobre pontos de luz avistados nos ermos, em ruas desertas, em casas que sabidamente pelas lendas, são tidas como sendo assombradas.
Há na obra do poeta irlandês Yeats, citações sobre esse fenômeno. Ribeirão Preto também tem seus relatos.
Nos descampados aonde localizava-se o Cemitério dos Lazarentos, nos locais aonde funcionaram por muitos anos abatedouros de animais, desde o primeiro a ser construído ainda no final do Século XIX, o antigo Matadouro Municipal, e também em ruas do centro da cidade, aonde em tempos pretéritos existiram cemitérios. O poeta Yeats refere-se a esses pontos de luz intensa como sendo a manifestação dos homens abatidos nos campos de batalha em sua terra natal.

Aqui entre nós, o folclore com suas lendas afirmam que esses fenômenos de luz ocorrem em locais mal assombrados, aonde ocorreram violências, sofrimentos,  crimes de sangue e matança de animais.
Os locais que relatos populares, hoje perdidos nas noites dos Tempos apontam, possuem essa sina.
Houve uma casa nos Campos Eliseos a qual durante duas gerações esteve abandonada, a qual  os transeuntes, em horas tardias, várias vezes relataram observar por entre as vidraças empoeiradas, luzes vagando no interior dessa casa.
 Anos mais tarde, depois de muito abandono, com mato no quintal e no jardim, vidraças partidas, madeiramento podre e todos os demais estigmas de casa não habitada, os pedreiros que demoliam um antigo fogão à lenha descobriram em seu interior uma ossada.
Mistério oculto pelo Tempo.
Não ficou-se sabendo quem era o indivíduo morto, e nem ao menos quem o enclausurou naquele local.
Naqueles tempos os contratos eram de boca sendo portanto raros os registros escritos.
Com os muitos anos passados e a casa passando para domínio público, sendo arrematada em leilão, quem pretendeu ocupá-la realizou a nefasta descoberta.

Apenas para corroborar as crendices.

Mas aqueles que, imbuidos de poesia e sentimentos, em noites tranquilas e escuras, ao aventurar-se em caminhar podem, nos lugares citados, ou em outros pontos, divisarem, resplandescentes, esses mágicos pontos de luz, sejam lá o que forem.

O Cervo Branco

O texto deve ser célere, leve, tênue, como as visagens que pretende retratar.

A Fazenda Monte Alegre, aonde hoje situa-se o Campus da USP, pertenia ao fazendeiro Francisco Schimdt.
A sede do atual Museu do Café era a casa principal da fazenda.
Tempos do café.
Muito dinheiro circulando, muita riqueza acumulada pela elite produtora dessa "commodity".
E as lendas de ouro guardado. O ouro do coronel.


As lendas começaram a ser murmuradas a boca pequena pouco tempo após a sua morte nos anos de 1920.
Mais de um vigia noturno, mais de um notívago vem referindo-se através das décadas quanto a aparição de um cervo branco, de olhos vermelhos, que caminha placidamente pelos vetustos jardins que existem naquele local, e desaparece quando chega ao coreto.
E nas noites que evolam, perdidas nas épocas, mesmo nesse tempo de lâmpadas eletrônicas e computadores, há as noites em que a visagem aparece, rápida, tênue, semi-luminosa, caminha pelos jardins e desaparece.
Sempre na Hora Neutra da madrugada.

Miúcha e o Seu Tempo. Visita na Noite.

Chamava-se Miúcha.
Uma Basset. De pelagem marrom.
Viveu em um tempo encantado.
Em um lugar encantado.
De muitas árvores, em um grande quintal,
daqueles quintais das casas antigas, aonde não se limitava espaço.

Miúcha e todas as estrepolias de cachorro saudável.
Correr atrás de bolinhas, perseguir gatos, a fugir dos banhos, glutona,
dormindo estirada ao sol, nos dias de preguiça, a enconder-se, aflita, dos raios e trovões nos dias sombrios de chua de frio.
Uma variedade da latidos a exprimir o que lhe ia na alma(?), espantando os pássaros e recebendo as reprimendas de costume.
A sua maneira de receber aqueles que com ela participavam das brincadeiras, entre os seus latidos agudos de alegria. E todo um cabedal de anos, uns bons, outros nem tanto,
como acontece em todas vidas.
Aquela vida, representada pela areia a
escorrer pela ampulheta do Tempo.
Um dia a areia para de escorrer.
Para de escorrer para todo o mundo.
Em um distante agosto, parou para a Miúcha.
Silêncio.
Silêncio no quintal antigo, sob as jaboticabeiras.
Silêncio calado no peito daqueles que a conheciam e cuidavam.
Silêncio sob a luz baça que iluminava, entre as sombras, os cantos escondidos do imenso quintal.
Passaram-se os dias. Muitos dias.
Dias que transformam-se em semanas, meses.
Em uma noite, alguns dos antigos personagens daqueles dias
Já diluídos no Tempo, dirigiram-se até o quintal para inventariar alguns objetos.
Adentraram por um portão lateral.
A luz do quintal não acendeu.
Escuro.
A casa, agora vazia, pois em uma ocorrência de situações havia sido fechada pela antiga proprietária.
 

Luz apagada, com uma pernumbra provocada pelo quarto crescente da Lua derramando-se sobre as folhagens, sobre as imensas jaboticabeiras paradas, espreitando no ar frio. E, de um instante, todos os quatro presentes ouviram, em espanto, os latidos que a cachorra Miúcha dava, quando recebia visitas.

Ariel, O Mágico

Eu o conheci criança. Quase uma criança de colo. Negro. Filho da Cicera.
No inverno vinha o Ariel com uma blusa de flanela somente com o primeiro botão abotoado. O primeiro de cima. Às vezes vinha com manha. Às vezes vinha calmo.
E nisso, muitos anos passaram. Todos foram de crianças para os adultos.

A Cicera? A nossa amiga Cicera morreu em um momento do caminho. Deixou o Ariel de olhos tristes, de inteligência fina, de dedos rápidos. Um mágico! Um mágico como Michael Jackson, um gênio do entretenimento, um gênio dos sonhos. Um gênio da liberdade, da alma solta, ao vento, como o vento, ou como as folhas secas levadas por ele, o Vento.
Levitava em minha sala, fazia moedas atravessarem a mesa sólida de madeira. Fazia objetos aparecerem nos mais inusitados lugares. Trazia pombas, coelhos, cambaxirras nas mangas. Divertia as crianças. Espantava os adultos. Ariel, livre como o pensamento, Ariel, livre como vento. Ariel. Uma das cinco grandes luas de Urano. Ariel, nome de anjo. Ariel, quase um anjo caído.
Ariel, o Mágico, passou vários anos pelas nossas vidas, até mesmo após a morte de sua mãe. Ariel, amigo; por vezes penso, que aqueles distantes dias já pertencem a uma outra vida.
Ariel, que se projetou no Tempo, na magia do Tempo, e foi a contento, acompanhando um circo, o Mágico do Circo, de estrepolias inocentes, de doce magia, entre pipocas e algodão doce colorido, de truques magníficos, sobrenaturais.
Ariel, o Mágico dos Mágicos, tocado pelo Anjo, tocado pela Inteligência, tocado pela Magia de ser ele mesmo.

Ventos de Agosto

Há reclamos gerais, mas soam inócuos. A Natureza segue o seu caminho, indiferente ao mais hiperativo de seus filhos, o homem. Agosto, em nossa região, sempre foi mês de frio, vento e seca. Assim serão os agostos.
Até onde poderemos lembrar.

Mês do Folclore, mês da lendas.
Nesse dia, 16 de agosto, em 1983, ao sair para a rua, havia geada sobre a grama, sobre os veículos.
Nesse dia, l6 de agosto, o Sr. Gino Baldoni Alpes, criador do elixir da felicidade, a Douradinha, completa aniversário.
Nesses dias de agosto, nos redemoinhos, nos pastos secos das queimadas, é possível ouvir o Saci Pererê, com o seu agudo assobio ... Alguém duvida?
Esse é o tempo de agosto, de frio, seca e vento ... e o que mais virá, nos mistérios das lendas, tão esquecidas e desprezadas nesses tempos de então, quando toda a sensibilidade e a poesia esvaem-se por entre as sombras do esquecimento.

Reinaldinho

1963. O ano era 1963.
Reinaldinho tinha quatro anos.
Um garoto loiro, miúdo.
A sua mãe era, como se dizia na época, uma mulher da vida.
Mas era mãe. Contudo mãe ausente.
Não foram poucas as noites em que a mesma deixava o menino só em casa e saia para a noite. Reinaldinho era uma criança triste. Via-se alegria em seu rosto infantil quando, nos finais das tardes, pedalava o seu velocípede pelas calçadas.

E foi através de sua crescente dificuldade em impulsionar o brinquedo que evidenciou-se os sintomas da doença que o estava acometendo.
Mas, passou-se mais algum tempo para que a mãe notasse.
E o ruído característico do brinquedo pelas calçadas continuou.
Mais fraco, mais cadenciado, conforme o ritmo da impulsão que Ronaldinho aplicava aos pedais.
Por um dia, dois, três, Reinaldinho não apareceu ao final da tarde, para o seu costumeiro passeio.
As outras mulheres indagaram a mãe, em uma oportunidade que se fez, da ausência do menino.
Ele referiu que o garoto estava doente, com uma infecção na época tratada como "reumatismo infeccioso".
Entre o diagnóstico e o passamento, correu o espaço de alguns dias.
Um enterro simples, triste, de poucas pessoas, sob um céu de chumbo, de garoa fria, em um hoje distante junho, de outra época, de outras modas, de outros valores, de outros sentimentos.
Em uma quadra geral no Cemitério da Saudade.
É esse fim que projeta o indivíduo para a Eternidade.
A vida é um lapso, mas morre-se para todo o sempre.

Passaram-se décadas.
As pessoas mudam, morrem, casas são construídas, casas são demolidas.
A um constante e inútil movimento chamado de progresso.
Muda-se a aparência, mas não se muda da essência.
Os lugares são sempre os mesmos em suas energias.

O cemitério também mudou.
Não existem mais as quadras gerais, com os sepultamentos na terra.
Tudo foi revirado e transformado.
Nada mais restou.

No entanto, por muito tempo, os antigos moradores da vizinhança do finado, ouviam nas tardes frias e silenciosas, no início da noite, entre a brisa e as folhas soltas ao vento, entre os murmúrios dos dias passados, o ruído do velocípede do Reinaldinho.

A Loira do Banheiro

As lendas são histórias populares, do senso comum, nas quais em que pese não terem comprovação científica, inundam o imaginário popular.
Mas, estamos a divagar.
Não há explicações para o que não pode ser explicado.
Com a urbanização, as cidades, tal como nos campos de antanho, passou a ter as suas lendas.
Urbanas. Não menos interessantes.

Os fatos relacionados com uma jovem loira, que, de tempos em tempos assombra os banheiros femininos das escolas são muito conhecidos.
Em Ribeirão Preto essa lenda iniciou-se ainda em meados da década de 1950 e permanece até hoje.
O porque de existir, como todas as lendas, foge de nossa possibilidade de compreensão.
Mas a loira do banheiro existe, e, de tempos em tempos, assombra os banheiros.
Femininos.
Não há relatos da aparição em banheiros masculinos. Claro, pois ela, a Loira do Banheiro, é uma dama!
No mês de Maio do distante ano de 1974, algo aconteceu por aqui.
Tal como aqueles fenômenos sazonais, os quais foram estudados com maestria por Charles Fort, que aparecem em alguma época e depois esvaem-se no Tempo, permanecendo na lembrança daqueles que o conheceram e que dão um colorido de medo nas narrativas, nos casos contados na boca da noite, a Loira do Banheiro visitou uma escola.
Uma escola pública, tradicional em Ribeirão Preto, como eram tradicionais as coisas antigas.
Hoje tudo banalizou-se, tudo caminhou para um enfado, uma falta total de sensibilidade e poesia, matéria prima necessária para criarem-se fantasmas.
Mas esse fantasma, a Loira do Banheiro, frequentou com tal assiduidade as dependências da escola em questão, que as meninas passaram a recusar-se a utilizar o banheiro, havendo vários casos de desmaios e histeria generalizada entre elas, que a direção da escola suspendeu as aulas por vários dias.
Não houve aulas no período noturno por algum tempo.
Haviam relatos sobre uma luz cambiante divizada através das janelas daquele recinto condenado.
Nas turmas das séries diurnas havia também um frenesi, um medo mal dissimulado.
Entreva-se no banheiro somente em grupos.
Em um certo dia, mais frio e muito nublado, vários alunos afirmaram terem visto uma luz baça, de tom verde, a esvair-se por sob as portas de um dos sanitários.
Havia medo nos alunos. Havia medo entre os professores e funcionários.
Havia a ausência de uma explicação.
Mas, os dias foram passando, e como acontece nesses casos, o fenômeno vai de desernegizando, outros fatos ocuparam seu lugar.
Tal como quando se obtém uma graça, o motivo pelo qual solicitou-se, dissolve-se no cotidiano de cada dia, com as preces vagando eternamente pelo éter, até o momento no qual sejam novamente necessárias.
Assim aconteceu. O temor, o receio atávico, o medo ancestral foi embora.

Em nossa Ribeirão Preto, essa aparição foi relacionada a uma jovem que morreu aos 18 anos, em 1953.
Após essas ocorrências, o túmulo da família aonde essa jovem encontra-se sepultada, foi local de peregrinação.
Curiosos e crédulos estiveram por lá. Retirou-se da lápide a foto da jovem.

Os anos passam, atropelam-se as recordações.

No outro dia ouvi as observações de uma menina, muito jovem ainda, dizendo que, de vez em quando, sente uma presença, como se alguém mais estivesse no banheiro da escola.Não um outro colega, se me entendem.
Há sempre em resquício de medo.
Há sempre uma sombra, há sempre em reflexo mal divisado no espelho.
Mas isso é somente uma lenda.
Um lenitivo para o tédio das horas vazias.

No outro dia o zelador da escola comentou que havia esquecido de apagar a luz do banheiro feminino.
Mas ele estava muito cansado da labuta diária para sair de sua casa, abrir uma série de portas e acionar o interruptor.
De mais a mais, comentou, não saber se era a lâmpada daquele recinto em questão que estava acesa.
Afinal, a luz que escoava por entre a folhagem do jardim entorno, vista por seus olhos cansados,  era de um tom verde.

Walpurgis em Ribeirão Preto

Crianças desaparecem.
Por vezes jamais são encontradas.
A passagem do Tempo as levam para o esquecimento.
Nos registros da cidade, em anos intercalados, foram registrados o desaparecimento de várias crianças pequenas.
Comentava-se o fato por um período, as autoridades agiam, mas o resultado era pífio.
Entre os anos de 1890 até 1932, noticiou-se o desaparecimento de vinte e três crianças. 

Jamais foram encontradas.
Após o ano de 1932 houveram outros desaparecimentos, mas em intervalos de anos maiores.
Quem atentou para o fato da sequência de desaparecimentos foi o meu amigo G-.
Mas isso muitos anos depois de todo o acontecido.
Atentou o meu velho e bom amigo para um detalhe que as crianças, todas entre 1890 e 1932, desapareceram  nos dias finais do mês de abril.
Até 1932.
Conversávamos sobre isso em seu escritório na velha fábrica. As nossas confabulações ocorriam quase sempre ao final do dia, quando as sombras cambiantes começavam a ressaltar a pernumbra anunciando a noite próxima.
É um momento do dia em que acentua-se um silêncio que provém de outros lugares, de outras crenças, e que para nós é quando os anjos recolhem-se das fainas do dia.
E a conversa correu amena, como em outras oportunidades, entre uma xícara de café e outra.
E o assunto havia começado porque o dia era 30 de Abril, e as recordações fluiram para o meu amigo após muitas décadas, como se os fatos haviam desenrolado-se no dia anterior.
Veja - disse-me - a noite de 30 de Abril para 1 de Maio é a noite de Walpurgis.
É uma noite temida na Europa.
Talvez tenhamos esse medo atávico por causa de nossas origens.
Mas lá, na Velha Terra, toma-se um cuidado especial com as crianças pequenas.
Nessa noite comemora-se o início da Primavera, e nos rituais cujas origens perdem-se na Noite dos Tempos, a realização de sacrifícios eram comuns.
Coisas antigas que perdem o sentido nesse mundo de lâmpadas eletrônicas, computadores, internet, contudo artefatos os quais pouco efeito tem sobre a noite e as criaturas e lendas que caminham nas bordas do Tempo.
É possível observar que, nesses dias desaparecem crianças pequenas que não são mais encontradas.
Há períodos de calmaria, e por vezes passam-se anos sem nenhuma ocorrência, mas, em outros, esses desaparecimentos acontecem.
Dizendo isso, o meu amigo G- levantou-se de sua cadeira e foi até um armário antigo, objeto n o qual poucas vezes eu havia visto com a porta aberta. De lá, o meu amigo retirou uma pasta muito velha, e que continha uma quantidade de recortes de jornais.
Alinhnado-se pelas datas do cabeçalho, foi possível reler as notícias de anos e anos no passado.
E aquilo que o meu velho amigo havia dito era uma constatação.
Nas notícias, muitas com a gramática pretérita, estampadas nos papéis amarelados e frageis, foi possível conhecer uma série de desaparecimentos em datas próximas ao dia 30 de Abril.
Eram surpreendentes! O meu velho amigo, com a sua sensibilidade ímpar havia colecionado uma sequência incrível de fatos os quais não haviam despertado a atenção de ninguém.
Algumas datas estavam anotadas em sua caligrafia cursiva em finas folhas de papel de seda.
Explicou-me que, quando em um dado momento, através da leitura de periódicos notou a sequência, ano após ano, do desaparecimento de crianças, dirigiu-se a sede do jornal, nauseou exemplares de muitos anos passados, e, na impossibilidade de possuir uma cópia dos mesmos, realizou as anotações.
Era assombroso!
Fatos semelhantes em seus contornos, afastados por muitos anos no tempo.
Mais uma xícara de café e acendemos a luminária sobre a mesa antiga de tampo riscado pelos anos de uso constante.
As notícias fluiam como uma sênie mágica e repelente.
Somente a mente lúcida e atenta do meu amigo poderia ter notado essa sequência estranha de fatos.
E o mesmo jamais havia comentado com outro indivíduo, a não ser naquela presente oportunidade.
Lá fora a noite era feita.
A luz da luminária que vazava pela porta, desenhava um retângulo amarelo no pátio.
Para todos os lados, escuridão.
Apenas um ou outro pirilampo mostrava a sua luz verde contra a noite.
Um lasvio de sabor amargo percorria a boca, conforme os olhos tomavam conhecimento daqueles fatos insólitos, perdidos no Passado.
A leitura e a nossa conversa avançou por mais alguns minutos.
O relógio mostrava o adiantado da hora.
Pouco depois o guarda noturno chegou, e ajudei-o a acender as lâmpadas do pátio e dos prédios lá no fundo.
Ao acender a lâmpada da caldeira, soprava um brisa fria a qual contrastava com o calor que ainda emanava da fornalha.
Naquele momento pensei ouvir um breve lamento soturno entre o farfalhar das folhas dos mamoeiros localizados logo ali na horta.
Imaginação solta.
A conversa havia sido muito envolvente.
Recolhemos as nossas coisas, despedimo-nos do guarda e embarcamos no automóvel.
Estavamos em silêncio.
Mas penso que o meu amigo meditava algo semelhante ao que me passava pela cabeça naquele momento.
Algos fatos, alguns segredos devem ficar aonde estão, lá, bem guardados, em uma esquina qualquer do Passado.

A Casa do Tião Macalé

Acordei de um sono intranquilo, ainda com os ecos do sonho incabado ecoando nos ouvidos.
Em algum lugar da vizinhança realizava-se uma festa.
O ruído surdo de cantorias era acompanhado de estouros. Estouros fracos mas audíveis.
Verifiquei as horas.
Passava um pouco da uma da manhã.
Levantei e dirigi-me até o quarto dos fundos.
A noite estava tranquila, sem vento, e o calor dos últimos dias ainda refratava nos telhados escuros. 

Ouvi outros estouros. Cheguei a conclusão que deveria ser balões e que tudo fazia parte das comemorações na festa que avançava pela madrugada.
Olhei pela janela na direção oposta.
As casas eram silhuetas escuras na noite sem luar.
Destacando-se mais alta, a casa do Tião Macalé na rua abaixo.
É um sobrado, e o Macalé que é artista plástico renomado, deu a sua residência um aspecto singular.
Na parte superior foram usados diversos tipos de materiais e diversos tipos de cobertura.
Observada à luz do dia, a casa tem um aspecto e cores bem diferentes das demais do entorno.
Reflete a verve criadora do seu morador.
Mas, naquele instante, outra coisa chamou-me a atenção na noite escura.
Uma miríade de pequenas luzes coloridas percorria toda a parede do sobrado distante, uma corrente de luzes coloridas, infinitas, como se centenas de pirilampos subissem e descessem pelas paredes. Se houvessem pirilampos com outras cores além do verde.
Foi uma onde incrível de luz intensa, fenômeno que durou alguns segundos, para logo em seguida desaparecerem.
Recortada contra a escuridão, ficou apenas uma janela fracamente iluminada, na parte mais alta da casa, como se tivesse sido deixada acesa uma vela.
Essa mesma luz oscilou por alguns instantes e finalmente também apagou-se, permanecendo tudo nas trevas que envolviam a noite tépida.
Permaneci por mais algum tempo observando, mas as luzes não tornaram a aparecer.
Como para o conhecimento humano deparam-se mais mistérios do que soluções, registro mais esse fato.

O famoso escritor inglês Edward Bulwer-Lytton e seu conto A Casa e o Cérebro, publicado em 1859, descreve efeito semelhante.
Na noite em questão, 16 de setembro, tive a oportunidade de observar a plástica da ocorrência na obra literária do citado autor.
Luzes intensas e coloridas nas noites escuras podem ser transmigrações de espíritos.

Mas, realmente, a noite continuou agitada entre um despertar brusco e ecos ainda a ribombar na noite.

Uma Carta para o Dr. Edwar

Aquela manhã de junho estava fria e chuvosa.
No trajeto que o Dr. Edwar fazia até a delegacia, ela passava por sob as grandes árvores da praça, as quais gotejavam a umidade acumulada.
Naquela hora não havia ninguém no entorno. Nem os costumeiros andarilhos embriagados.A luz tênue das últimas luminárias refletia-se nas poças.
Aqueles momentos de silêncio e apatia de um dia frio encontravam um homem simples, de rotinas, caminhando para o seu local de serviço, talvez algo disposto pois o clima ameno depois de vários dias de calor era algo bem vindo.

O Dr. Edwar entrou no prédio da repartição, uma casa antiga, adaptada para ser uma delegacia, de um grande bairro da cidade, mas de qualquer forma pacata em suas ocorrências. Uma desavença ocasional de casais, alguma discussão de vizinhos, um pequeno furto.
À entrada cumprimentou o funcionário que encerraria o seu plantão logo mais, e dirigiu-se para a sua sala. Estava fria. Acendeu a luminária, uma peça antiga de cristal, que fazia parte do acervo da casa. Algumas lâmpadas fracas brilharam, acentuando ainda mais as sombras fugídias nos cantos das paredes entre os arquivos. Ao correr a cortina, entrou um pouco mais de luz, mostrando a praça, do outro lado da rua.
Agora, um ou outro transeunte apressava-se sob a chuva que se intensificava.Não havia nenhuma ocorrência urgente.
Sobre a mesa acumulava-se um volume de de correspondências dos dias anteriores.O Dr. Edwar pediu que lhe trouxessem uma xícara de café e começou a verificar os envelopes.
A maior parte eram documentos oficiais. Algumas propagandas também faziam parte do volume. Outras provinham de entidades que solicitavam algum tipo de auxílio, uma da igreja, comunicando da quermesse, e ainda uma carta em um envelope pardo, de tamanho ofício, sem remetente.
O endereçamento estava escrito em letra de forma com as letras achuriadas com tinta de outra cor, com o objetivo de dificultar uma uma possível identificação.
As autoridades policiais recebem muitas cartas anônimas. Seria essa mais uma. Há sempre uma curiosidade em relação a esse tipo de correspondência.
O Dr. Edwar bebericou um pouco do café, e abriu a carta.Haviam duas laudas datilografadas, em papel comum, e a tinta da fita de impressão da máquina estava bastante fraca.
Haviam algumas palavras corrigidas à tinta, não havia data na cabeçalho e também nenhum nome, nenhuma assinatura. Observando o envelope, foi possível constatar que a carta havia sido postada na cidade mesmo, na agência do correio da avenida. Após esse exame, o delegado passou a ler o texto, o qual dizia, resumidamente, o seguinte:"... há muitos anos que eu não vinha para Ribeirão Preto. A cidade cresceu muito em relação aos anos de 1950. Existem lugares que nem ao menos os reconheci. Foram abertas novas ruas, outras foram pavimentadas, outra ainda estão no completo abandono que sempre as caracterizou.
Ribeirão Preto sempre foi mesmo uma cidade de contrastes.Caminhei por vários bairros, passei pelas antigas estações ferroviárias, vi que a central nem existe mais. Ouvi também que pretendem resolver a questão centenária das enchentes, com o alargamento do leito do rio, o que, penso, irá sacrificar as palmeiras e outras árvores majestosas,  plantadas desde o começo do século. Sinais dos tempos ... Também observei que a cerâmica das sete chaminés não está mais ativa, bem como as demais indústrias que deram o nome aquela rua que termina na fábrica  de refrigerantes. Ouvi também da vizinhança que o dono da fábrica, o Senhor G_ ainda é vivo, bem avançado na idade. No mais escombros.
E mais escombros ainda, quando observei que o antigo Matadouro Municipal foi demolido, o por sobre os restos edifício há uma via pública.
Restaram somente alguns muros de arrimo de separavam os animais para o abate do leito da ferrovia. De qualquer forma, a situação é interessante.
Os nove indivíduos que por ali sepultei, entre os escombros e a cantária, gentes de somenos que perambulavam pelos arredores, prostitutas e notívagos, jamais serão encontrados ..."
O Dr. Edwar leu as últimas linhas entre um austo de espanto e incredulidade. Bebericou mais um gole de café, já frio.

Lá fora, no horizonte, ribombou um trovão, e a chuva ganhou intensidade, enevoando a vista da praça, e tornando baça a luz de um ou outro veículo que passava.

O Coral das Sombras Diáfanas

Os espaços urbanos mudaram.
No lugar de antigos prédios, de terrenos baldios, surgiram, com o passar dos anos, outras construções e os terrenos foram ocupados.
É assim que funcionam as cidades.
Contudo alguns edíficios foram preservados.
Alguns públicos, outros não, a manutenção desse conjunto arquitetônico mantém um liame de ligação entre o Presente e o Passado.

Esses edifícios, concebidos com outros materiais, com outras técnicas destacam-se, hoje, das construções do entorno.
Possuem uma aparência vetusta, como um objeto que virou uma esquina do Tempo, e por vezes mostram-se apartados do atual momento histórico.
Refletem uma egrégora de outras ideias, outros indivíduos, outros valores.
Penetram na linha do Tempo sublimes, inabaláveis, enfrentando as intermpéries. Repositários da História.
Pelo fato de não terem sido demolidos, criam uma força sublime que nos faz acreditar estarem fadados ao um Futuro muito mais distante daqueles todos que os veem e os frequentam. São mágicos. Por vezes, soturnos. Em suas fundações de tijolos de barro cru, sustentando a estrutura de grossas paredes, entre as vigas de madeira, os pisos, os antigos encanamentos, a fiação elétrica, as sucessivas pinturas da paredes, repousam a História de inúmeros fatos, bons ou não, que compoem a marca dos indivíduos e suas criações no mundo.
Alguns desses edifícios parecem exalar uma vida própria, como se fossem organismos imensos, desafiando as épocas, os valores, os homens.
Viram lendas. São assombrados. O Passado percorre as suas salas, os seus corredor5es. Os seus cantos escuros. Goteja dos telhados em dias de chuva. Está impregnado no lodo das paredes e das calçadas de tijolos, contornando os antigos canteiros de flores. Alguns tem quintais com pomares. Árvores que estão lá há muitas décadas. Algumas ainda produzem frutos. Outras morreram, e os galhos finos, secos, são testemunhos dos tempos aureos.
A arquitetura reflete o momento histórico em que foi criada.
A exuberância é a prova do poder econômico.
Mas tanto as construções mais ricas quanto as mais humildes, se permanecem passam a ter uma aura.
Os espíritos antigos, em algum momento, apossam-se do lugar. É um refúgio, ainda inespugnável, do avanço das mentalidades que não pautam pelos sentimentos, pela poesia.
Em Ribeirão Preto foram preservados alguns lugares assim.
Na antiga escola pública do centro permanecem algumas características mesmo sob a insensibilidade de todos os que percorrem os seus espaços. Os homens passam, as ideias ficam.
Caminhar pela noite deserta e calma era aquilo que Mário apreciava fazer.
Em uma noite mais escura e mais fria do que as demais, quando realizava uma calma e distraída reflexão, entre passos lentos, observando as nuvens encobrirem o céu de estrelas, e percebendo a brisa fria que agitava as árvores, Mário viu-se defronte ao prédio da escola, silhueta recortada contra o fundo esbranquiçado de nuvens agitadas.
As árvores na rua projetavam sombras escuras, impedindo a iluminação pública de atingir alguns recessos, envolvendo tudo em pernumbra. E a pernumbra faz imaginar coisas.
No momento em que apreciava a fachada insone do prédio antigo, pareceu haver, projetando-se das janelas do andar superior, uma fosforecência que contrastava com a escuridão. O que era aquilo? Tarde da noite, quase na Hora Neutra da Madrugada, luzes em um prédio público, uma escola?
Logo em seguida, por entre o som das folhas agitadas agora por uma brisa mais forte, mais fria, Mário passou a ouvir vozes.
Vozes a cantar! Um coral, executando uma peça de canto, tênue, como a luminescência que escoava das janelas, mas bem perceptível entre a brisa e as sombras esvoaçantes na noite fria.
Um leve temor atávico instalou-se em sua consciência. Aquele temor diante de coisas desconhecidas. Continuou a caminhar, observando o prédio, as luzes tênues, o canto, de muitas vozes que ecoavam e sumiam, levado pelo vento.
Passou defronte o prédio, e mais um pouco encontrava-se na  outra esquina.
As luzes tornaram-se bem fracas, confundindo-se com a iluminação pública, as vozes, suaves, foram mais e mais atenuadas entre as rajadas do vento, agora forte o suficiente para prenunciarem uma chuva próxima.
Mais célere, Mário afastou-se dali.
A chuva começou a precipitar-se. Chuva fria, transudando a Passado, a lembranças antigas. De outros tempos, da infância, de alguma história ouvida e não bem compreendida.
O Tempo passa. Inexorável. O cotidiano, a necessidade de permanecer existindo leva para algum canto da mente as lembranças mais doces, mais impressionantes.
Mário, por diversos motivos não caminhou mais pelas noites.
Talvez por receio, talvez por querer manter uma lembrança e uma incerteza sobre aquilo que testemunhou. Uma manifestação mágica do Contínuo Espaço Tempo, ou uma ilusão.
O prédio mantem-se lá, depositário de inúmeras energias e manifestações através de cada época, de cada momento que capturou e de vez em quando, por mecanismos que não compreendemos, devolve-os ao mundo.

A Procissão Fantasmática

Daniel sentou-se na varanda defronte a casa.
Dali podia enxergar  toda a extensão da rua.
Manteve as luzes apagadas.
A noite estava fria, como frias são as noites de junho.
Do ponto onde estava podia observar também  a Lua, no minguante, a Oeste.
Era dia da Procissão de Santo Antonio.
Daniel havia por anos seguidos acompanhado o andor.

Mas nos últimos tempos, a saúde debilitada veio a impedi-lo de lá estar naquele ano.
A procissão seguia o mesmo trajeto há décadas.
Passava defronte a sua porta.
Naquele ano decidiu que realizaria o seu ato de Fé em Santo Antonio festejando-o quando o andor passasse por sua porta.
Entre a pernumbra, somente quebrada pela luz da rua, e o silêncio do entorno, Daniel instalado
em sua poltrona, adormeceu.
Não sabia quanto tempo havia passado quando, acordando em um sobressalto viu a luz tênue das velas do andor, bem como centenas de outros pontos de luz.
Era a procissão.
Por entre a brisa da noite fria, Daniel observou que o cortejo aproximava-se no mais absoluto silêncio.
Os cachorros da vizinhança estavam quietos. Nenhum latido cortava o ar fino.
E também, interessante, as chamas das velas não oscilavam.
Daniel concentrou-se em suas orações, e a multidão, com suas velas, seus capuzes, suas sandálias, o andor, com o santo sobejamente iluminado, entre flores brancas, foram passando, silenciosos, etéreos, preenchendo todo o espaço da rua, das calçadas, sob as copas das árvores, dentro da noite. Mágica.
Envolto em pensamentos e preces, não soube depois Daniel dizer qual o intervalo que ficou a meditar.
Acordou uma segunda vez.
Estava no mesmo lugar, sentado em sua poltrona.
Havia passado um grande intervalo de tempo, pois a vela votiva no canto da varanda estava prestes a apagar.
Bruxuleava a sua chama, lançando sombras tremeluzentes de si e dos objetos na varanda.
O grande vaso de samambaia produzia sombras recortadas na parede.
O frio na noite havia acentuado. O silêncio era envolvente.
Não havia mais nenhum sinal da procissão que havia descido a rua e virado em uma esquina.
Esquina do Tempo.
Daniel recolheu-se.
E durante os sonhos da noite sonhou com uma procissão, profusamente iluminada, em uma noite deserta de outras vidas, e que as sombras dos participantes desenhavam sombras oscilantes nas paredes das casas pelas ruas em que passavam.
Silêncio absoluto. Não ouvia-se nem o murmúrio das orações.

Nasceu o novo dia.
Lembranças noturnas.
Divagações através das orações na Fé e nos Mistérios.

Enquanto isso o rádio na cozinha noticiava que a procissão da noite anterior, depois de décadas, havia percorrido um outro trajeto.

O Mistério da Catacumba

Há situações recorrentes.
Algumas, indubitávelmente, envolvem sofrimento humano.
Temos exemplos interessantes na literatura.
Em "O Barril de Amontilatto" de Poe, "A Nova Catacumba" de Doyle, e em "Venha ver o por-do-sol" da Lygia, há um crime, e o autor, e algoz, ficou impune.

O túmulo, uma capela, foi erguido no final do Século XIX.
Imponente. Todo de pedra.
Um pequeno adro, cercado por pesada grade de ferro e um portão de duas folhas dava acesso, através de uma estreia calçada até o pórtico, elevado alguns degraus do piso.
Esse pórtico, também de ferro  trabalhado, com vidros coloridos de azul, vermelho, verde, bem como janelas ogivais a grande altura, também revestidas de vidros coloridos, que em determinadas horas, no final da tarde, projetava uma miríade de cores sobre uma pesada tampa de ferro no piso, a qual dava acesso à catacumba.
O espaço interno da capela era decorado com um pequeno altar de mármore, na parede oposta a porta de de entrada.
Somente isso.
Quando da visita do pessoal do Patrimônio Histórico, sobre esse pequeno altar, desprovido de qualquer imagem, haviam resquícios de velas, de há muito tempo ali colocadas  em castiçais de prata, com o brilho esmaecido pelo zinabre.
Havia também fragmentos de flores sob muita poeira, colocadas em um vaso Murano, denotando a passagem de muitos anos.

O senhor Cláudio, construtor que há muitos anos exercia as suas funções no grande e antigo cemitério foi quem providenciou a abertura das fechaduras enferrujadas.
Naquele recinto não pisava uma pessoa desde os anos de 1940.
O sepultamento de uma criança havia ocorrido naquele local ainda em 1897, conforme informava o epitáfio.
Durante muito tempo, um pai dedicado havia levado flores e oferecido velas em devoção.
Mas de há muito, naqueles distantes anos do início da década citada que ele também havia partido, sendo sepultado em outro local do cemitério.
Agora, o antigo túmulo de pedra, uma preciosidade arquitetônica, estava sendo vistoriado com o objetivo de transformá-lo em patrimônio tombado.
Com o auxílio do senhor Cláudio e mais dois homens, a pesada tampa de ferro no chão, que dava acesso à catacumba, por estar bastante enferrujada oferecia grande resistência para girar em suas dobradiças.
Com o uso de pesadas alavancas de ferro, finalmente ela cedeu e girou, provocando um ruído agudo e desagradável, que transudou a lugares abandonados.
Sob a tampa havia uma sequência de degraus que desapareciam sob o piso, em uma profunda escuridão.
O pessoal estava preparado, e uma possante lanterna de LEDs foi acionada.
A luz azulada, fria, percorreu os degraus e as paredes úmidas debelando as sombras.
Um lance de quinze degraus levou ao piso inferior, onde no centro da área havia um pequena cripta de mármore em cujo interior, sabemos, estava a criança, há mais de um século.
A luz intensa percorreu todo o cômodo até deparar, para o espanto manifestado por todos os membros da equipe do Patrimônio Histórico, e também  ao construtor e aos seus auxiliares, com o corpo mumificado estirado no chão empoeirado.
As vestes demonstravam ser de uma mulher, na moda em voga de várias décadas passadas.
Nos dias seguintes, providências foram tomadas pelas autoridades.
Um sepultamento provisório foi realizado.
Relatou o meu amigo, o senhor Cláudio que, muito tempo depois, e até o momento no qual o mesmo contava-me os fatos, não ter sido aquela senhora ainda identificada.

Os Fantasmas Passeiam Na Tarde

Ameaçou chuva,
E choveu.
A tarde ficou escura,
Daquelas tardes em que a chuva
Bate com intensidade nas vidraças.


Um pouco antes de anoitecer -E os fantasmas saem mais cedo
Para passear.

Fantasmas que pertencem
A um tempo antigo, passado,
Em seus gestos e conversas,
Em sua aura ancestral.

Com a chuva caindo intensa,
As recordações povoam
Os cômodos escuros e desertos da casa,
Onde uma goteira ou outra molha o chão.

E, com essas goteiras e o som da chuva,
Entre o murmúrio da água correndo célere
Pelos quintais, buscando para além dos canteiros,
Buscando para além das guias, as quais levam
As águas para o rio,
Atente bem, e poderá ouvir o som que fazem
As almas,
Conversando conversas antigas,
De coisas, épocas e gentes
Que já se foram.

A tarde, escurecida pela chuva,
Faz a noite chegar mais cedo,
E os fantasmas saem para passear,
Nas alamedas tranquilas, silenciosas, molhadas,
Das recordações
Dos Tempos atrás.

Henrique, O Bêbado Alegórico

Por três décadas Henrique vagou, bêbado, pela ruas do bairro antigo.
Uma referência.
Lá na esquina do Henrique.
Lá no boteco do Henrique.
Aonde, por anos, tomava a primeira dose do dia.
Depois de muitos anos, o dono do boteco, o Senhor João, morreu.
Henrique perdeu o grande amigo das talagadas.

Tempos românticos, mais suaves, quando havia ainda cuidados com o sereno.
As noites eram frias.
Luzes fracas, cálidas, nas noites mal iluminadas, sem luar.
Melhores, quando a Lua cheia brilhava e tornava as ruas de paralelepípedos prateadas.
E emprestava um brilho sobrenatural as plantas nos quintais, nos jardins.
Henrique foi de todos esses lugares, por tanto tempo.
Entoava, às vezes sóbrio, a maior parte do dia nem tanto,uma estrofe  da célebre canção popular, do Nelson Gonçalves, " ... a deusa da minha rua ..."
Era outra marca do Henrique.
Nas tardes de sol, entre as sombras projetadas pelas árvores nas calçadas, e mesmo nas horas mais tardias, entre o frio, ouvia-se " ... a deusa da minha rua ...".
Talvez Henrique, o Bêbado Alegórico, em algum momento de sua vida tivesse amado alguma mulher.
Talvez partisse daí, como em muitos outros casos, uma desilusão que o tivesse levado a abandonar a casa que vivia em conforme com a sua velha mãe, e o emprego no armazém do Círculo Operário, e passado a viver pelas ruas, dependendo da caridade dos velhos moradores do bairro, que lhe forneciam alguma roupa, alimento, um banho esporádio e uns trocados para a bebida.
E assim foi.
De uma década para outra, o Henrique, envelhecendo na rua, as gerações passando, o bairro, mesmo que lentamente, modificando-se, mudanças, nascimentos, mortes, e o Henrique entoando "... a deusa da minha rua ..." com sua voz rouca de bêbado, cujo timbre refratava nas paredes das casas nas ruas estreitas das travessas, nas ruas largas e pela avenida e chegava aos ouvidos de todos os que o conheciam.
Muitos e muitos anos de abandono material.
Talvez um imenso abandono espiritual do qual não podemos sequer imaginar a extensão.
Chuvas, verões, invernos, natais, aniversários, felicidade, tristezas,  dores, sofrimento da carne, tudo que um dia tem seu término.
Para o Henrique foi no Outono. De 1993.

Quando encontrado, já havia horas que não estava mais aqui.
Sem parentes, sem nenhum elo familiar que fosse conhecido.
Indigente.
Quadra Onze.

Mas o Tempo não cessa de caminhar, levando tudo para as sombras da Eternidade.
Contudo, há quem diga, ao caminhar pelas ruas desertas e tranquilas do bairro antigo, principalmente os retardatários, terem ouvido, muito baixo, muito distante, talvez lá no quarteirão seguinte, a entonação cadênciada, de uma voz ébria, cantando, entre a brisa e as folhas secas, e mesmo nas noites de chuva, " ... a deusa da minha rua ..."

Outono Vermelho

Os antigos chamavam aqueles dias de Outono Vermelho. Uma vez a cada l3, l5 anos, o Outono começava frio e com muita chuva. Nos poentes depois de chuvas intensas, o céu apresentava-se em tons de vermelho escuro, sombrio, por causa das nuvens pesadas defronte ao Sol, daí o nome. Era característico, diferente de outros crepúsculos, e ocorriam sempre ao final de março, início de abril. Outono Vermelho. Era o indicativo de que alguma coisa não ia bem. 
Algo sempre acontecia. Animais de criação encontrados mortos, galinhas, porcos,
ovelhas ... ovos chocos, leite talhado, vacas doentes. As chamas das
velas e dos lampiões não iluminavam direito - ficavam azuis, mortiças.
Gravou-se a marca. Outono Vermelho.
Alguns dos cidadãos mais velhos haviam passado, em suas vidas, por
quatro ou cinco outonos vermelhos. Lembravam-se dos tempos mais
antigos ainda, onde os pais e antes deles os ávos, descreviam esses
dias estranhos. Lembravam também que, naqueles dias, duas semanas no
máximo, sempre morriam mais pessoas. Era mais frio, era mais chuvoso,
talvez até por causa disso.
Foi quando passei a frequentar a Universidade de -, para dar
continuidade aos minhas pesquisas sobre folclore, que tomei
conhecimento dessa lenda que persistia na região desde há muito, entre
os mais antigos moradores.
O Sr. - e a Sra. - na casa de quem hospedei-me, pretendendo ficar por
algum tempo, enquanto durassem as aulas, foram quem informaram-me os
detalhes mais profundos dessa lenda que percorria as ruas da pequena
cidade.
Haviam prenúncios de que aquele  Outono poderia ser um Outono
Vermelho. O ultimo havia ocorrido há l6 anos, e naquela última
oportunidade além dos animais e das mortes naturais, começou-se a
aventar-se que haviam outras pessoas mortas, de morte não tanto
naturais.
Março passou entre chuvas e dias de sol, como são os meses de março.
Mas, por volta do dia 22 daquele mês, o tempo fechou sobremaneira, e
no dia 23 começou a chover, intensamente, e havia frio, muito frio,
atípico para aquele mes.
Os mais antigos falavam com preocupação no Outono Vermelho. As águas
caiam, ininterruptamente, de um céu cor de chumbo, e havia frio, muito
frio, nas ruas encharcadas, nos terrenos baixios inundados, no pequeno
rio, agora com águas revoltas, escuras, trazendo galhos e outros
destroços das terras mais altas, nas árvores seculares cobertas de
musgo, nas ruas desertas, mal iluminadas, que levavam do campus até o
centro da pequena cidade. Não se viam cães ou gatos nas ruas. O
comércio fechava cedo. Nenhum transeunte era visto a caminhar após as
seis horas da tarde.
Nos dias seguintes foi se acentuando esse estado de coisas, e os
antigos disseram - valha-nos!, pois e um Outono Vermelho!
Após cinco dias de chuvas ininterruptas, houve uma tarde mais clara,
aonde o céu vermelho de nuvens, ao crepúsculo, prenunciava mais chuva
durante a noite. Era mesmo um Outono Vermelho.
A boca pequena, começou-se a ouvir os relatos de animais mortos, de
ovos talhados, apesar de existirem muitas casas com lâmpadas
elétricas, muitas ainda usavam lampiões e velas, e o fenômeno da luz
azul repetia-se.
Durante aqueles dias, as pessoas evitavam falar-se ao encontrarem-se
nas ruas, em suas atividades rotineiras, ass vendas eram poucas, não
armaram a feira naquela primeira semana.
Saindo sempre muito cedo para dirigir-me à Biblioteca, encontrava
sempre as ruas vazias, nas primeiras horas da manhã e à tarde, quando
voltava da Universidade.
Passaram-se vários dias, quando correu a notícia de que mais uma
mulher, a primeira desse Outono Vermelho, havia sido encontrada morta,
em uma estrada deserta nos limites do campus. A polícia esteve por lá,
perguntou para uns e outros, no intuíto de esclarecer alguma coisa e
partiu. Ficaram o frio, a chuva e o mêdo.
Nova tarde fria de chuva, frio, água empoçada, luzes azuis, animais mortos.
No dia seguinte, procurei nos arquivos da biblioteca da Universidade,
jornais de épocas passadas que noticiassem ocorrências semelhantes a
que estavámos vivendo.
Nos jornais de há muito tempo, editado na cidade grande há vários
quilometros de distância desta em que eu encontrava-me, noticiava-se
que, em períodos regulares, naquela pequena cidade, cujas atividades
econômicas giravam em torno da agricultura e de atender aos alunos e
docentes da universidade ali perto, foram cometidos crimes horríveis e
não solucionados, nos quais foram mortas mulheres,  no intervalo de 76
anos.
Contudo, até então, apenas duas eram conhecidas na cidade e na
Universidade. As demais eram estranhas, foram enterradas no pequeno
cemitério local, ninguém jamais reclamou  corpo algum. Nenhum crime
até então havia sido solucionado. O mistério do Outono Vermelho
perspassa gerações. E ao tempo e ao esquecimento são levados os fatos
e as vítimas.
 Presenciei um, com uma morte estranha, um corpo mutilido de uma
mulher, que não era daquela comunidade e também não frequentava a
Universidade local.
Dias depois, doze no total, o dia amanheceu límpido, fresco, não
choveu mais, não formaram-se nuvens vermelhas no ocaso, não se falou
mais no Outono Vermelho.
AS pessoas voltaram a sair nas ruas, o comércio funcionava até o
início a noite, os animais domésticos pararam de morrer, os gatos e os
cães vadios voltaram para as ruas, ficavam perlambulando pela praça,
entre os desocupados de sempre.
Em junho daquele ano terminei os meus créditos. Fui embora, defendi a
minha tese sobre folclore, e comecei a lecionar em uma outra
Universidade bem distante daquela, na pequena cidade.
No outro dia, ao marcar um compromisso na agenda, percebi que estava
avançado já o  mes de março.
Ao olhar pela janela, verifiquei que o céu estava escuro, ameaçando chuva.
Lembrei-me do ocorrido há treze anos passados.
É possível que esteja próximo um Outono Vermelho.

A Casa Soturna

A casa permaneceu fechada, abandonada em seu vazio por quase meio século.
Construída na época aurea no início do século XX, com o passamento de seu proprietário original, e depois por uma sucessão de herdeiros, viu-se sem ninguém a ocupá-la ainda ao final dos anos de 1930.
E assim permaneceu, com a sua aparência soturna de coisas antigas, abandonadas, com os seus muros altos, a sua pesada grade de ferro ornamentando a frente junto ao passeio, os seus vitrais de muitas cores, o seu imenso quintal onde árvores e arbustos tomaram conta.

Nos primeiros tempos havia um advogado que administrava o espólio, o qual mantinha uma ou outra lâmpada acesa para afastar o ar de abandono que a envolvia.
A luz brilhava por entre pedras coloridas de uma luminária turca de fino lavor, instalada no alpendre. Alpendre esse guarnecido de uma pesada porta de ferro fundido, a qual abria-se em duas folhas para o interior, uma sala imensa, com o piso revestido de madeira.
Dali avistava-se o sopé da escada com balaustras ricamente lavradas em madeira de lei.
Mais além, nos fundos sombreados de outros comodos, via-se a cerâmica do piso, disposta em forma de lajotas pretas e brancas, no formato do xadrez.
Mas, um dia esse advogado também partiu, consolidando o completo abandono. Árvores enormes no quintal, anos e anos de folhas não recolhidas, o mato crescendo livre, os gatos vadios entrando em seu interior por um ou outro vidro partido, uma era imensa que cresceu sem controle tomava conta das paredes em dois ângulos da casa e parte do telhado do sobrado.
Até que em um determinado dia, por instâncias de um distante parente, começou um grupo de trabalho a providenciar reformas na casa.
No quintal, como costumava acontecer, havia uma construção apartada do resto da casa, a qual servia de dormitório para os empregados, e uma área de tanques de lavagem de roupas e um banheiro. Havia mais um cômodo escada acima.
Quando os operários começaram a remover o piso do quarto de dormir no térreo, em um ângulo da parede oposto a porta, encontraram, enterrada, uma pesada caixa de madeira com a tampa lavrada. Um trinco, guarnecido por pesado cadeado, quase que totalmente corroido pela ferrugem, e que cedeu a pressão de uma ferramenta, permitiu a abertura da tampa.
Houve um espanto, uma surpresa geral com o conteúdo da caixa.
Havia um esqueleto, um pequeno esqueleto, provavelmente de uma criança, cujas vestimentas emboloradas e descoloridas pelo tempo levaram a crer tratar-se de uma menina.
A vinda das autoridades, da imprensa, dos curiosos em geral, as conversas generalizadas sobre o fato, as investigações posteriores, pouco puderam esclarecer.
A aparência dos restos denotavam denotava que os mesmos estavam ali por várias décadas, o que era confirmado pelos fragmentos das roupas e do calçado que calçava os pés. Restava ainda uma fivela presa ao mesmo, em uma moda utilizada nos anos de 1920.
O mistério de aquilo tudo, no mínimo sessenta anos depois da ocorrência do fato, levou as autoridades investigarem antigos arquivos de pessoas desaparecidas, mas nada foi conclusivo.
Que habitava a casa, naqueles distantes anos, era a viúva do construtor, e um filho, um intectual e poeta, morto ainda nos anos de 1930.
Ter uma resposta para esse antigo drama era algo que escapava da compreensão e da possibilidade de um esclarecimento.
A caixa de madeira foi incinerada, lá mesmo no quintal, e os restos, após passarem de um setor de perícia para outro, foi finalmente sepultado em uma das gavetas gerais do grande cemitério da cidade.
O corpo permaneceu por lá durante alguns anos, mas como não houve renovação para a permanência no local, foi mais uma vez exumado e perdeu-se entre tantos outros no ossário.
A casa recebeu as reformas naqueles idos dos anos de 1980, foi utilizada por algum tempo como escritório e depois voltou ao abandono das coisas antigas, mortas.
Encontra-se hoje bem descaractizada em sua aparência original, e ainda abandonada.
Soube que, de tempos em tempos, um herdeiro quita os impostos.


Um dia, ao examinar um acervo doado para uma biblioteca da cidade, deparei-me com uma vasta coleção de livros, coleção essa a qual abrangia livros de romance, de poesia, de Filosofia, de ciências naturais, de direito, de medicina, de curiosidades.
A biblioteca certamente de um intelectual, de um pesquisador.
Nenhum dos volumes era posterior aos anos de 1920.
Alguns deles de indubitável valor, devendo pois serem incorporados ao acervo da biblioteca pública.
Entre os inúmeros documentos, havia um pequeno livro encapado em couro, cujo material encontrava-se bem danificado pelo tempo e pela umidade.
Ao abri-lo, um surpresa!
O livro era todo manuscrito.
As letras lá gravadas há oitenta anos ou mais compunham poesias e prosa que a leitura lembrava o estilo de Villiers de L'isle-Adam. Muitas páginas estavam borradas e danificadas pelo tempo e pela má conservação.
Mas daquilo que era possível apurar, haviam relatos absurdamente fantásticos nos quais havia crime, tortura, sofrimento mental, lirismo. Furtei-me a comunicar naquele momento o encontro do manuscrito. O meu desejo de conhecer melhor aquilo que lá estava relatado fez-me por um momento abandonar escrupulos.
Naquela noite, em minha escrivaninha, sob a luz de uma luminária bem focada, passei a tomar conhecimento dos escritos de uma pessoa, um homem, de inegável talento, de uma mente ági, inteligente, sofredora e terrível.
As linhas foram revelando uma mente superior mas eivada de uma sordidez medieval.
Um homem inteligente, limitado pelas conveções e valores de seu tempo, desejando conhecer mais e mais, contudo limitado por vezes por limites materiais e por falta de iniciativa, daquela iniciativa que considera os riscos.
Cansado, envolvido pelo tédio de uma época histórica posterior a uma guerra, porque as guerras de uma forma ou de outra provocam revisões nos valores, desejava o homem ter, por entre a vulgaridade reinante, o desejo de eter para si um segredo, um segredo inconfessável, um segredo no qual encerrasse não amor ou ódio, nem ao menos vingança, mas um segredo que encerrasse remorso.
E para obter esse remorso, resolveu imolar um inocente.
Escolher uma criatura totalmente totalmente fora de seu mundo, de seus valores, da sociedade decrépita que o envolvia.
Resolveu matar uma criança!
Essa ideia amadureceu em sua mente durante muito tempo.
Avaliou os riscos, a possibilidade de ser descoberto, de ser apanhado.
Gozava de um espaço decadente, mas muito amplo.
Retirava-se de casa e voltava sem despertar a atenção de parentes ou de serviçais.
No seu recanto havia um portão que abria-se para uma rua, além da entrada principal.
Tudo isso estava minuciosamente relatado, como uma confissão.

Em um determinado final de dia, escuro e chuvoso, quando a sua mente fervilhava entre o tédio, cada vez mais intenso, o qual algumas vezes havia feito o mesmo a utilizar de uma droga comum de sua época, o ópio, ao aproximar-se de casa, viu caminhando pela rua molhada, ainda sem pavimentação, uma criança, uma menina, loira, miuda.
Algo em sua mente cedeu.
Aproximou-se da criança, oculto que estavam na rua deserta, entre as sombras das grandes árvores que por ali existiam, agarrou-a rapidamente, sentindo o seu corpo magro, leve, evitou que gritasse em vista da agressão súbita, imobilizou-a, levou-a para o quarto nos fundos da casa, cloroformizou-a e depois a estrangulou. Não a violou. Após o ato, colocou o corpo em uma pesada caixa de madeira na qual guardava pertences, abriu, no ângulo de uma das paredes do quarto, sob um pesado armário que arrastou, um buraco no piso onde depositou a caixa.
Reconstuiu o piso, recolocou o armário no lugar.
Regozijou-se de seu segredo.
Durante os dias seguintes procurou por notícias sobre o fato de uma menina desaparecida.
Passaram-se os dias, os meses, e ninguém tocou no assunto de uma criança desaparecida.
Naquela época de pouca ou nenhuma iluminação pública, as noites eram mais escuras.
Vagou durante muito tempo pelas ruas escuras, pelas noites gélidas, nas noites cálidas de verão esperando ouvir algo sobre o feito, mesmo que fosse um murmúrio trazido pelo vento.
Nada!
Jamais ouviu coisa alguma.
Era possível  perceber o seu desalento, porque, sem notícias sobre o feito, como haver o remorso de haver feito alguém sofrer uma perda?
Era como se nada houvesse acontecido!
Desespero!
Uma outra ação?
Não, de forma alguma, pois ele não era um criminoso vulgar, um malfeitor da pior espécie!
Mais algum tempo, e a resistência para não abrir a cova e verificar se havia mesmo feito aquilo que agora a sua mente duvidava haver realizado.
Havia um segredo, mas não havia o menor remorso!
Tempos das águas, tempo do frio, tempo do calor.
E um dia a constatação de que a tuberculose, a doença dos poetas o havia acometido.
Sentença de morte anunciada!
Aquelas palavras, pelo que foi possível perceber, foram gravadas pouco antes do desenlace, quando nenhum outro cuidado humano poderia salvá-lo.

O livro manuscrito, bem como o nome do seu autor, e de sua vítima inocente repousam tranquilamente no fundo do rio que corta a cidade.
Em paz descansam!

O Sapateiro Romeo

O pé de ferro. A mesa baixa com as divisões para os diversos tipos de pregos e tachinhas.
O pequeno barracão coberto de zinco, com um dos ângulos apoiado no velho cajueiro.
Na iluminação, um grande lampião a querosene.
Para as horas escuras do início do dia.
Para as horas escuras ao cair da noite.
Assim trabalhava Romeo, o sapateiro.
No seu avental de couro, as marcas das décadas de trabalho duro, de tintas, de cortes, de manchas.

Em um tempo no qual o sapato era luxo, reformá-los era forçoso.
Assim passaram os anos e as gerações.
No bairro antigo, nos quarteirões do entorno, Romeo fez com que milhares de calçados voltassem a ser utéis.
Tempos difíceis. Mantimentos comprados por quilo no empório da esquina.
Verdadeiras vitrines do Passado.
Mas, quando a sola furava e o salto desgastava, o Sapateiro Romeo dava uma solução.
Reparava. Com carinho.
Com a dedicação daqueles que sabiam o quanto era difícil ter.
Então a necessidade era manter.
Por anos e anos, sob aquele pequeno barracão o martelo, o pé de ferro, as lâminas afiadas para a profissão serviram a todos.
Um trabalho mágico de reconstituir um objeto usado.
Na luz tênue ao final do dia, o ritmo do martelo pregados em um sola, dava o tom do Angelus que tocava na rádio local.
Diziam os antigos, que naquele horário, os anjos estavam voltando para o regalo de Deus, aonde passavam a noite, cansados de tanta labuta com a meninada travessa.
Nos dias bem marcados de chuva, nos dias quentes de verão, de pipas no céu, nos dias frios, curtos, onde o lampião era acionado mais cedo, emprestando ao ar, juntamente com as colas e tintas, um odor único de trabalho artesanal em andamento.
De quando em quando, um sapato de algum membro da família era levado para reparos.
Juntava-se a muitos outros que lá estavam.
Um tempo em que os quintais eram amplos, que as ruas mal iluminadas recebiam o auxílio do lampião do Sapateiro Romeo, muitas vezes até horas adiantadas na noite.
Por vezes, entre os folguedos da distante infância, era ouvido o toc, toc, toc, do martelo acertando um calçado, apoiado no pé de ferro.
Coisas insignificantes as quais, depois de muitos anos, sendo colocadas perante a Eternidade do Ontem, adquirem um valor incrível, pois esse trabalho, como outros que eram desenvolvidos, de forma artesanal, nos fundos dos quintais, nas casas humildes, nas esquinas, emprestavam uma confortante sensação de realidade.
Tudo estava em seu lugar. O sapateiro, o leiteiro, o empório da esquina, a escola, a farmácia, a padaria,  a Igreja, o cemitério mais além.
Havia um espaço delimitado, seguro, onde todos podiam ir e vir, tanto durante o dia, como na mais fechada noite sem luar, com temor somente em relação aos fantasmas, fantasmas passados os quais nem muito perturbavam.
Mas os anos correm, e gastam as solas dos sapatos, os quais, de vez em quando, passavam por uma reforma geral feita pelo Sapateiro Romeo.
Tudo se acaba. Tudo se esvai.
Ao virar uma esquina, aonde o cenário muda, tal como provém a Ciência explicar as curvas da luz, ao encontrar corpos estelares em seu caminho.
Tudo se esvai.
Na velocida fabulosa da luz, que vagando pelos confins do Infinito, quando volta para casa, encontra tudo mudado.
Pessoas se foram. E também os valores que elas representavam.
Instituições esfacelam-se dando lugar para outros valores.
Uma casa foi demolida. Outra construída em seu lugar.
Árvores são plantadas. Outras morrem.
E, nesses tempos no qual os lampiões a querosene foram substítuidos por lâmpadas eletrônicas, tornando as noites mais claras e livres dos fantasmas, que agora vagam nos dias
do passado, a cadência das brincadeiras, as correrias noturnas, o som, toc, toc, do martelo do sapateiro estão em outro lugar.
Mas, sempre sobra algo.
Há um tudo um miasma que impregna os lugares, procurando mostrar que ainda há um resquício dessa egregóra pretérita.
Para aqueles que ainda vagam pelas ruas desertas, nas horas calmas, já avançando para a madrugada, quando a Lua Nova está fixa, baça, no horizonte de Oeste, é possível perceber as atividades dos moleques, com aquela sensação tênue que nos traz uma fotografia em sépia, o som do martelo sobre a sola no pé de ferro, na luz tênue do lampião, adensando as sombras no quintal antigo.

O Monstro do Assobio

Sons na noite.
Não os provocados pelo gatos, essas criaturas que tem um pé em cada mundo.
Não os provocados pelas folhas secas levadas pela brisa noturna.
Não os provocados pelo madeiramento da casa, acomodando-se.
Nem tampouco a água nos canos. Ou a descarga.
Ou ainda alguma coisa que deslocou-se no porão das casas mais antigas. Não.
É alguma coisa diferente.

As crianças sabem.
Alguns adultos também.
São as lendas dos bichos papões que povoam o imaginário do homem desde tempos imemoriais.
Lembranças atávicas, inconsciente coletivo, como diz Jung.
A associação desses sons da noite, inexplicáveis povoam os sonhos das crianças e dos adultos mais sensíveis.
Mas, o que provoca esses sons?
Sabidamente é a atividade de alguma coisa que se movimenta pela noite. No escuro. Nas noites de luar.
Nas noites que não tem luar.
Adquirem esses sons uma umidade pegajosa quando chove.
Adquirem uma plasticidade nervosa nas noites frias e secas.
As criança, recolhidas na noite imensa que cobre todo o mundo, sentem.
No silêncio tenso das horas mortas, algo anda pelas ruas, pelos jardins, pelos quintais. Algo chega até a veneziana, algo toca nos vidros, movimentado-os tenuamente nos caixilhos.
Os caes ficam quietos. Os gatos, esses de há muito foram para outros lugares.
No decorrer do Tempo, inumeras criaturas de sonhos passaram a povoar o imaginário popular.
Algumas são muito antigas, como o Versipélio de Roma.
Outros atravessam a Idade Média, como as Bruxas.
Outros ainda nascem no folclore como a Maria Bambá, e outros ainda aparecem nos tempos modernos, nas cidades, como as Lendas Urbanas.
Entre esses últimos, nascido nas sombras das ruas desertas e mal iluminadas nos bairros antigos, entre terrenos baldios e mansardas abandonadas, surgiu esse outro personagem de sonhos.
O Mostro do Assobio.
No silêncio da noite, por vezes ouve-se um assovio fino, melódico, variando as oitvas,  cujo som por vezes está muito perto, por vezes parece soprar de distâncias infinitas, que transpoem o Tempo, em espaço estelares.
Não é possível, nunca, dizer exatamente de onde provem esse assobio, ocorrendo sempre em horas tardias.

O dia findou-se mais cedo.
Chovia. Há vários dias.
Quando isso ocorre, fica no ar aquele presságio de frio úmido, e a umidade escorre pelos muros antigos, acentua-se o silêncio, uma névoa fina cobre as ruas, as casas, os espaços, deixando tudo com uma aparência de sépia.
Entorno das lâmpadas da iluminação pública forma-se um halo o que parece amortecer ainda mais a intensidade da luz.

As meninas C_ e L_ encontravam-se no alpendre da casa antiga.
Essa casa havia sido construida acima do nível da rua secular.
A visão do ponto onde estavam era muito boa em relação a via, vários metros abaixo.
A casa possuia um bosque ao fundo, e todas as demais casas do entorno eram envolvidas pela vegetação luxuriante, a qual aumentava muito a umidade, o frio e tornava mais tênue os sons da noite.
A casa estava quieta em seus movimentos domésticos.
Luzes apagadas, e toda a atividade naquele momento consistia na contemplação da rua molhada, refletindo as luzes fracas da rua, e de uma ou outra casa na vizinhança.
Em um dado instante, quando a bruma evolava baixa, lenta, pegajosa, o som agudo de um assobio varou a noite de cores esmaecidas.
As jovens mais ficaram tensas, amedrontadas, pois de algum tempo circulava a existência da lenda urbana do Monstro do Assobio.
Essa visagem acompanhou-as pela infância.
Como para alguns adultos e  crianças, há um momento na vida, um instante sublime em que as figuras de sonho assumem forma e aparência física.

E o que viram do outro lado da rua, entre as sombras e bruma, foi uma forma, tal como um cone cinza, opaco, de dois metros de altura, cuja base não tocava o chão.
Sobre um cone, à guiza de cabeça, havia uma esfera, lisa, da mesma cor do cone.
Estendia-se dessa cabeça algo como um nariz, no formato que lembrou, grosseiramente, uma clarinete, o qual era acionado em suas notas, por dedos longos e finos como gravetos que partiam  de braços, também muito longos e finos presos ao cone cinza.
Essa visagem durou alguns segundos e depois amalgamou-se nas sombras intensas projetadas pelas árvores.
O som repetiu-se, agudo, e desfez-se como soi acontecer nas imagens oníricas.

Passado mais alguns instantes, as meninas levantaram-se e entraram em casa.
Tudo parece menos grave sob a luz elétrica.

 Mas, em suas almas ficou, perene, a impressão de haverem assistido a uma manifestação de uma lenda urbana, que percorre as ruas vazias e soturnas.  Uma manifestação do sobrenatural.

Faixa do Cidadão, Canal 5

Atento, atento, Estação Etrúria, PX-...
O sinal viaja pelo espaço, em busca de uma antena receptora.

Informa a Ciência que as ondas de rádio geradas pela Natureza ou pela tecnologia do homem, propagam-se pelo Espaço.
Essa é a base científica que fundamenta os rádiotelescópios.
Antenas gigantescas levam pelo éter sinais de rádio que partem de possantes transmissores em busca das regiões interditas do cosmo, procurando sensibilizar outras culturas que possam existir para além do nosso sistema solar.


Diz também a Ciência que, essas ondas podem refletir em distâncias einstenianas, e, devido as particularidades descritas na Lei da Relatividade, voltarem para os pontos de onde foram originadas.
Após um longo espaço de tempo aqui na Terra.
Distâncias impensáveis. Medidas a ano-luzes.
Uma relatividade criada pela grande velocidade das ondas hertzianas.
Velocidade da luz.
Velocidade que curva o espaço, criando um atalho por entre as galáxias.
Tudo isso passa a acontecer quando se pressiona o botão do microfone.
Espaços intergaláticos.
Imensidões inimagináveis.
Ondas que se propagam na velocidade da Luz.

Atento! Atento! Estação Etrúria, PX-...

Os sinais de rádio dentro da noite, transformando-se em som no alto falante.
Uma rotina.
Uma rotina que desencadeia fenômenos eletromagnéticos que podem prosperar para muito além do mundo conhecido.
Que podem prosperar para muito além de todas as vidas, em um Universo longíquo, atemporal, longe de todas as eras.
A humanidade passou a propagar ondas de rádio pelo atmosfera exterior e pelo Universo de incontáveis estrelas há pouco mais de um século.

A Estação Etrúria estava todos os dias no ar.

Avançou por toda a década de 1980 e parte da década de 1990.
Diariamente.
Junto com milhares de outras fontes emissoras, propagava os sinais pelos cantos do mundo, e, segundo a Física, para muito além desse mundo e de outros, insondáveis.

A utilização de rádio nas comunicações locais e para outros pontos distante no planeta era comum.
Com uma boa propagação, devido a fenômenos magnéticos que ocorrem na Ionosfera, os sinais iam para o outro lado do planeta.
Quando as ondas não eram refratadas, encontravam o caminho do Infinito.

O nascimento do meu filho E_, foi comunicado através da fonia no Canal 5, o combinado era o Canal 5.
Era uma noite de muita chuva em Outubro de 198_.
Muitas outras notícias vieram pelo Canal 5.

Vários anos se passaram.
Um dia a Estação Etrúria saiu do ar para nunca mais.
Daquelas situações sem retorno, que ficam aos cuidados da Eternidade.
Vários outros anos correram nos calendários da Terra.

Em uma noite, manuseando um velho equipamento transcepetor de rádio, vim a conectá-lo na fonte de energia e uma antena precária, instalada no beiral da casa, e sintonizei o aparelho no Canal 5.
As horas já se faziam tardias, o silêncio na casa, na rua, naquele pedaço de mundo era intenso.
Luzes indicativas acenderam no pequeno painel do rádio, e o ruído característico de estática encheu a calma silenciosa do momento.
Continuei com outros afazeres, organizando alguns livros, ao som constante do rádio, com variações na intensidade da estática.

Em um dado momento, interrompendo o crepitar constante das ondas eletromagnéticas que viajavam pelo espaço em busca da minha antena, o som que predominou, uma voz cava, vindo de incontáveis descortinares de anos e distâncias cósmicas,  contudo intensa e viva, sobrepujou os demais ruídos e exclamou:
Atento! Atento! Estação Etrúria!

O Túmulo da Família

Sob a sombra da murta, a leitura de Poe na tarde fria, fez as horas passarem céleres.
O crepúsculo anunciou-se nas sombras longas, na pernumbra entre os túmulos mais afastados.
Hora mágica de cores sublimes no céu, nas copas das árvores e nas imagens de santos e cruzeiros, nas alamedas estreitas, de muitas passagens, na cidade surreal.
O cemitério.
Em suas alamedas tranquilas, os bancos cobertos de folhas é um convite a reflexão e a leitura.
Mas, ao crepúsculo, a Lua Nova a oeste tornou-se mais notável, mais brilhante.

Hora de partir daquele espaço solene, dedicado ao Tempo, dedicado a Eternidade.
Uma brisa fria agitou as folhas secas e fez com eu apertasse a gola do casaco, agora muito leve para o frio do início da noite.
Passos rápidos. Para qual lado?
Agora, já com as sombras definitivamente instaladas, o brilho amarelado de uma ou outra vela votiva entre os túmulos tornava-se mais intenso.
Momento de hesitação!
Contudo, veja, a rua movimentada está aí ao lado, vejo os postes de iluminação.
Nesse momento surge à frente sinais de pegadas, brilhando na semi escuridão.
Poderia ser os rastros de algum operário que havia pisado na cal.
Seguiam um rumo, o rumo que passei a seguir.
Mais intensa a escuridão, mais silenciosos os espaços entorno.
As marcas no chão tornaram-se mais brilhantes.
Uma brincadeira, uma aparição de fogos fátuos?
Naquela época, nas sepulturas gerais, diretamente na terra, por vezes foram esses fenômenos observados pelo vigia, o velho Geraldo.
Onde está o vigia? Provavelmente trancando o portão do lado oposto, aquele que se abre para a avenida.
Logo ele passará por aqui, penso, com a sua luminária a querosene.
Acompanho os passos.
Brilhantes, de um verde fosco.
Até chegar abruptamente ao local aonde havia estado horas atrás.
O túmulo da família.
Agora, nesse momento de noite feita, fria, aperto mais a gola do casaco, aperto mais o volume sob o braço.
Lá ao longe vislumbro uma luz oscilante.
É o vigia vindo pela alameda principal para verificar os cadeados.
Quando ele estiver mais próximo irei até ele, para poder sair por um dos portões.
A luz desaparece por entre os troncos robustos das árvores centenárias, por entre as capelas, por entre os túmulos antigos, cobertos de folhagens.
Nesse momento, do túmulo a minha frente, passa também a emanar um luz verde, opaca, oscilante como os sinais dos pirilampos.
Essa luz começa a emanar de vários outros túmulos em volta, mas naquele em que estão os meus ancestrais, ela é mais intensa.
Uma viagem de sonho ao passado.
É para isso que naquele momento sou induzido.
Em vijagens rápidas, como são as imagens nos sonhos, percorro em um instante toda a infância, entre aqueles que hoje fazem parte das lembranças vivas em minha mente, e sepultados estão no solo consagrado.
Fogueiras de São João, luzes de Natal, o cheiro de pinheiros naturais, enfeitados de lâmpadas e guirlandas, aniversários, pipas no céu, brincadeiras infantis antes das horas mortas,  doces deliciosos, comidas apetitosas, sons da cozinha, dos quintais, imensos, que levavam a outros quintais, e até a rua, no outro quarteirão, entre o cheiro de doce de abóbora, doce de banana, de sorvete de groselha, de pipoca estourada na hora, de cera para o assoalho dissolvida na gasolina, das frutas, goiabas, laranjas, uva, das cortinas do quarto agitadas pela brisa, da vela votiva acesa a um canto da comoda,  do chamado da mãe para o banho, após um dia de folguedos mágicos, tragados pelo vórtice de um tempo passado.
Sem retorno.
Os rostos brilhantes, estampados de alegria e ingenuidade.
Os companheiros de folguedos, os cachorros, os animais de criação, as hortas perfumadas pelas essencias de seus vegetais puros.
O silêncio. Sem retorno.
O canto do galo nas madrugadas do ano.
O som de fantasmas belicosos disputando as atenções da Lua e da Noite.
Silêncio.
Em um instante, somente o silêncio. E a escuridão.
As luzes esmaeceram até apagarem.
Um ou outro reflexo ao longe.
Ficou a noite.
E mais perto, dentro dessa noite atemporal, a pernumbra quebrada pela lamparina a querosene do Sr. Geraldo, o vigia.
A um aceno meu, ele parou e esperou-me.

 - Está ainda por aqui, menino!
Já é noite.
Uma tarde dessas você não irá encontrar-me para abrir o portão, e passará a noite aqui, entre os pirilampos, os fantasmas e as lembranças!

O Espetáculo Continua

Escolha uma carta!
Foi assim que conheci Roberto D_.
Em uma conversa amena com um amigo comum, entre os livros de uma vetusta biblioteca.
Roberto era imigrante. Da Tchecoslovákia.
Conheceu o campo de concentração de Auschwitz.
Durante a sua juventude, nos anos anteriores a Segunda Guerra, e nos anos posteriores a mesma, aprendeu, com os ciganos de sua terra, as arte circense da mágica, e também a tocar violino e violão, aptidão que garantiu a sua sobrevivência, quando, nos anos de 1950 imigrou para Ribeirão Preto. Durante os anos seguintes, iniciados que fomos em uma mesma ordem de conhecimento, tive oportunidade de conhecer muitos fatos relativos a guerra, a magia, e aos fatos insólitos, aqueles tratados como Realismo Fantástico.

Os membros reuniam-se para ouvir e aprender.
Através do amigo Roberto D_ e do amigo José A_ as nossas viagens na imaginação e no conhecimento extraído de textos antigos, a respeito da Gnose eram incomparáveis.
O amigo Roberto_ conhecia, além do seu idioma natal, o alemão, o inglês, o francês, o italiano.
Davamos um jeito com o espanhol.
As suas traduções literais de complexos textos na língua alemã adiantavam uma enorme quantidade de documentos, os quais, de outra forma, teríamos muita dificuldade em conhecer.
Por inúmeras vezes avançaram as horas, pela tarde, até a noite, enquanto o conhecimento do nosso amigo fluia, entre as prateleiras de livros, uma sala na antiga biblioteca.
A sua sombra gestilante, projetada nas paredes e no teto, através de luminária que José A_ mantinha sobre a escrivaninha, era, por si só, em dados momentos, os movimentos do
prestigitador que morava na alma de Roberto.
Ao paladar de um café coado na hora, ao som de Grieg era possível visualizar, por entre o vapor, a profundidade do conhecimento que fluia, ao som de palavras pronunciadas com um forte sotaque.
Naqueles momentos, o Tempo poderia estar sendo medido em qualquer outro ponto do Espaço.
A luz baça da Lua que coava através dos vitrais em algumas noites, e a chuva intensa que batia contra as vidraças em outras, fazia o coro surreal com a música, com as explanções das longas conversas sobre as teorias do início do mundo.
Saíamos do lugar, noite alta, pisando suave nos tapetes que revestiam o piso.
Na rua, defronte a praça, dava a imprensão de estar-se voltando de uma viagem no Tempo, a um Passado distante, e as luzes nos postes públicos possuiam uma realidade física que nos trazia de volta ao Século XX.
Mas, na materialidade de nossa existência, sabemos que tudo caminha para um fim.
Um determinado dia, o nosso amigo comum José A_ deixou de existir.
As reuniões terminaram naquele local.
De vez em quando os membros do grupo reuniam-se.
Chegamos a nos reunir esporadicamente na biblioteca.
Mas os tempos eram outros.
Uma década produz muitas mudanças nas vidas humanas.
Um a um fomos adormecendo. Alguns membros da ordem para sempre.

E, em um dia especialmente frio e chuvoso, quando, através das vidraças baças, eu observava distraído o trânsito, esperando que uma estiagem da chuva permitisse ir-me embora, carregando um livro sob o braço, um funcionário acendeu as lâmpadas do saguão.
Aquelas luzes acentuaram mais a penumbra da sala aonde encontrava-me.
Entre os riscos fugidios de luz dos relâmpagos e o som ribombante de um trovão escutei a frase: - Escolha uma carta!

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