A cheia da goiaba, com as chuvas marcando o início do Outono, caiam com estrépito sobre os telhados antigos e quintais antigos, sobre os pomares, naquelas ruas silenciosas de paralelepípedos do bairro, muitas ainda sem calçamento, enchendo o rio, criando poças, abreviando o dia, fazendo com que as lâmpadas elétricas e os lampiões fossem acesos, e revigorando as plantas, entre elas as goiabeiras as quais nos dias seguintes tornavam-se pródigas em frutos maduros.
Em um desses dias no passado distante, durante uma conversa amena ao final da tarde com o meu velho amigo G_, a chuva começou a cair, intensa.
O dia escureceu com celeridade, um vento frio soprou de longe, vindo lá dos lados do Sul, e o barulho da chuva torrencial abafou todos os demais ruídos da fábrica de refrigerantes, do maquinário resfolegante movido com o vapor da caldeira.
O resfriamento brusco do ar fez com que a fumaça da chaminé exalasse fumaça branca.
Nada podíamos fazer no momento a não ser esperar a passagem do temporal.
Naquele ano a chuva foi especialmente intensa.
A tempestade havia começado no meio da tarde, e ao anoitecer mantinha a mesma intensidade.
Lá nos fundos, o rio, não mais contido pelas margens, já dominava com suas águas os alicerces do primeiros prédios e chegava próximo as fundações da grande fornalha e sua caldeira.
Tomamos mais uma xícara de café.
Lá na fábrica alguns funcionários abrigavam-se sob o telhado da varanda esperando uma chance de poderem ir embora.
Nesse momento, nos entremeios de um trovão e outro, o meu amigo contou uma história de priscas eras sobre a touceira de flores de São José.
Antes da construção do barracão rosa, como era chamado um dos prédios da fábrica havia um grande canteiro de flores de São José.
Uma parte dessas plantas foram removidas para dar lugar as fundações do prédio, mas as plantas remanescentes continuaram a vicejar, e nos anos seguintes retornaram ao esplendor original.
Dizia o meu amigo que nas noites do dia de São José, por um fenômeno não compreendido, essas flores exalavam na noite escura uma luminescência encantadora e sinistra.
A primeira vez foi notada pelo guarda noturno que reportou o fato ao G_ no dia seguinte.
Como era próprio do meu amigo uma memória especialmente ativa, gravou ele o fato e, no ano seguinte buscou observar o acontecido.
Nada aconteceu. Nos anos seguintes também não.
O fenômeno da noite de São José resvalou para aquele espaço reservado aos tidos e acontecidos das lendas e dos fatos insólitos.
Passaram os anos até a tarde em questão onde esperávamos que a chuva amenizasse para que todos pudessem ir embora após a faina diária.
A chuva finalmente amainou. Os funcionários da fábrica despediram-se.
Entre a chuva fina e o chão molhado acendemos as luzes dos barracões para a noite.
O rio produzia um som intenso, grave, com suas águas a descerem com velocidade para os campos ao longe.
Um telefonema entreteve G_ por mais algum tempo.
Noite. Ao longe o ribombar de trovões no horizonte.
Por aqui, o barulho do rio, o gotejar da água dos velhos telhados, a luz da fornalha que amainava.
Preparando o veículo para irmos embora, notei um brilho tênue espalhado sobre as plantas e o chão encharcado do pátio lá no limite do terreno, próximo ao muro de taipa. Não haviam luzes elétricas naquele barracão de sucatas.
Ato contínuo chamei pelo meu amigo.
Com alguma apreensão caminhamos até o lugar do evento. Não era possível ser fogo pois a chuva intensa que caíra havia molhado todo o mato e a lenha da caldeira, impedindo qualquer tipo de combustão.
Rente a parede do barracão rosa, e por uma grande extensão do terreno onde vicejavam as flores de São José, havia uma luz que oscilava entre o azul e o lilás, fraca, porém suficiente para projetar sombras.
O fato constatado há muitos anos atrás repetia-se aos nossos olhos de uma maneira mágica, intensa, estranha.
Olhamos para aquela luz que se espraiava agora por todo o terreno dos fundos e escoava, como se fosse um plasma em direção ao rio, juntando-se a água que corria e gradativamente foi diminuindo de intensidade.
Em alguns minutos o lugar estava novamente às escuras, e as poças refletiam apenas as luzes distantes das instalações da fábrica de refrigerantes.
Em um desses dias no passado distante, durante uma conversa amena ao final da tarde com o meu velho amigo G_, a chuva começou a cair, intensa.
O dia escureceu com celeridade, um vento frio soprou de longe, vindo lá dos lados do Sul, e o barulho da chuva torrencial abafou todos os demais ruídos da fábrica de refrigerantes, do maquinário resfolegante movido com o vapor da caldeira.
O resfriamento brusco do ar fez com que a fumaça da chaminé exalasse fumaça branca.
Nada podíamos fazer no momento a não ser esperar a passagem do temporal.
Naquele ano a chuva foi especialmente intensa.
A tempestade havia começado no meio da tarde, e ao anoitecer mantinha a mesma intensidade.
Lá nos fundos, o rio, não mais contido pelas margens, já dominava com suas águas os alicerces do primeiros prédios e chegava próximo as fundações da grande fornalha e sua caldeira.
Tomamos mais uma xícara de café.
Lá na fábrica alguns funcionários abrigavam-se sob o telhado da varanda esperando uma chance de poderem ir embora.
Nesse momento, nos entremeios de um trovão e outro, o meu amigo contou uma história de priscas eras sobre a touceira de flores de São José.
Antes da construção do barracão rosa, como era chamado um dos prédios da fábrica havia um grande canteiro de flores de São José.
Uma parte dessas plantas foram removidas para dar lugar as fundações do prédio, mas as plantas remanescentes continuaram a vicejar, e nos anos seguintes retornaram ao esplendor original.
Dizia o meu amigo que nas noites do dia de São José, por um fenômeno não compreendido, essas flores exalavam na noite escura uma luminescência encantadora e sinistra.
A primeira vez foi notada pelo guarda noturno que reportou o fato ao G_ no dia seguinte.
Como era próprio do meu amigo uma memória especialmente ativa, gravou ele o fato e, no ano seguinte buscou observar o acontecido.
Nada aconteceu. Nos anos seguintes também não.
O fenômeno da noite de São José resvalou para aquele espaço reservado aos tidos e acontecidos das lendas e dos fatos insólitos.
Passaram os anos até a tarde em questão onde esperávamos que a chuva amenizasse para que todos pudessem ir embora após a faina diária.
A chuva finalmente amainou. Os funcionários da fábrica despediram-se.
Entre a chuva fina e o chão molhado acendemos as luzes dos barracões para a noite.
O rio produzia um som intenso, grave, com suas águas a descerem com velocidade para os campos ao longe.
Um telefonema entreteve G_ por mais algum tempo.
Noite. Ao longe o ribombar de trovões no horizonte.
Por aqui, o barulho do rio, o gotejar da água dos velhos telhados, a luz da fornalha que amainava.
Preparando o veículo para irmos embora, notei um brilho tênue espalhado sobre as plantas e o chão encharcado do pátio lá no limite do terreno, próximo ao muro de taipa. Não haviam luzes elétricas naquele barracão de sucatas.
Ato contínuo chamei pelo meu amigo.
Com alguma apreensão caminhamos até o lugar do evento. Não era possível ser fogo pois a chuva intensa que caíra havia molhado todo o mato e a lenha da caldeira, impedindo qualquer tipo de combustão.
Rente a parede do barracão rosa, e por uma grande extensão do terreno onde vicejavam as flores de São José, havia uma luz que oscilava entre o azul e o lilás, fraca, porém suficiente para projetar sombras.
O fato constatado há muitos anos atrás repetia-se aos nossos olhos de uma maneira mágica, intensa, estranha.
Olhamos para aquela luz que se espraiava agora por todo o terreno dos fundos e escoava, como se fosse um plasma em direção ao rio, juntando-se a água que corria e gradativamente foi diminuindo de intensidade.
Em alguns minutos o lugar estava novamente às escuras, e as poças refletiam apenas as luzes distantes das instalações da fábrica de refrigerantes.


