Ficava na Rua João Ramalho.
A horta do Seu Carmo.
E lá ficou por três décadas. Ou mais.
Um terreno imenso, no qual desaguavam os fundos das casas do quarteirão.
Muros de taipa. Muros de bambu. Muros de tijolos cosidos ao sol. Muros de pranchas de madeira.
Naqueles épocas pretéritas podia tudo.
Qualquer material servia.
As chuvas na época certa, os ventos, o frio e o verão.
E o Tempo escorria lentamente entre os canteiros alinhados, de terra macia.
Filerias de cenouras, de rabanetes, de chicorias, de alfaces, de almeirões.
Tinha cheiro verde, salsinha.
Tinham tomates de várias qualidades.
À disposição do freguês.
Sob
os carrmanchões de chuchus, entre as fieiras de buchas, flores
coloridas das dálias, lírios de finados, da neve fina das flores das
murtas depositadas sobre o chão.
Flores de São José, até as
sistemáticas amarilis, e os canteiros cercados por tábuas para os
hortelãs proporcionavam um perfume que pairava no ar, etéreo, remetendo
para outras épocas, ainda mais antigas.
E havia ainda vários touceirões de erva doce e manjericão.
Nos grotões mais afastados do terreno, árvores frutíferas.
Goiabas,
jaboticabas, mangas, pessêgos, cada um em sua período de floração,
entre as laranjeiras, e mamoeiros que transformavam aquele espaço em
algo afastado do mundo.
No final das tardes haviam muitos fregueses em busca de um maço de alguma verdura, a mais abundante naquele dia.
O
chão de terra batida era percorrido por entre os canteiros, até um
galpão rústico, iluminado por um lampião a querosene aonde o Seu Carmo
montava os maços para os fregueses amarrados com barbante de algodão.
Nos
dias de chuva a água que pingava das árvores sobre o teto de latão
emprestava um som, entre a luz tênue da chama amarela o qual
assemelhava-sea uma conversa ininterrupta de seres, pensava eu, de uma
outra dimensão.
Ao final desse dia de chuva, como em outros da
distante infância, muitas vezes sendo o último freguês a retirar-se,
essa luz amarela do lampião projetava sombras sobre os montes de
esterco, sobre as ferramentas rústicas, sobre os troncos das árvores
robustas sombras que, anos mais tarde, vim a relacionar com a Dança de
Camille Saint-Saens.
Mas isso foi muitos anos depois.
Mas a horta tinha ainda outros segredos.
Lá no fundo havia um outro muro com um pequeno portão de madeira.
Olhando
pelo portão era possível entrevistar um pequeno lago, que recebia a
água da lavagem das verduras, e também água das chuvas.
Havia nessas águas que corriam até o pequeno lago, fileiras de rúculas e agrião.
As árvores maiores, os pessegueiros e mangueiras ficavam no entorno, nos limites do terreno.
Envolta desse lago eram plantadas as ervas medicinais.
Aquelas que resolviam problemas de cobreiro, de dor de barriga, de distenção muscular, de umbigo de recem nascido.
Era uma área interdita para os não iniciados.
Naqueles
tempos magros quando era muito difícil chegar ao médico ou a farmácia, o
Seu Carmo socorria os que necessitavam com os préstimos das ervas de
cura.
Era esse espaço um lugar sombrio, sob as árvores, entre os muros antigos cobertos de musgo.
Em
mais de uma oportunidade, no ocaso, sob a luz do lampião, vislubrei
luzes que vagavam sobre as águas do lago, luzes que os adultos diziam
ser de vaga-lumes, mas que para mim eram fadas e fogos-fátuos.
Mas os anos passaram. Velozes.
De
uma infância até a idade adulta, entre os problemas insolúveis e
desnecessários que vão se acumulando, um dia aquele terreno, com a
casinha de janelas para a rua deixou de existir.
Nessa época o Seu Carmo já havia partido.
Ficou por um espaço temporal o terreno, coberto de mato.
A vida afasta os fatos, as pessoas.
Passa-se a viver em outro lugar, com outros interesses.
Do terreno antigo nada restou. Hoje existe lá um edifício.
Mas,
ocorre, mesmo sendo lá no fundo, no espírito da imaginação, a figura do
Seu Carmo, encurvado, recolhendo cada verdura com respeito, como a
murmurar uma prece pedindo perdão, e lá, mais ao fundo, entre a luz do
lampião, é possível enxergar os pontos de luz esvoaçando no escuro,
pontos de luz que os adultos diziam ser vagalumes, mas que para as
crianças eram fadas.
Hoje, para esse mundo sem poesia, seriam chamadas de assombração.
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