No começo dos fatos, um ou outro moleque andou levando uma sova.
Ovos
quebrados no choco, mamões derrubados verdes dos mamoeiros, hortas
pisoteadas, as pontas dos ramos das laranjeiras quebrados, os bebedouros
dos animais emborcados.
Tudo levava a crer em artes de moleque.
Naquele tempo as casas do
bairro ainda possuiam quintais enormes aonde os moradores mantinham
criações de animais domésticos, plantavam hortaliças, mantinham pomares.
Nem o pomar de cajú dos Abade escapou das traquinagens.
Mas com o passar dos dias, os fatos passaram a dar-se além dos limites
do bairro, para lá das últimas casas junto a Avenida do Educandário.
Vinham notícias do Ipiranga, da Vila Tibério, e até da distante e isolada Vila de Santa Cruz.
Eventualmente as rádios locais comentavam os ocorridos, mas sempre dando
os créditos dos estragos aos meninos que andavam vádios por aqueles
lados.
Aquele mês de Agosto de 196_ foi especialmente ventoso.
Um vento que durante muitos e muitos dias não deu trégua.
E estava frio.
No final do dia, e por muitos dias seguidos, choveu, e
no céu nublado da noite, a Lua, nas suas fases foi entrevista sempre
entre nuvens carregadas.
As ruas escuras do bairro ficavam desertas logo ao anoitecer.
E o vento implacável soprava por entre os quintais antigos, por sobre os
telhados úmidos das mansardas, entre as árvores, por sobre os pomares,
galinheiros, chiqueiros.
Por sobre as residências e as pequenas casas de comércio.
As crianças relutavam para levantarem e irem para a escola.
Mesmo após o longo mês de julho de brincadeiras, pipas e doces caseiros.
Mas os danos aos pomares e o ataque contra os animais de criação não paravam.
Após alguns dias todo o bairro e também os bairros adjacentes tinham histórias de depredações para contar.
Com
os varais de roupas agitados pelo vento incessante, com os cigarros de
palha apagando a cada instante, por sobre os muros de divisa, por entre
as hortas que se comunicavam através dos quintais demarcados por cercas
simples de arame farpado e bambu as notícias corriam.
O que estava acontecento?
Com aqueles dias de vento, frio, e
muita chuva ao final do dia, até os meninos mais arteiros sentiam-se
desanimados para cometerem sua folias.
Ficavam por vezes reunidos em
um canto na calçada, conversando pouco, cobertos, cada um, com uma blusa
de frio retirada do armário, mesmo indo longe Junho e Julho.
Vez ou outra a polícia recebeu uma reclamação, mas, no consenso geral minimizavam os fatos, citando também os meninos.
Mas quando apareceram os primeiros animais mortos, lá pelos lados da via férrea, o delegado e o padre foram solicitados.
Uns dizendo que eram bandidos que estavam fazendo isso.
Outros levavam para os casos da religião.
Falas nos sermões nos domingos daquele distante agosto de vento.
O delegado e os seus auxiliares percorrendo as ruas do bairro.
E muito vento, muita chuva, muito desconforto nas buscas e nos sermões, que pareciam infrutíferos.
Na
última semana do mês, ainda com os ventos que sopravam, um cidadão que
morava em um sítio de café no outro lado da via férrea, seguindo lá pelo
rumo do antigo Lazarento, contou no empório uma história intrigante.
Disse o personagem que, no dia anterior, poucos antes do anoitecer,
como não estava chovendo tal como nos dias anteriores, aproveitou para
queimar uma quantidade de palha que estava em um celeiro.
Quando as
chamas estavam altas e a fumaça ia ao longe, no cavalgar do vento, entre
as sombras oscilantes viu o que primeiro lhe pareceu ser uma quantidade
de palha em chamas desprendendo-se do monte, em virtude do vento.
Ao olhar novamente percebeu um vulto negro, como que transportando aquele fragmento de chamas sobre a cabeça.
A
fumaça tornou-se mais intensa, o vento acentuou-se e aquela visagem foi
para os lados da cocheira aonde ficavam os animais de carga, provocando
grande alvoroço entre eles, e também entre os outros animais.
Naquele momento, entre o apito da locomotiva que se aproximava, julgou
ouvir uma série de gritos em devaneio, que foi aumentando de intensidade
junto ao ruído da composição.
Munido da velha "pica-pau" que estava
sempre à mão devido os bichos predadores de galinheiros, principalmente
naqueles dias de fatos estranhos, disparou ele um tiro por entre a
fumaça, o fogo, o vento, no rumo do alarido intenso.
Seguiu-se um silêncio, o qual naquele momento era quebrado somente pelo estalar das rodas do trem, e da caldeira da locomotiva.
Logo tudo passou.
A noite acentuou-se mais. Via-se ao longe as luzes do trem a caminho do Barracão.
A história daquele sitiante lá dos lados do Ipiranga caminhou pelas
trilhas, pelas ruas vazias, chegou até as casas, na rodas de conversa,
entre os moleques, ao delegado ao padre.
Uma visagem de final de dia, no escuro, entre as chamas de uma fogueira de palha, ao vento e ao ruído do trem da tarde.
Bem, os dias foram ficando mais quentes, o vento amainou.
Parou de chover definitivamente.
Não se encontrou mais ovos quebrados, nem frutas arrancadas.
Os meninos começaram a voltar para a escola e para as suas brincadeiras.
As verduras voltaram para as quitandas, os homens para as suas atividades.
As várias casas comerciais e as pequenas fábricas do entorno continuaram as suas atividades.
O padre reservou um sermão ameno no último domingo do mês.
O delegado arquivou o caso.
Aqueles meninos que, no começo do mês
levaram uma sova e que tinham a convicção de que nenhuma daquelas artes
poderiam a eles ser atribuidas, conversavam, no melhor estilo de
Monteiro Lobato, que aquilo tudo, aquela passagem de sonho que começava a
esmaercer com a luz dos dias claros, poderia ser somente diabruras do
Saci.
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