O delegado estava a ouvir Edwar há alguns minutos quando o interrompeu.
Perguntou quem o estava visitando.
Lá fora o dia esmaecia. As sombras esticavam pela rua tranquila.
Nos quintais antigos já havia pernumbra anunciante de noite escura.
Sem luar.
Edwar respondeu que era um padre.O padre Zé Bento.
O delegado assentiu e o reclamente continuou com a sua narrativa.
Pois
então senhor delegado, agora que, após décadas, a casa da esquina
coube-me pela linha sucessória, coisa não esperada mas não desagradável,
pretendo vir a ocupá-la como residência.
Instalei-me precariamente há alguns dias.
Sei, a passagem do tempo
transformou-a quase em ruínas, mas creio ser possível, de pouco em pouco
restaurar o local, devolvendo-lhe o antigo brilho.
A casa em questão para que saibam, foi construída no final do Século XIX. Naquele período aureo, muito aureo do café.
Quem a construiu em uma esquina, sobre uma elevação do terreno e a
cercou com muros laterais e uma pesada grade frontal, costume da época,
não a habitou por muito tempo.
Faleceu alguns anos depois da
inauguração da vetusta casa, e a sua morte foi a primeira em uma
sequência que deixou a vizinhança alarmada.
Uma vizinhança de há muito ausente.
Nas duas décadas seguintes,
entre o dono, os parentes próximos, e os agregados, havia notícias de
que dezoito pessoas haviam falecido naquela casa.
Era muito!
Essas
notícias correm e em mais alguns anos, a casa foi definitivamente
fechada, passando de um inventário para outro sem que nenhum dos
parentes, mesmo distantes, resolvessem ocupá-la.
O Tempo passa, escorre pelas calhas e goteiras nos dias de chuva,
escorre pelas árvores mortas e pelo jardim arruinado de muitos anos sem
cuidado, infiltra-se pelas rachaduras das paredes de há muito sem
pintura.
No inverno os ventos sopram fortes, deslocam telhas, derrubam os adornos, quebram os vidros, inutilizam as luminárias.
Os cupins também realizam o seu trabalho.
Nos anos de 1950 a casa, antes suntuosa, era uma mansarda sórdida.
Da sua cor original, ocre, nada mais restava.
Os papéis de parede haviam descolado deixando à mostra o reboque úmido e mofado por centenas de chuvas.
As largas pranchas envenizadas do piso eram um amontoado de poeira,
detritos que desprendiam das paredes e do gesso do teto, antes decorado
de dourado.
No porão amontoavam-se móveis de três gerações e de dois séculos diferentes.
Dois momentos históricos distintos.
De antes e depois do evento do rádio.
Por essa época, em meses passados, que o advogado comunicou Edwar a sua chegada na ordem sucessória.
Edwar
resolveu ocupar e restaurar o imóvel o qual, em que pesasse todo o
abandono, era uma construção sólida, e um pouco de gastos e paciência
poderiam, em seu entender, tornar a casa tão bonita quanto fora sessenta
anos atrás.
Logo após vir a ocupar o imóvel, com ideias de restaurações, o novo
dono passou a ser molestado em sua intimidade por incursões de vândalos,
conforme estava a relatar ao delegado.
Mesmo com a energia elétrica
religada após tantos anos de sombras, e a colocação de algumas lâmpadas,
os sons na casa, de janelas partidas, de pedras sobre o telhado, de
luzes deixadas acesas encontrarem-se apagadas, e da mesma forma, sendo
apagadas apareciam acesas, vinha tudo isso deixando Edwar aborrecido com
as possíveis traquinagens de um ou outro menino que perlambulava pela
vizinhança nas horas vadias.
O delegado quase perguntou quais meninos, mas ficou quieto.
Naquela vizinhança isolada não havia garotos há muitos anos.
Os
últimos cresceram, mudaram de bairro, mudaram de cidade, e dessa forma
várias gerações de gatos não conheceram as molecagens das quais os
bichos eram vítimas.
Havia uma lâmpada em especial, dizia Edwar, a do porão, a qual é
impossível mante-la acesa, e a de um quarto isolado, no último andar, a
qual é impossível mante-la apagada.
Não sei por onde entram na casa para as suas brincadeiras, mas exijo que parem com isso! - sentenciou Edwar para o delegado.
Há ainda outros ruídos, como se estivessem esfregando um objeto qualquer
contra as paredes externas da casa, o que pode provocar danos além
daqueles que o tempo já realizou!
O delegado ouviu as queixas por mais algum tempo, e depois indagou a respeito do padre Zé Bento.
Edwar animou-se a falar do padre. O padre havia contado que a casa
havia sido construída sobre uma ponta do terreno aonde estava localizado
um antigo cemitério. O primeiro cemitério da vila nascente.
Os jazigos haviam sido transferidos para outro local.
Para o terreno próximo da igreja, a qual podia ser avistada do quintal da casa.
Mas
que talvez, algum remanescente havia permanecido no local, o que de
certa forma, poderia explicar a aparente insalubridade da casa, local
aonde muitas pessoas haviam falecido.
E também explicar o abandono do lugar, e a sua não utilização como moradia por muito tempo.
Mas,
dizia Edwar, o padre irá consagrar o espaço do terreno para que se
houver mesmo influências, o lugar fique limpo. O que eu desejo é a ação
do delegado para repelir os meninos criadores de caso.
Em seguida o delegado perguntou a Edwar se o padre o visitava com frequência.
Edwar respondeu que sim, que na noite anterior havia estado em sua casa, e conversaram por algum tempo.
Ouvindo
essa afirmativa, o delegado disse que nada poderia fazer em relação a
qualquer ocorrência anterior ou futura a qual viesse a incomodar a ele,
Edwar.
O reclamante ficou atônito.
Quer dizer que devo como cidadão,
submeter-me a atos de vandalismo em minha própria casa, local no qual eu
vim a intalar-me e no qual pretendo residir?
Sim, respondeu o delegado. E continuou.
O senhor afirma que ainda ontem o padre Zé Bento esteve com o senhor?
Sim! - respondeu Edwar.
Então senhor, realmente não há nada que eu possa fazer para ajudá-lo.
O padre Zé Bento era o nosso pároco, disse, e morreu há mais de vinte anos!
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