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8 de mar. de 2014

A Fábrica Fantasmática de Refrigerantes

Algumas coisas são para sempre.
Não importa a passagem do Tempo e dos costumes.
Em um dia de outrora, na Rua Industrial, passou a funcionar uma fábrica de refrigerantes.
Mais do que um refrigerante, a Douradinha era um elixir da felicidade. Da felicidade consciente, pois essa felicidade somente poderia existir com a Douradinha.


Passaram-se décadas.

Os cenários mudam, efêmeros como  também são aqueles que os criam. Exceto alguns.
E dos frigoríficos, ficaram as sombras das fotos, pois nem as ruínas permaneceram.
Houve, em um momento qualquer dos anos de 1950 a evocação de um anátema.

E vieram as máquinas pesadas, e a nova via pública, e alterou-se a topografia dos córrego, e criou-se  um vale entre as pistas, permanecendo como testemunhas seculares dois cajamangas.
E devido a mudança dos contornos geográficos locais, foi necessária a confecção de uma pequena ponte de ferro, financiada pelo Zé do Gino, a qual passou a servir ao público para cortar caminho por sobre o Córrego Antarctica. Para nós ficou conhecida como a "ponte do gelo",por estar próxima a uma fábrica desse produto.
Vários outros anos passaram.

E o que era atividade febril, produzindo além do elixir da felicidade, e algumas outras bebidas, tijolos, frigoríficos, doces, produziu também lendas, produziu fantasmas, produziu lobisomens.
Quando os fogos das caldeiras das fábricas e os fornos da cerâmica já estavam mortos, e o trem já não passava mais pelo desvio da Estação Barracão, sobreveio um silêncio, um silêncio a remotar a um Passado eternizado por sua energia, de muitas vidas, de muitos animais, de muito fogo, de muita lenda.
Aquele lugar morreu. Não para todos.

Em meus passeios crepusculares costumo caminhar por aquelas plagas.
Há muitas lembranças.

Há um momento especial, quando os as criaturas diurnas recolhem-se, os três potes, os frangos d'agua, as galinhas e os pássaros de cores vivas, e começam a aparecer as criaturas da noite, s capivaras, os pirilampos com suas luzes espectrais, e por vezes, sob a luz da lanterna elétrica é possível observar-se na grama seca centenas de pontos coloridos como leds, que são a refração dos olhos de pequenas aranhas, em meu entendimento, pequenos fantasmas.
E, naquele hiato de tempo, naquele intervalo quando o dia ainda não é noite, e a noite ainda é dia, é possível ver-se o explendor daquele lugar, com luzes brilhando nas antigas fábricas espectrais, nos antigos fornos, nas antigas caldeiras, pode-se ouvir, suave, tal como a brisa fria uma solicitação de outros tempos "... vocês querem um quinado ou uma Douradinha??? ..."
Breve suspensão do Tempo que caminha, inexorável, para a Eternidade.

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