Algumas coisas são para sempre.
Não importa a passagem do Tempo e dos costumes.
Em um dia de outrora, na Rua Industrial, passou a funcionar uma fábrica de refrigerantes.
Mais do que um refrigerante, a Douradinha era um elixir da felicidade.
Da felicidade consciente, pois essa felicidade somente poderia existir
com a Douradinha.
Passaram-se décadas.
Os cenários mudam, efêmeros como também são aqueles que os criam. Exceto alguns.
E dos frigoríficos, ficaram as sombras das fotos, pois nem as ruínas permaneceram.
Houve, em um momento qualquer dos anos de 1950 a evocação de um anátema.
E
vieram as máquinas pesadas, e a nova via pública, e alterou-se a
topografia dos córrego, e criou-se um vale entre as pistas,
permanecendo como testemunhas seculares dois cajamangas.
E devido a mudança dos contornos geográficos locais, foi necessária a
confecção de uma pequena ponte de ferro, financiada pelo Zé do Gino, a
qual passou a servir ao público para cortar caminho por sobre o Córrego
Antarctica. Para nós ficou conhecida como a "ponte do gelo",por estar
próxima a uma fábrica desse produto.
Vários outros anos passaram.
E o que era atividade febril,
produzindo além do elixir da felicidade, e algumas outras bebidas,
tijolos, frigoríficos, doces, produziu também lendas, produziu
fantasmas, produziu lobisomens.
Quando os fogos das caldeiras das fábricas e os fornos da cerâmica
já estavam mortos, e o trem já não passava mais pelo desvio da Estação
Barracão, sobreveio um silêncio, um silêncio a remotar a um Passado
eternizado por sua energia, de muitas vidas, de muitos animais, de muito
fogo, de muita lenda.
Aquele lugar morreu. Não para todos.
Em meus passeios crepusculares costumo caminhar por aquelas plagas.
Há muitas lembranças.
Há
um momento especial, quando os as criaturas diurnas recolhem-se, os
três potes, os frangos d'agua, as galinhas e os pássaros de cores vivas,
e começam a aparecer as criaturas da noite, s capivaras, os pirilampos
com suas luzes espectrais, e por vezes, sob a luz da lanterna elétrica é
possível observar-se na grama seca centenas de pontos coloridos como leds, que são a refração dos olhos de pequenas aranhas, em meu entendimento, pequenos fantasmas.
E, naquele hiato de tempo, naquele intervalo quando o dia ainda não é
noite, e a noite ainda é dia, é possível ver-se o explendor daquele
lugar, com luzes brilhando nas antigas fábricas espectrais, nos antigos
fornos, nas antigas caldeiras, pode-se ouvir, suave, tal como a brisa
fria uma solicitação de outros tempos "... vocês querem um quinado ou
uma Douradinha??? ..."
Breve suspensão do Tempo que caminha, inexorável, para a Eternidade.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Postagens populares
-
Sons na noite. Não os provocados pelo gatos, essas criaturas que tem um pé em cada mundo. Não os provocados pelas folhas secas levadas pela ...
-
Nariz adunco, pele morena, chapéu de feltro com a aba caída, calça cáqui, camisa clara. Jamais soubemos o seu nome. A tiracolo uma caixa de...
-
Há relatos, desde muito tempo, sobre pontos de luz avistados nos ermos, em ruas desertas, em casas que sabidamente pelas lendas, são tidas ...
-
Algumas coisas são para sempre. Não importa a passagem do Tempo e dos costumes. Em um dia de outrora, na Rua Industrial, passou a funcionar ...
-
De tempos em tempos nas cidades mais interioranas, acontece de aparecer o cadáver de uma mulher jovem, loira, não identificada, morta de m...
-
Ao final da tarde ele aparecia na esquina. Entre as sombras do crepúsculo entre as paredes antigas. A sua buzina tocada por um fole era inc...



Nenhum comentário:
Postar um comentário