Há situações recorrentes.
Algumas, indubitávelmente, envolvem sofrimento humano.
Temos exemplos interessantes na literatura.
Em
"O Barril de Amontilatto" de Poe, "A Nova Catacumba" de Doyle, e em
"Venha ver o por-do-sol" da Lygia, há um crime, e o autor, e algoz,
ficou impune.
O túmulo, uma capela, foi erguido no final do Século XIX.
Imponente. Todo de pedra.
Um
pequeno adro, cercado por pesada grade de ferro e um portão de duas
folhas dava acesso, através de uma estreia calçada até o pórtico,
elevado alguns degraus do piso.
Esse pórtico, também de ferro
trabalhado, com vidros coloridos de azul, vermelho, verde, bem como
janelas ogivais a grande altura, também revestidas de vidros coloridos,
que em determinadas horas, no final da tarde, projetava uma miríade de
cores sobre uma pesada tampa de ferro no piso, a qual dava acesso à
catacumba.
O espaço interno da capela era decorado com um pequeno altar de mármore, na parede oposta a porta de de entrada.
Somente isso.
Quando
da visita do pessoal do Patrimônio Histórico, sobre esse pequeno altar,
desprovido de qualquer imagem, haviam resquícios de velas, de há muito
tempo ali colocadas em castiçais de prata, com o brilho esmaecido pelo
zinabre.
Havia também fragmentos de flores sob muita poeira, colocadas em um vaso Murano, denotando a passagem de muitos anos.
O
senhor Cláudio, construtor que há muitos anos exercia as suas funções
no grande e antigo cemitério foi quem providenciou a abertura das
fechaduras enferrujadas.
Naquele recinto não pisava uma pessoa desde os anos de 1940.
O sepultamento de uma criança havia ocorrido naquele local ainda em 1897, conforme informava o epitáfio.
Durante muito tempo, um pai dedicado havia levado flores e oferecido velas em devoção.
Mas de há muito, naqueles distantes anos do início da década citada que
ele também havia partido, sendo sepultado em outro local do cemitério.
Agora,
o antigo túmulo de pedra, uma preciosidade arquitetônica, estava sendo
vistoriado com o objetivo de transformá-lo em patrimônio tombado.
Com o auxílio do senhor Cláudio e mais dois homens, a pesada tampa
de ferro no chão, que dava acesso à catacumba, por estar bastante
enferrujada oferecia grande resistência para girar em suas dobradiças.
Com
o uso de pesadas alavancas de ferro, finalmente ela cedeu e girou,
provocando um ruído agudo e desagradável, que transudou a lugares
abandonados.
Sob a tampa havia uma sequência de degraus que desapareciam sob o piso, em uma profunda escuridão.
O pessoal estava preparado, e uma possante lanterna de LEDs foi acionada.
A luz azulada, fria, percorreu os degraus e as paredes úmidas debelando as sombras.
Um lance de quinze degraus levou ao piso inferior, onde no centro da
área havia um pequena cripta de mármore em cujo interior, sabemos,
estava a criança, há mais de um século.
A luz intensa percorreu todo o
cômodo até deparar, para o espanto manifestado por todos os membros da
equipe do Patrimônio Histórico, e também ao construtor e aos seus
auxiliares, com o corpo mumificado estirado no chão empoeirado.
As vestes demonstravam ser de uma mulher, na moda em voga de várias décadas passadas.
Nos dias seguintes, providências foram tomadas pelas autoridades.
Um sepultamento provisório foi realizado.
Relatou
o meu amigo, o senhor Cláudio que, muito tempo depois, e até o momento
no qual o mesmo contava-me os fatos, não ter sido aquela senhora ainda
identificada.
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