Apareceu um dia, lá na fábrica. Já adulta.
Arranhando o portão e latindo com veemência.
Alguém abriu o portão e ela entrou.
Ao final do dia, quando o Zé do Gino chegou da labuta diária, deparou-se com o enorme cão preto.
A cachorra aproximou-se como havia se aproximado durante o dia de outras pessoas.
Abanando timidamente o rabo.
Com a chegada do Zé do Gino ficou acertado que, se ninguém viesse à sua procura, a cachorra ficaria por lá.
Ficou.
Desde o primeiro dia, a Preta, como passou a ser conhecida, tomou conta de todo o espaço.
Terrível contra estranhos que chegavam até o portão da fábrica, era
dócil como um gatinho com os da casa e com aqueles que visitavam o
local.
Entre os visitantes, incluo-me.
A cachorra Preta. Um mistério.
Jamais soube-se de onde viera. Era enorme, de porte altivo, com a pelagem totalmente negra. Um belo exemplar de cão.
Tinha um comportamento interessante. Jamais abrigou-se em dias de chuva.
Permanecia ao relento junto ao portão da casa no fundo, debaixo de um
coqueiro de jardim.
Nos dias frios, o máximo que fazia era abrigar-se
próxima a antiga caldeira, a qual, contudo, mantinha-se apagada. De
muitos anos.
E também por muitos anos, a Preta ficou por ali.
Guardiã da casa. Guardiã dos espaços. Guardiã das fronteiras dos dois mundos que por vezes abriam-se por ali.
Guardiã das noites sem luar, nos dias chuvosos, quando a água gotejava dos telhados antigos, das árvores do entorno.
Nos dias de calor intenso bebida estrepitosamente a água depositada em
uma vasilha de barro colocada à sombra de um telhado, especialmente para
ela.
Sempre havia água fresca para a Preta.
No beiral dos prédios
antigos, as lâmpadas para afugentar a escuridão delineavam a silhueta
do grande animal, contra as sombras amenizadas nos cantos, nas vetustas
paredes de outrora.
Por vezes, sob a luz tênue da Lua, olhava-se duas vezes para
certificar-se se era o cão ou a materialização de algum resquício de
sonho da noite que caminhava pelo antes movimentado pátio da fábrica de
refrigerantes.
E a vida, como todas as vidas, um punhado de anos,
caminhando para a consagração, de um dado momento para toda a
Eternidade, entre as provas, os sofrimentos, as breves vitórias, aponta
para um crepúsculo e o mergulho definitivo na noite de todos os Tempos.
A cachorra Preta ficou doente.
O Zé do Gino desvelou-se em cuidados e medicamentos.
A Dona Solange, esposa do Zé, alimentava-a na boca.
Houveram oportunidades em que eu mesmo prestei algum serviço para melhorar o conforto da Preta.
Tempos difíceis e movimentados no início de Fevereiro de 2010.
Um dia o Zé do Gino tambéu adoeceu.
Após alguns dias, o nosso amigo partiu.
Mas a Preta, a guardiã,havia partido exatamente um dia antes.
Desses fatos nascem as lendas que alimentam o Folclore.
Dizem que a Preta foi um pouco antes para esperar o Zé do Gino, lá junto de São Francisco.
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