O pé de ferro. A mesa baixa com as divisões para os diversos tipos de pregos e tachinhas.
O pequeno barracão coberto de zinco, com um dos ângulos apoiado no velho cajueiro.
Na iluminação, um grande lampião a querosene.
Para as horas escuras do início do dia.
Para as horas escuras ao cair da noite.
Assim trabalhava Romeo, o sapateiro.
No seu avental de couro, as marcas das décadas de trabalho duro, de tintas, de cortes, de manchas.
Em um tempo no qual o sapato era luxo, reformá-los era forçoso.
Assim passaram os anos e as gerações.
No bairro antigo, nos quarteirões do entorno, Romeo fez com que milhares de calçados voltassem a ser utéis.
Tempos difíceis. Mantimentos comprados por quilo no empório da esquina.
Verdadeiras vitrines do Passado.
Mas, quando a sola furava e o salto desgastava, o Sapateiro Romeo dava uma solução.
Reparava. Com carinho.
Com a dedicação daqueles que sabiam o quanto era difícil ter.
Então a necessidade era manter.
Por anos e anos, sob aquele pequeno barracão o martelo, o pé de ferro, as lâminas afiadas para a profissão serviram a todos.
Um trabalho mágico de reconstituir um objeto usado.
Na luz tênue ao final do dia, o ritmo do martelo pregados em um sola, dava o tom do Angelus que tocava na rádio local.
Diziam os antigos, que naquele horário, os anjos estavam voltando para o
regalo de Deus, aonde passavam a noite, cansados de tanta labuta com a
meninada travessa.
Nos dias bem marcados de chuva, nos dias quentes
de verão, de pipas no céu, nos dias frios, curtos, onde o lampião era
acionado mais cedo, emprestando ao ar, juntamente com as colas e tintas,
um odor único de trabalho artesanal em andamento.
De quando em quando, um sapato de algum membro da família era levado para reparos.
Juntava-se a muitos outros que lá estavam.
Um
tempo em que os quintais eram amplos, que as ruas mal iluminadas
recebiam o auxílio do lampião do Sapateiro Romeo, muitas vezes até horas
adiantadas na noite.
Por vezes, entre os folguedos da distante infância, era ouvido o toc,
toc, toc, do martelo acertando um calçado, apoiado no pé de ferro.
Coisas
insignificantes as quais, depois de muitos anos, sendo colocadas
perante a Eternidade do Ontem, adquirem um valor incrível, pois esse
trabalho, como outros que eram desenvolvidos, de forma artesanal, nos
fundos dos quintais, nas casas humildes, nas esquinas, emprestavam uma
confortante sensação de realidade.
Tudo estava em seu lugar. O sapateiro, o leiteiro, o empório da esquina,
a escola, a farmácia, a padaria, a Igreja, o cemitério mais além.
Havia
um espaço delimitado, seguro, onde todos podiam ir e vir, tanto durante
o dia, como na mais fechada noite sem luar, com temor somente em
relação aos fantasmas, fantasmas passados os quais nem muito
perturbavam.
Mas os anos correm, e gastam as solas dos sapatos, os quais, de vez em
quando, passavam por uma reforma geral feita pelo Sapateiro Romeo.
Tudo se acaba. Tudo se esvai.
Ao
virar uma esquina, aonde o cenário muda, tal como provém a Ciência
explicar as curvas da luz, ao encontrar corpos estelares em seu caminho.
Tudo se esvai.
Na velocida fabulosa da luz, que vagando pelos confins do Infinito, quando volta para casa, encontra tudo mudado.
Pessoas se foram. E também os valores que elas representavam.
Instituições esfacelam-se dando lugar para outros valores.
Uma casa foi demolida. Outra construída em seu lugar.
Árvores são plantadas. Outras morrem.
E,
nesses tempos no qual os lampiões a querosene foram substítuidos por
lâmpadas eletrônicas, tornando as noites mais claras e livres dos
fantasmas, que agora vagam nos dias
do passado, a cadência das brincadeiras, as correrias noturnas, o som, toc, toc, do martelo do sapateiro estão em outro lugar.
Mas, sempre sobra algo.
Há um tudo um miasma que impregna os lugares, procurando mostrar que ainda há um resquício dessa egregóra pretérita.
Para aqueles que ainda vagam pelas ruas desertas, nas horas calmas, já
avançando para a madrugada, quando a Lua Nova está fixa, baça, no
horizonte de Oeste, é possível perceber as atividades dos moleques, com
aquela sensação tênue que nos traz uma fotografia em sépia, o som do
martelo sobre a sola no pé de ferro, na luz tênue do lampião, adensando
as sombras no quintal antigo.
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