O dia era findo.
Havia prenúncio de chuva no ar.
Lá fora, no pátio escuro, o pequeno automóvel nos aguardava.
As luzes dos galpões e no entorno da caldeira já estavam acesas.
Mais um minutos para saborearmos um café, e então iríamos embora.
Incentivado pelo café forte e doce, o meu amigo G_ começou a conversar.
Reatou a conversa de algum tempo atrás.
Você já notou - disse - a questão dos anátemas que acompanham determinadas família?A Bíblia diz das maldições hereditárias.
Pelos
meus anos vividos, que não são poucos, observei essas ocorrências em
várias famílias conhecidas minhas, e também ouvi falar de muitas outras.
É interessante.
Uma sucessão de fatos desagradáveis acompanham esses núcleos familiares.
Há aqueles indivíduos de situção modesta.
Há aqueles que vivem na opulência.
Mas tanto em um caso como no outro, os dissabores acontecem.
Os modestos talvez assim o estejam por haverem perdido tudo.
De qualquer forma, sobre esses os comentários não atraem tanto a atenção.
Os mais favorecidos sofrem perdas continuadas e tristes de seus parentes e familiares.
Veja a família B_.
Conheço aquele pessoal desde as décadas do início do século.
São importantes.
Mas, venho a acompanhar um série de perdas familiares.
Há algum tempo, em um visita ao cemitério, observando os nomes nas placas de bronze, fiz uma rápida digressão ao passado.
É notável o número de crianças em tenra idade que partiram.
Há casos de longas e dolorosas doenças antes do inevitável final.
Suícidios e acidentes completam o quadro.
Há até a história de um enterro prematuro!
Na última noite do Carnaval de 1963 um jovem membro da família, após a
utilização de lança-perfume, a famosa Rodouro, sofreu um ataque cardíaco
fatal.
Foi sepultado na Quarta-Feira de Cinzas.
Nos dias seguintes um dos membros da família insistia em frenesi que aquele jovem havia sido enterrado vivo.
Os enterramentos prematuros fazem parte do folclore e lendas urbanas.
Foram constatados casos terríveis.
A
insistência foi tão forte, esse membro da família mostrava tal estado
de agitação que foi solicitado das autoridades licença para efetuar-se a
exumação.
Eu escutava com muita atenção a breve história narrada pelo meu amigo, entre um gole e outro do café.
E .... ? - perguntei.
Bem, disse o meu grande amigo G_, os temores confirmaram-se.
Encontraram o jovem de bruços no caixão.
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