Os antigos chamavam aqueles dias de Outono Vermelho. Uma vez a cada l3, l5 anos, o Outono começava frio e com muita chuva. Nos poentes depois de chuvas intensas, o céu apresentava-se em tons de vermelho escuro, sombrio, por causa das nuvens pesadas defronte ao Sol, daí o nome. Era característico, diferente de outros crepúsculos, e ocorriam sempre ao final de março, início de abril. Outono Vermelho. Era o indicativo de que alguma coisa não ia bem.
Algo sempre acontecia. Animais de criação encontrados mortos, galinhas, porcos,
ovelhas ... ovos chocos, leite talhado, vacas doentes. As chamas das
velas e dos lampiões não iluminavam direito - ficavam azuis, mortiças.
Gravou-se a marca. Outono Vermelho.
Alguns dos cidadãos mais velhos haviam passado, em suas vidas, por
quatro ou cinco outonos vermelhos. Lembravam-se dos tempos mais
antigos ainda, onde os pais e antes deles os ávos, descreviam esses
dias estranhos. Lembravam também que, naqueles dias, duas semanas no
máximo, sempre morriam mais pessoas. Era mais frio, era mais chuvoso,
talvez até por causa disso.
Foi quando passei a frequentar a Universidade de -, para dar
continuidade aos minhas pesquisas sobre folclore, que tomei
conhecimento dessa lenda que persistia na região desde há muito, entre
os mais antigos moradores.
O Sr. - e a Sra. - na casa de quem hospedei-me, pretendendo ficar por
algum tempo, enquanto durassem as aulas, foram quem informaram-me os
detalhes mais profundos dessa lenda que percorria as ruas da pequena
cidade.
Haviam prenúncios de que aquele Outono poderia ser um Outono
Vermelho. O ultimo havia ocorrido há l6 anos, e naquela última
oportunidade além dos animais e das mortes naturais, começou-se a
aventar-se que haviam outras pessoas mortas, de morte não tanto
naturais.
Março passou entre chuvas e dias de sol, como são os meses de março.
Mas, por volta do dia 22 daquele mês, o tempo fechou sobremaneira, e
no dia 23 começou a chover, intensamente, e havia frio, muito frio,
atípico para aquele mes.
Os mais antigos falavam com preocupação no Outono Vermelho. As águas
caiam, ininterruptamente, de um céu cor de chumbo, e havia frio, muito
frio, nas ruas encharcadas, nos terrenos baixios inundados, no pequeno
rio, agora com águas revoltas, escuras, trazendo galhos e outros
destroços das terras mais altas, nas árvores seculares cobertas de
musgo, nas ruas desertas, mal iluminadas, que levavam do campus até o
centro da pequena cidade. Não se viam cães ou gatos nas ruas. O
comércio fechava cedo. Nenhum transeunte era visto a caminhar após as
seis horas da tarde.
Nos dias seguintes foi se acentuando esse estado de coisas, e os
antigos disseram - valha-nos!, pois e um Outono Vermelho!
Após cinco dias de chuvas ininterruptas, houve uma tarde mais clara,
aonde o céu vermelho de nuvens, ao crepúsculo, prenunciava mais chuva
durante a noite. Era mesmo um Outono Vermelho.
A boca pequena, começou-se a ouvir os relatos de animais mortos, de
ovos talhados, apesar de existirem muitas casas com lâmpadas
elétricas, muitas ainda usavam lampiões e velas, e o fenômeno da luz
azul repetia-se.
Durante aqueles dias, as pessoas evitavam falar-se ao encontrarem-se
nas ruas, em suas atividades rotineiras, ass vendas eram poucas, não
armaram a feira naquela primeira semana.
Saindo sempre muito cedo para dirigir-me à Biblioteca, encontrava
sempre as ruas vazias, nas primeiras horas da manhã e à tarde, quando
voltava da Universidade.
Passaram-se vários dias, quando correu a notícia de que mais uma
mulher, a primeira desse Outono Vermelho, havia sido encontrada morta,
em uma estrada deserta nos limites do campus. A polícia esteve por lá,
perguntou para uns e outros, no intuíto de esclarecer alguma coisa e
partiu. Ficaram o frio, a chuva e o mêdo.
Nova tarde fria de chuva, frio, água empoçada, luzes azuis, animais mortos.
No dia seguinte, procurei nos arquivos da biblioteca da Universidade,
jornais de épocas passadas que noticiassem ocorrências semelhantes a
que estavámos vivendo.
Nos jornais de há muito tempo, editado na cidade grande há vários
quilometros de distância desta em que eu encontrava-me, noticiava-se
que, em períodos regulares, naquela pequena cidade, cujas atividades
econômicas giravam em torno da agricultura e de atender aos alunos e
docentes da universidade ali perto, foram cometidos crimes horríveis e
não solucionados, nos quais foram mortas mulheres, no intervalo de 76
anos.
Contudo, até então, apenas duas eram conhecidas na cidade e na
Universidade. As demais eram estranhas, foram enterradas no pequeno
cemitério local, ninguém jamais reclamou corpo algum. Nenhum crime
até então havia sido solucionado. O mistério do Outono Vermelho
perspassa gerações. E ao tempo e ao esquecimento são levados os fatos
e as vítimas.
Presenciei um, com uma morte estranha, um corpo mutilido de uma
mulher, que não era daquela comunidade e também não frequentava a
Universidade local.
Dias depois, doze no total, o dia amanheceu límpido, fresco, não
choveu mais, não formaram-se nuvens vermelhas no ocaso, não se falou
mais no Outono Vermelho.
AS pessoas voltaram a sair nas ruas, o comércio funcionava até o
início a noite, os animais domésticos pararam de morrer, os gatos e os
cães vadios voltaram para as ruas, ficavam perlambulando pela praça,
entre os desocupados de sempre.
Em junho daquele ano terminei os meus créditos. Fui embora, defendi a
minha tese sobre folclore, e comecei a lecionar em uma outra
Universidade bem distante daquela, na pequena cidade.
No outro dia, ao marcar um compromisso na agenda, percebi que estava
avançado já o mes de março.
Ao olhar pela janela, verifiquei que o céu estava escuro, ameaçando chuva.
Lembrei-me do ocorrido há treze anos passados.
É possível que esteja próximo um Outono Vermelho.
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