Entre em contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

marchetti57@gmail.com

Seguidores

Translate

Estatísticas

Visualizações

About Me

Copyright © Aristides Marchetti | Created by www.csstemplateheaven.com | Blogger Template by Blogger Template Place

8 de mar. de 2014

O Parque de Diversões do Passado

Havia chovido. Agora, no ar frio da noite, com as nuvens afastando-se, era possível ver a Lua em quarto crescente, a Oeste.
Na rua deserta, as poças de água refletiam as poucas e fracas luzes da rua.
Não era tarde, mas a rua deserta denotava o frio, a chuva recente.
Ruas tranquilas cruzavam com essa pela qual caminhava.
Casas antigas, silenciosas, calçadas mal conservadas.
Alguns pontos mais escuros devido a grandes árvores, com raízes na calçadas e os galhos apoiados sobre muros e telhados. Imensos espaços vazios. O bairro antigo não possuia total ocupação. Por vezes, de um ponto era possível enxergar a outra rua, paralela.

Mais uns minutos a caminhar, e, que luzes são aquelas?
Na rota de sua caminhada, abria-se um imenso terreno, vazio, com algumas árvores esparsas, de onde era possível visualizar os contornos escuros de casas, bens afastadas.
Nesse terreno, para sua surpresa, estava montado um parque, daqueles com carrosel, barraca de pipoca e algodão doce, roda-roda gigante, prendas, prêmios.
A aparência do lugar era decrépita, mambembe, com varas de bambu suportando uma guirlanda de lâmpadas coloridas, muitas queimadas, as quais anunciavam a entrada.
Ninguém à vista. De algum alto-falante distante exarava uma música antiga daquelas de apresentação de circos de cavalinhos. No ar, o cheiro de açucar queimado, de guloseimas, de pipoca.
As luzes coloridas, verdes, vermelhas, azuis, amarelas, refletiam-se nas pequenas poças, no capim molhado, multiplicando-as em um curioso calidoscópio.
Mas alguns passos, e alguém chamou a sua atenção.
Moço! O senhor não quer brincar e divertir-se um pouco em nosso parque?
A figura que dirigia-se a ele era a de um homem velho, com uma boina na cabeça, vestido com um terno de qualidade, mas um tanto surrado, uma roupa de outra época.
Foi tão inusitado o convite tal como a aparência do local.
Qual o brinquedo que o senhor mais gosta? - Perguntou o homem velho. Eu pessoalmente gosto muito da roda-gigante, respondeu para si mesmo, em uma voz rouca, distante, que parecia com o roçar de folhas, suaves, respondendo a brisa a qual começava a soprar.
Naquele momento, espectral em seu colorido, em seu cheiro, em sua localização, em seu momento fora do Tempo, fez com que levasse a mão ao bolso e constatar que haviam somente algumas moedas.
Em um ato mecânico, depositou as moedas sobre a mão que o velho havia estendido.
Não sabia o valor. Mas interessante que, sob a luz baça das lâmpadas coloridas, pareciam moedas antigas. Engraçado! Ele não tinha nenhuma moeda antiga quando saiu de casa, há pouco tempo, talvez pouco mais de uma hora.
Havia, sim, algumas moedas comuns, do uso diário.
Mas, em seguida a entrega das moedas, o velho de terno antigo, cabelos brancos sob a boina, exalando um perfume almiscarado, que o levou a lembrar-se dos mais distantes dias de sua infância, já o conduzia para roda-gigante, a qual erguia-se há muitos metros do chão, em sua estrutura arcaíca, contra o céu de Lua crescente, algumas estrelas e resquícios de nuvens da chuva de horas atrás.
Ventava um pouco. A brisa fria espalhava algumas folhas, e pedaços de papel sujos, molhados.
Sentou-se em um dos bancos, com a tinta descascada devido as intempéries de muitos anos, de muitas viagens para dentro dos céus noturnos.
Haviam algumas luzes coloridas acesas entre outras queimadas, presas na estrutura de aço do brinquedo gigantesco.
Ao toque em uma alavanca, o velho colocou o mecanismo em funcionamento. A roda-gigante começou a girar, lentamente, em sentido anti-horário. Lentamente, lentamente, e, de repente, algo aconteceu.
Quando estava a meia-altura no giro contínuo da máquina, todo aquele terreno mal iluminado, de barracas rotas e sujas, passou a brilhar em um explendor de luzes, de movimento, de lonas novas, de pintura fresca, e mais e mais acentuava-se a música, uma música alegre, e o cheiro de prendas deliciosas exalava dessas barracas, agora lá em baixo, em um outro mundo, etéreo, distante, inatingível, apenas sonhado, de onde agora estava, imerso no céu escuro e frio.
E a cada volta da roda-gigante, pessoas e pais pessoas apareciam pelas ruas entre as barracas antevistas lá de cima, a cada volta mais para cima, mais para longe no Tempo, entre luzes coloridas, voltando no Tempo, para uma infância pobre mas feliz, de folguedos, cheiro de algodão doce, mais alto, mais uma volta no Tempo, uma rajada de vento, fria, e a lembrança dos amigos, já mortos, dos amores, dos filhos, dos ganhos, das perdas, mais alto, das cicatrizes da vida, mais luzes coloridas, e o cheiro de pipocas, mais alto, no céu escuro, um relâmpago, uma vela que se extingue ao vento, um trovão distante, no horizonte, uma antiga canção fluindo de alto falantes invisíveis, mais uma volta, e o Tempo, levando-o cada vez mais longe, e agora mais alto, no céu escuro, as luzes na noite fria, nas ruas, nos bairros de sua pequena cidade, e mais longe, no Tempo, e a torre da igreja, e o seu relógio iluminado, marcando, compassadamente, cada momento da vida, o longo caminho, a morte, o nada saber, as luzes coloridas, o cheiro de doces, de caramelos do passado, que não se compra mais em padarias, e o sabor de um refrigerante antigo, mais antigo do que a sua vida, mais mágico do que o conhecimento, e mais uma volta, e mais alto, e mais Tempo escoando na noite fria.
O tempo havia fechado novamente.
Começou a cair chuva, pesada, fria, na rua escura, sem luzes coloridas, sem cheiros de doces, sem cheiros de lembranças e voltas no Tempo.

Uma noite, de sono agitado, o recurso da vela, pois a tempestade havia interrompido a energia, e, engraçado, a metade do ingresso de um parque de diversões, de há muito deixado de existir, sobre o tapete no quarto.
De onde teria vinda aquele fragmento de papel?

Bem, a janela do quarto estava aberta. A cortina e o piso abaixo dela estavam molhados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagens populares