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8 de mar. de 2014

A Missa das Sombras

É uma tradição da nossa cultura religiosa dedicar-se missas em intenção das
Almas daqueles que se foram.
Muito acatados esses pedidos.
Há casos em que a celebração de missas em intenção da alma do finado é determinado em testamento.
Talvez seja grande o sentimento de culpa daquele que determina essa providência.
Talvez a lembrança através de missas sagradas facilite o caminhar pelas sendas do Umbral, até a Luz, esperada e desejada.
Mistérios. Da Vida, da Morte.


Ribeirão Preto possui muitas igrejas.
Algumas, mais antigas, foram demolidas, dando lugar a outros edifícios.
Outras permanecem com os seus sinos e torres desafiando o Tempo e as crenças.
Esses prédios adquirem uma energia própria.
Existem, atemporais, por vezes alheios a cidade a sua volta.
Pensamos que continuarão naquele local quando de há muito tempo não estivermos mais aqui.
Como ficaram quando outros passavam pelas ruas, acendiam velas em seus altares, realizavam os seus votos de Fé e pedidos por milagres.
Nos primeiros dias daquele ano os dias estavam frios e chuvosos.
Com o céu encoberto por nuvens pesadas, a noite faz-se mais célere.
Sob a chuva fina do momento, com as poças refletindo as luzes coloridas nos enfeites do Natal passado ainda dependuradas nos postes públicos de iluminação, A_ e seu amigo G_, caminhavam lentamente pela rua deserta e silenciosa.
Viraram por uma esquina para a rua na qual, na metade da quadra havia uma pequena igreja.
Construída a quase um século, era um prédio vetusto, sombrio, cujas paredes necessitavam de pintura, e uma pesada grade de ferro delimitava o seu adro.
A sua torre, esguia, estava emolurada pelas nuvens opalecentes, baixas, carregadas de chuva.
A conversa entre os dois amigos seguia amena.

Quando, naquela hora tardia, aproximaram os dois da igreja, perceberam que algo inusitado estava a acontecer.
Havia um movimento intenso por entre as sombras dos ciprestes do adro. E uma luz diáfana
projetava-se pelo piso calçado de lajotas, provinda da porta da igreja, que estava aberta.
Esse movimento era provocado por inúmeras pessoas que dirigiam-se para o interior da pequena igreja. Aquela hora?
Os dois amigos reduziram a marcha do caminhar.
O que estaria a acontecer?

Ouvia-se, quando muito, o leve roçar de tecidos. Nenhum outro som, de passos ou de vozes.
Notaram também que os latidos dos cães na noite haviam silenciado.
A chuva apertou em intensidade. Relâmpagos clarearam momentâneamente o céu e a rua, mostrando uma massa compacta de indivíduos dentro da igreja e em seu adro.

Naquela época eram fracas as lâmpadas da iluminação pública. Clareavam o ambiente, mas em um tom baço, amarelado no qual era possível somente divisar o alinhamento da via pública e o contorno das casas.
Aproximaram-se mais um pouco, agora cautelosos.
Mais indivíduos chegavam.
Foi G_, o mais velho dos dois que alarmou-se primeiro.

Sob aquela luz difusa havia reconhecido vários conhecidos.
Mas conhecidos que de há muito tempo haviam partido!
Não estavam os dois amigos, a entender o curso daquele evento.
De um instante todo aquele imenso grupo de indivíduos aquietou-se.
Parecia estar ocorrendo uma missa, com o padre proferindo as palavras em latim as quais somente o grupo nas sombras ouviam.
Como soi acontercer em situações como essa, quando a noção da passagem do tempo não é devidamente percebida, aquelas alterações de espaço/tempo as quais acompanham as situações conhecidas como visagens, tudo pareceu correr e, em um átino aquela multidão desfez-se, em silêncio, ficando novamente a igreja e a noite vazias.
Com os dois amigos dominando o espanto.

Contas brabas! Comentou G_.
O que disse? - perguntou A_

Sempre ouvi dizer - respondeu G_ - que aqueles os quais em vida deixaram um rastro muito grande de pecados contra a Fé, contra os semelhantes, contra a sociedade, necessitam de muita oração para transporem o Umbral e afastarem-se de suas ações terrenas e caminharem para onde devem caminhar as almas.
Os mais afoitos, percebendo perto do fim aquilo que haviam vivido, imploram por lembranças de missas.
Os mais calmos, nem tanto.
Talvez aqueles que estavam mais próximos do altar tivessem menos culpas.
Sob o batente, na entrada do pátio, reconheci alguns conhecidos que partiram já há tempos.
Com seus rostos pálidos e semblantes graves talvez não tenham ainda desprendido totalmente da energia terrena.
Havia um deles, com o qual realizei muitos negócios - E.M. como era conhecido - e que observei muito de perto, demonstrando muito sofrimento.
Interessante. Seu nome é lembrando diariamente nas missas da matriz.

Em passos lentos, chegaram os amigos até a próxima esquina na qual, após cumprimentos, separaram-se.

A noite continuava fria. A chuva tornou-se ainda mais intensa.
Entre as linhas verticais da chuva, a igreja parecia ainda mais soturna e imersa na noite.
A um comando qualquer, as luzes coloridas apagaram-se nas quadras avenida acima.
Restava caminhar até chegar em casa.

Nas ruas que seguiam até sua residância, A_ lembrou e relembrou a frase de G_ :

Contas brabas!

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