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8 de mar. de 2014

O Espetáculo Continua

Escolha uma carta!
Foi assim que conheci Roberto D_.
Em uma conversa amena com um amigo comum, entre os livros de uma vetusta biblioteca.
Roberto era imigrante. Da Tchecoslovákia.
Conheceu o campo de concentração de Auschwitz.
Durante a sua juventude, nos anos anteriores a Segunda Guerra, e nos anos posteriores a mesma, aprendeu, com os ciganos de sua terra, as arte circense da mágica, e também a tocar violino e violão, aptidão que garantiu a sua sobrevivência, quando, nos anos de 1950 imigrou para Ribeirão Preto. Durante os anos seguintes, iniciados que fomos em uma mesma ordem de conhecimento, tive oportunidade de conhecer muitos fatos relativos a guerra, a magia, e aos fatos insólitos, aqueles tratados como Realismo Fantástico.

Os membros reuniam-se para ouvir e aprender.
Através do amigo Roberto D_ e do amigo José A_ as nossas viagens na imaginação e no conhecimento extraído de textos antigos, a respeito da Gnose eram incomparáveis.
O amigo Roberto_ conhecia, além do seu idioma natal, o alemão, o inglês, o francês, o italiano.
Davamos um jeito com o espanhol.
As suas traduções literais de complexos textos na língua alemã adiantavam uma enorme quantidade de documentos, os quais, de outra forma, teríamos muita dificuldade em conhecer.
Por inúmeras vezes avançaram as horas, pela tarde, até a noite, enquanto o conhecimento do nosso amigo fluia, entre as prateleiras de livros, uma sala na antiga biblioteca.
A sua sombra gestilante, projetada nas paredes e no teto, através de luminária que José A_ mantinha sobre a escrivaninha, era, por si só, em dados momentos, os movimentos do
prestigitador que morava na alma de Roberto.
Ao paladar de um café coado na hora, ao som de Grieg era possível visualizar, por entre o vapor, a profundidade do conhecimento que fluia, ao som de palavras pronunciadas com um forte sotaque.
Naqueles momentos, o Tempo poderia estar sendo medido em qualquer outro ponto do Espaço.
A luz baça da Lua que coava através dos vitrais em algumas noites, e a chuva intensa que batia contra as vidraças em outras, fazia o coro surreal com a música, com as explanções das longas conversas sobre as teorias do início do mundo.
Saíamos do lugar, noite alta, pisando suave nos tapetes que revestiam o piso.
Na rua, defronte a praça, dava a imprensão de estar-se voltando de uma viagem no Tempo, a um Passado distante, e as luzes nos postes públicos possuiam uma realidade física que nos trazia de volta ao Século XX.
Mas, na materialidade de nossa existência, sabemos que tudo caminha para um fim.
Um determinado dia, o nosso amigo comum José A_ deixou de existir.
As reuniões terminaram naquele local.
De vez em quando os membros do grupo reuniam-se.
Chegamos a nos reunir esporadicamente na biblioteca.
Mas os tempos eram outros.
Uma década produz muitas mudanças nas vidas humanas.
Um a um fomos adormecendo. Alguns membros da ordem para sempre.

E, em um dia especialmente frio e chuvoso, quando, através das vidraças baças, eu observava distraído o trânsito, esperando que uma estiagem da chuva permitisse ir-me embora, carregando um livro sob o braço, um funcionário acendeu as lâmpadas do saguão.
Aquelas luzes acentuaram mais a penumbra da sala aonde encontrava-me.
Entre os riscos fugidios de luz dos relâmpagos e o som ribombante de um trovão escutei a frase: - Escolha uma carta!

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