1963. O ano era 1963.
Reinaldinho tinha quatro anos.
Um garoto loiro, miúdo.
A sua mãe era, como se dizia na época, uma mulher da vida.
Mas era mãe. Contudo mãe ausente.
Não foram poucas as noites em que a mesma deixava o menino só em casa e saia para a noite.
Reinaldinho era uma criança triste. Via-se alegria em seu rosto infantil quando, nos finais das tardes, pedalava o seu velocípede pelas calçadas.
E
foi através de sua crescente dificuldade em impulsionar o brinquedo que
evidenciou-se os sintomas da doença que o estava acometendo.
Mas, passou-se mais algum tempo para que a mãe notasse.
E o ruído característico do brinquedo pelas calçadas continuou.
Mais fraco, mais cadenciado, conforme o ritmo da impulsão que Ronaldinho aplicava aos pedais.
Por um dia, dois, três, Reinaldinho não apareceu ao final da tarde, para o seu costumeiro passeio.
As outras mulheres indagaram a mãe, em uma oportunidade que se fez, da ausência do menino.
Ele referiu que o garoto estava doente, com uma infecção na época tratada como "reumatismo infeccioso".
Entre o diagnóstico e o passamento, correu o espaço de alguns dias.
Um
enterro simples, triste, de poucas pessoas, sob um céu de chumbo, de
garoa fria, em um hoje distante junho, de outra época, de outras modas,
de outros valores, de outros sentimentos.
Em uma quadra geral no Cemitério da Saudade.
É esse fim que projeta o indivíduo para a Eternidade.
A vida é um lapso, mas morre-se para todo o sempre.
Passaram-se décadas.
As pessoas mudam, morrem, casas são construídas, casas são demolidas.
A um constante e inútil movimento chamado de progresso.
Muda-se a aparência, mas não se muda da essência.
Os lugares são sempre os mesmos em suas energias.
O cemitério também mudou.
Não existem mais as quadras gerais, com os sepultamentos na terra.
Tudo foi revirado e transformado.
Nada mais restou.
No
entanto, por muito tempo, os antigos moradores da vizinhança do finado,
ouviam nas tardes frias e silenciosas, no início da noite, entre a brisa
e as folhas soltas ao vento, entre os murmúrios dos dias passados, o
ruído do velocípede do Reinaldinho.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Postagens populares
-
Sons na noite. Não os provocados pelo gatos, essas criaturas que tem um pé em cada mundo. Não os provocados pelas folhas secas levadas pela ...
-
Nariz adunco, pele morena, chapéu de feltro com a aba caída, calça cáqui, camisa clara. Jamais soubemos o seu nome. A tiracolo uma caixa de...
-
Há relatos, desde muito tempo, sobre pontos de luz avistados nos ermos, em ruas desertas, em casas que sabidamente pelas lendas, são tidas ...
-
Algumas coisas são para sempre. Não importa a passagem do Tempo e dos costumes. Em um dia de outrora, na Rua Industrial, passou a funcionar ...
-
De tempos em tempos nas cidades mais interioranas, acontece de aparecer o cadáver de uma mulher jovem, loira, não identificada, morta de m...
-
Ao final da tarde ele aparecia na esquina. Entre as sombras do crepúsculo entre as paredes antigas. A sua buzina tocada por um fole era inc...



Nenhum comentário:
Postar um comentário